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Petróleo em alta e bons retornos impulsionam fundos de riqueza soberanos

02 de Julho de 2026, 21:56 0 visualizações
Petróleo em alta e bons retornos impulsionam fundos de riqueza soberanos

Poupar vale a pena, mas é preciso ter clareza sobre como fazê-lo e qual destino será dado aos rendimentos. Nos últimos anos, houve um boom de fundos de riqueza soberanos, pelos quais os países administram e investem trilhões de dólares provenientes da venda de petróleo e gás, de superávits comerciais ou de outras fontes de recursos nacionais. O volume desses fundos dobrou desde 2018, de 7,5 trilhões para quase 16 trilhões de dólares (veja gráfico). Eles passaram também a ter um grande peso em mercados de capital mundo afora. Só o Fundo Global de Pensões do Governo da Noruega (GPFG) — referência por sua transparência e padrão de governança, a cargo do Norges Bank Investment Management (NBIM), ligado ao banco central do país — administra 2 trilhões de dólares, tendo em carteira 1,5% das ações de todas as empresas listadas em bolsa no mundo. Fundos como o Temasek, de Singapura, e o Mubadala, de Abu Dhabi, ganharam visibilidade por investimentos em setores estratégicos e de tecnologia. Recentemente, o Fundo de Investimento Público (PIF), da Arábia Saudita, juntou-se a instituições do Catar e de Abu Dhabi para se associar ao empresário David Ellison, aliado do presidente americano Donald Trump, e viabilizar a aquisição da Warner Bros. Discovery, dona da rede de notícias CNN, pela Paramount Skydance.

Esses exemplos de sucesso ou de influência levaram muitos países a decidir criar seus fundos, mesmo quando não têm superávits comerciais robustos. O próprio Trump assinou uma ordem executiva para a criação de um fundo soberano americano, mas sua implantação ainda não avançou. Já a Indonésia lançou o megafundo Danantara, que administra ativos de estatais. Em abril, o Canadá criou um fundo soberano para investir em energia, infraestrutura, mineração, agricultura e tecnologia, com o objetivo de impulsionar a economia canadense em um contexto de ameaças tarifárias americanas.

Dois processos explicam essa explosão dos fundos soberanos. De um lado, fatores conjunturais fizeram crescer os valores neles depositados. As guerras na Ucrânia e no Irã elevaram os preços de petróleo e gás, enchendo os cofres de grandes exportadores de energia. A China, por sua vez, tem direcionado parte dos seus vastos superávits comerciais para fundos soberanos. “Além disso, houve o efeito da valorização dos ativos”, diz Gordon Clark, professor da Universidade de Oxford, no Reino Unido. “Em especial, muitos fundos têm ganhado com a alta da bolsa americana nos últimos dez anos.”

O segundo impulso recente dos fundos soberanos diz respeito a uma guinada política e econômica global. Como explica Adam Dixon, professor na Edinburgh Business School, na Escócia, muitos desses fundos têm se firmado como instrumentos de investimento de política industrial, num momento de maior intervenção estatal na economia. “A atuação desses fundos reflete o ‘capitalismo de Estado’, que ganhou força com a adesão dos Estados Unidos”, diz Dixon. “Diversos governos estão buscando um papel maior nos investimentos por razões estratégicas e de segurança nacional. Mas ainda não sabemos se isso levará a melhores resultados econômicos ou a uma alocação ineficiente de capital.”

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Tradicionalmente, os fundos soberanos foram criados por países produtores de commodities para evitar a chamada “doença holandesa” — referência aos desequilíbrios macroeconômicos que assolaram a Holanda nos anos 1960, quando as divisas geradas pela exportação de gás valorizaram a moeda local e reduziram a competitividade das demais exportações. Até os anos 2000, muitos países criaram fundos soberanos basicamente com dois objetivos: estabilizar os impactos econômicos e fiscais dos altos e baixos das commodities e preservar riqueza para as gerações futuras — caso do GPFG, financiado pelas exportações de petróleo e gás da Noruega. Criado nos anos 1990, o fundo norueguês investe em ações, imóveis, renda fixa e infraestrutura de energia renovável, mas apenas fora da Noruega, para evitar desequilíbrios internos. O governo norueguês só pode gastar internamente o equivalente ao retorno estimado do fundo, de 3% ao ano.

Com um modelo distinto, os fundos voltados a investimentos estratégicos e desenvolvimento econômico proliferaram da segunda metade dos anos 2000 em diante, inicialmente no Oriente Médio e na Ásia, embora recentemente o modelo venha ganhando adeptos entre países desenvolvidos. Esses fundos no geral investem tanto no mercado interno quanto no externo. Um exemplo é a China Investment Corporation (CIC), criada em 2007, que, além de investir em empresas estrangeiras, apoia a internacionalização de companhias chinesas.

