Petróleo recua após acordo entre EUA e Irã, mas normalização de Ormuz pode levar semanas
Os preços do petróleo caíram nesta segunda-feira após o anúncio de um acordo entre Estados Unidos e Irã para reabrir gradualmente o Estreito de Ormuz, passagem marítima por onde circula cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo.
Apesar do alívio inicial dos mercados, analistas afirmam que a retomada do tráfego marítimo deverá ser lenta e continuará sujeita a riscos geopolíticos.
O barril do Brent, referência internacional para os preços do petróleo, recuou mais de 4%, refletindo expectativas de que a principal rota de exportação dos países do Golfo volte a operar após mais de três meses de conflito militar.
A rota mais estratégica do planeta
Localizado entre Irã e Omã, o Estreito de Ormuz é considerado um dos pontos mais sensíveis do comércio internacional.
Antes da guerra iniciada em fevereiro, aproximadamente 20% do petróleo mundial e cerca de 25% do gás natural liquefeito (GNL) negociado internacionalmente passavam diariamente pela passagem marítima.
Segundo dados da Agência Nacional de Energia, cerca de 20 milhões de barris de petróleo atravessavam a região todos os dias.
O bloqueio provocou um choque imediato nos mercados de energia e obrigou produtores, refinarias e empresas de transporte a reorganizarem cadeias logísticas.
A interrupção também reacendeu preocupações semelhantes às observadas durante os ataques a petroleiros em 2019 e após as ofensivas dos houthis no Mar Vermelho nos últimos anos.
Centenas de navios aguardam autorização
Embora o acordo tenha sido recebido positivamente pelos mercados, a normalização das operações está longe de ser imediata.
Entidades do setor marítimo estimam que cerca de 500 embarcações comerciais permanecem concentradas na região do Golfo Pérsico aguardando condições seguras para atravessar o estreito.
Antes do conflito, aproximadamente 130 navios cruzavam a passagem diariamente. Hoje, o fluxo permanece reduzido a uma fração desse volume.
O congestionamento preocupa armadores e autoridades marítimas, já que uma travessia comercial normalmente leva cerca de oito horas. Mesmo com a reabertura, o escoamento da fila acumulada poderá levar semanas.
Minas e segurança continuam sendo preocupação
O principal obstáculo para a retomada plena do tráfego não é apenas diplomático.
Durante o conflito, houve relatos de instalação de minas marítimas nas rotas de navegação e de ataques contra embarcações comerciais. Estimativas do setor apontam que ao menos 46 navios foram alvo de incidentes desde fevereiro, enquanto dois cargueiros teriam sido apreendidos por forças iranianas.
Pelos termos do acordo, o Irã deverá conduzir operações de desminagem durante os primeiros 30 dias após sua assinatura.
Mesmo assim, associações internacionais de transporte marítimo alertam para o risco de congestionamentos, manobras imprevisíveis e dificuldades de coordenação caso centenas de embarcações tentem cruzar simultaneamente a região.
Petróleo mais barato não significa alívio imediato
A queda das cotações reflete expectativas futuras, mas não necessariamente uma melhora imediata no abastecimento.
Analistas observam que a reconstrução da logística energética pode levar meses. Além da retomada da navegação, será necessário recompor estoques estratégicos, reorganizar contratos de transporte e reparar instalações afetadas pela guerra.
Especialistas do setor energético avaliam que o mercado continuará relativamente apertado até pelo menos 2027, especialmente após meses de interrupções nas exportações da região.
Fantasma do Mar Vermelho
Parte dos analistas compara o cenário atual ao que ocorreu no Mar Vermelho.
Mesmo após acordos diplomáticos e redução dos ataques, o tráfego marítimo na região continua muito abaixo dos níveis observados antes do início das hostilidades. Muitas empresas de navegação ainda evitam a rota por considerá-la insegura.
O temor é que situação semelhante se repita em Ormuz.
Para armadores e seguradoras, a simples existência de um acordo não elimina o risco de novos confrontos nem garante estabilidade permanente na passagem.
Impacto vai além do petróleo
Os efeitos da crise ultrapassam o setor energético.
O Estreito de Ormuz é uma artéria vital para o comércio mundial, conectando produtores do Oriente Médio a mercados da Ásia, Europa e América do Norte. Qualquer interrupção afeta fretes, seguros marítimos, preços de combustíveis e custos industriais.
Além do petróleo, a região é fundamental para as exportações de gás natural liquefeito do Catar, um dos maiores fornecedores do mundo.
Por isso, investidores seguem acompanhando não apenas a implementação do acordo, mas também a capacidade de Estados Unidos e Irã de evitar novos episódios de escalada militar.