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Plano da Braskem mostra buraco de US$ 3,2 bi no caixa e aposta no Rio

25 de Junho de 2026, 16:28 0 visualizações
Plano da Braskem mostra buraco de US$ 3,2 bi no caixa e aposta no Rio

Enquanto o mercado acompanha a troca pública de cartas entre a Braskem e o comitê de detentores de títulos da companhia, hoje foram divulgados os chamados Cleansing Materials do Projeto Catalyst, preparados para as conversas de reestruturação. O material mostra que a companhia enfrenta uma muralha de vencimentos nos próximos meses e que, no cenário sem reestruturação, o caixa livre da Braskem entraria em território profundamente negativo já antes do vencimento do bond de 2028.

A fotografia é dura. Em abril de 2026, a Braskem tinha US$ 911 milhões em saldo de caixa disponível. Entre julho de 2026 e dezembro de 2027, porém, o serviço da dívida previsto soma US$ 3,686 bilhões. O aperto mais agudo aparece em janeiro de 2028, quando a projeção indica caixa livre negativo de US$ 3,248 bilhões no cenário de manutenção das condições atuais da dívida.

É esse buraco que ajuda a explicar a pressa da companhia em buscar uma solução judicial e tentar empurrar prazos. A proposta apresentada aos credores prevê a implementação por meio de recuperação extrajudicial, extensão de vencimentos por cinco anos, possibilidade de pagamento de juros em PIK entre julho de 2026 e dezembro de 2028 e redução de 200 pontos-base nas taxas aplicáveis aos instrumentos financeiros. Não há, no desenho apresentado pela empresa, corte de principal nem conversão de dívida em ações.

O ponto menos evidente do material, porém, está fora da engenharia financeira. A virada operacional projetada pela Braskem depende de uma aposta industrial: o projeto Transforma Rio. Segundo os documentos, a capacidade instalada atual no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa é mantida até 2029, quando o projeto entra em operação e adiciona 220 mil toneladas por ano de capacidade incremental de etileno.

O plano também prevê cerca de US$ 900 milhões em capex estratégico entre 2026 e 2030, majoritariamente ligado ao Transforma Rio. Na prática, a reestruturação compra tempo para a companhia atravessar o pior momento de liquidez até que o investimento industrial comece a aparecer nos números. A receita líquida projetada sai de US$ 14,4 bilhões em 2028 para US$ 20,7 bilhões em 2035. O Ebitda, no mesmo intervalo, avança de US$ 1,5 bilhão para US$ 3 bilhões.

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O risco é óbvio: se o projeto atrasar, a matemática da recuperação fica mais frágil. A Braskem não está apenas pedindo alívio aos credores. Está apostando que o ciclo de investimentos será capaz de recompor volumes, margens e geração de caixa a partir de 2029.

Há ainda um detalhe relevante na estrutura da dívida. Embora o foco do mercado esteja nos bonds globais, parte importante do risco de curto prazo aparece em linhas de capital de giro ligadas à Braskem Trading & Shipping B.V., subsidiária sediada na Holanda. O documento lista US$ 402 milhões em aberto na Committed Facility IV e US$ 392 milhões na Committed Facility V. Ambas têm garantia integral da Braskem S.A.

Esse ponto ajuda a explicar por que a crise não se limita aos títulos negociados no mercado. O problema envolve também linhas bancárias de comércio exterior e cartas de crédito, com potencial de pressionar a liquidez da companhia e contaminar outras obrigações financeiras.

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Do lado dos credores, os documentos mostram a tentativa de impor travas duras à empresa durante a negociação. A contraproposta do comitê previa restrições a transações fora do curso normal dos negócios, incluindo novas dívidas, garantias, transferências de ativos, dividendos, distribuições e operações com partes relacionadas sem autorização dos credores.

Na prática, seria um cinto de segurança — ou de castidade financeira — sobre a Braskem. O objetivo era impedir que o alívio concedido pelos investidores fosse usado para outra finalidade que não a preservação de caixa e a negociação da dívida.

A Braskem rejeitou a contraproposta, classificando-a como inaceitável e contrária aos interesses da companhia e de seus stakeholders. A empresa diz, nos próprios materiais, que segue comprometida em buscar uma solução consensual, estruturada e ordenada para sua estrutura de capital.

O impasse, portanto, vai além da disputa entre empresa e bondholders. Os documentos mostram uma Braskem espremida por vencimentos de curto prazo, dependente de uma janela judicial de proteção e ancorada em uma aposta industrial que só começa a entregar resultado no fim da década. No centro dessa equação está uma pergunta que ainda não foi respondida pelo mercado: o Transforma Rio chegará a tempo de salvar a tese financeira da companhia?

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