Para azar dos corneteiros, Ancelotti começa a achar um time
Todo técnico da seleção brasileira passa pelo mesmo ritual. Antes mesmo de a Copa começar, precisa enfrentar uma multidão de especialistas convictos de que fariam um trabalho melhor. Basta uma escalação diferente, uma substituição inesperada ou uma entrevista sem frases de efeito para começar o julgamento. Carlo Ancelotti, claro, não escapou desse tribunal permanente.
Mas os fatos começam, lentamente, a atrapalhar o roteiro dos corneteiros. O Brasil, reconheça-se, ainda está longe de encantar. Não coleciona jogadas antológicas nem faz o torcedor levantar do sofá a cada ataque. Mas há algo que começa a aparecer com clareza: existe um time. Talvez pela primeira vez em muito tempo, a seleção apresente uma identidade reconhecível.
O estilo de jogo do time de Ancelotti não é aquele com que o brasileiro sonhou. Durante décadas nos acostumamos com a ideia de que a seleção tem a obrigação de dar espetáculo. Queremos tabelas curtas, dribles, posse de bola, futebol artístico. Com essa geração, isso é impossível, mas Ancelotti mostrou que existem outros caminhos que podem levar o Brasil mais longe na Copa.
A seleção joga um futebol pragmático. Quando recupera a bola, acelera o jogo – foi assim que nasceram os gols contra a Escócia. Quando não precisa correr riscos, simplesmente não corre. Em vez de transformar cada partida em um festival de dribles e jogadas de efeito, procura controlar o jogo e esperar o momento certo para atacar. Pode parecer pouco romântico, e não é mesmo. Mas é o que temos para hoje.
O Brasil terminou a fase de grupos invicto, sofreu apenas um gol e, aos poucos, vai encaixando funções que antes pareciam perdidas. Vinicius Júnior encontrou um papel mais decisivo, Casemiro melhorou, Matheus Cunha entrega o que se espera de um centroavante. E, para a frustração de muita gente, Neymar entrou em campo.
Nada disso significa que o Brasil virou favorito ao título. Ainda será preciso provar que esse modelo funciona quando França, Espanha ou Argentina estiverem do outro lado. Mas também não dá mais para fingir que nada aconteceu. Ancelotti encontrou um time e mostrou que a seleção pode ser menos vistosa do que gostaríamos, mas bem mais competitiva do que os críticos imaginavam.
Parte da crítica esportiva parece ter escolhido um caminho curioso: torcer para que Ancelotti fracasse apenas para confirmar previsões feitas antes da Copa. Quando o Brasil vence, a explicação é sempre o adversário fraco. Quando joga de forma segura, dizem que falta brilho.
Existe um velho ingrediente das campanhas vencedoras do futebol brasileiro: o sentimento de “nós contra eles”. Em 1994, Parreira conviveu durante meses com a desconfiança. Diziam que seu time era defensivo, burocrático, sem talento suficiente. A seleção transformou aquela avalanche de críticas em combustível para levantar a taça em Pasadena.
Os corneteiros talvez não percebam, mas começam a jogar a favor de Ancelotti. Cada análise de mau humor reforça um velho sentimento do futebol: a certeza de que é preciso provar alguma coisa. Em torneios curtos, o espírito de “nós contra eles” costuma unir elencos e produzir equipes mais competitivas do que pareciam no papel. Isso, evidentemente, não garante o hexacampeonato, mas talvez Ancelotti já tenha conquistado sua primeira vitória: começar a calar os corneteiros.