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No final dos anos 2000, o crescimento desses investidores estatais passou a gerar preocupação nos Estados Unidos e na Europa. Temia-se que fundos de governos autoritários fossem usados como instrumentos de influência política ou de acesso a ativos estratégicos. Em resposta, gestores e diversos governos, com o apoio do Fundo Monetário Internacional, criaram um conjunto de 24 diretrizes conhecido como Princípios de Santiago. “A ideia era tranquilizar governos e mercados, estabelecendo que os fundos soberanos investiriam apenas com objetivos comerciais e financeiros. Mas a adesão sempre foi voluntária e não há monitoramento”, diz o italiano Bernardo Bortolotti, diretor do Transition Investment Lab da NYU Abu Dhabi. “Não há dúvida de que esses fundos são atores estatais e muitos têm objetivos estratégicos, como acesso a conhecimento e ativos que possam ajudá-los na corrida tecnológica. Mas é claro que há grande diversidade no setor. O fundo norueguês e o PIF saudita são opostos em termos de estratégia e transparência, e entre esses dois modelos há outros, híbridos.” Por isso, é difícil compará-los em termos de eficiência. Mas um sinal de fracasso é claro: os fundos minguam quando os governos de ocasião não resistem à tentação de garfar dinheiro para cobrir déficits ou financiar projetos politicamente motivados. A Rússia, por exemplo, viu o montante de seu fundo soberano cair mais de 50% após recorrer a ele para financiar a invasão da Ucrânia e atenuar sanções internacionais.

Estúdios da Warner Bros.: compra pela Paramount contou com recursos de fundo saudita
Estúdios da Warner Bros.: compra pela Paramount contou com recursos de fundo sauditaGerry Boughan/Shutterstock

O Brasil tem seu próprio histórico de tropeços. Criado em 2008 com um aporte de 14 bilhões de reais, o Fundo Soberano do Brasil (FSB) foi extinto em 2018, após ser usado para cobrir rombos nas contas públicas. “O FSB foi criado com recursos de um superávit primário em vez de uma fonte mais previsível, o que prejudicou sua longevidade”, diz Fernando Teixeira, diretor do Fórum de Fundos Soberanos Brasileiros. Já o Fundo Social (FS) do pr­é-sal, criado em 2010, está em operação, mas tem muitos problemas — a começar pela falta de transparência. “Estimamos que o FS recebeu 30 bilhões de reais só em 2025, mas o total de seu capital não é divulgado”, diz Iago Montalvão, pesquisador do Instituto de Pesquisa em Petróleo, Gás e Biocombustíveis. Originalmente, o fundo deveria usar recursos do pré-sal para financiar programas de educação (50% dos aportes), cultura, esporte, saúde pública, ciência e tecnologia e meio ambiente. Esse mandato, já amplo, foi expandido em 2025 para incluir o financiamento do Minha Casa, Minha Vida, ações de segurança hídrica e alimentar, respostas a calamidades públicas e a defesa de povos indígenas. Agora tramita no Congresso um projeto que autorizaria o uso do FS para criar uma linha de crédito a ruralistas afetados por eventos climáticos. “Seria um desvirtuamento completo dos objetivos do fundo”, diz Montalvão. Quando o investidor é um país, é impossível poupar sem visão de longo prazo.

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“Nosso objetivo é claro: gerar o maior retorno possível”

Trond Grande, vice-presidente do braço de investimentos do Banco Central da Noruega, conta como é gerenciado o maior fundo soberano do mundo, com US$ 2 tri em ativos

Trond Grande, VP do NBIM, que gerencia o fundo norueguês: “Investimos apenas fora do país”
Trond Grande, VP do NBIM, que gerencia o fundo norueguês: “Investimos apenas fora do país”NBIM/Divulgação

Quais as lições da experiência norueguesa para os outros fundos soberanos? A primeira é ter um objetivo claro. Há trinta anos recebemos a primeira transferência para o fundo e o nosso foco sempre foi o mesmo: transformar parte das receitas de petróleo e gás em poupança para as futuras gerações, maximizando os retornos de longo prazo. A segunda lição é que investimos apenas fora da Noruega, o que ajuda a manter interesses domésticos afastados do fundo. A terceira é sobre governança: o “dono” formal do fundo é o Ministério das Finanças, mas ele delega a sua gestão para nós, do Banco Central. A divisão de responsabilidades é clara e há uma distância saudável da política.

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Isso pode mudar? Em teoria, sim, porque o fundo pertence ao povo, representado pelo Parlamento. Todos os anos, o governo apresenta à comissão de finanças do Parlamento um relatório sobre a gestão do fundo e eventuais propostas de mudança. A comissão também pode fazer recomendações. Ao longo do tempo, houve decisões influenciadas pela política, como a exclusão de investimentos em carvão ou a introdução de investimentos em energia renovável. Mas há um amplo consenso político em torno da manutenção de uma estratégia estável e de longo prazo.

O fato de a Noruega ser um país pequeno e rico ajuda? A Noruega se beneficiou de instituições fortes. Não criamos instituições novas para administrar o fundo. Construímos sobre as que já existiam. A transparência também foi fundamental. Hoje, um quarto do orçamento do Estado é financiado pelas transferências do fundo e desde 2001 uma regra fiscal impede o governo de gastar mais do que o retorno real esperado de longo prazo do fundo: 3%. Houve exceções em momentos como a crise financeira global e a pandemia, mas, de modo geral, a regra tem sido respeitada.

Como equilibrar ética e retorno financeiro? O fundo investe em vários gigantes de tecnologia e IA, por exemplo, que são altamente rentáveis mas também estão no centro de controvérsias globais. Pode haver investimentos que não queremos fazer por razões éticas, mesmo sendo lucrativos. Temos um Conselho de Ética independente, que recomenda quais empresas não devem integrar a carteira do fundo com base em critérios estabelecidos pelo Parlamento. O governo está revisando atualmente essa estrutura e apresentará conclusões em outubro. Administramos um fundo global amplamente diversificado. Investimos em cerca de 7 000 empresas e tentamos usar nossa in­fluência como investidores para incentivar práticas sustentáveis no longo prazo.

Publicado em VEJA, junho de 2026, edição VEJA Negócios nº 27

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