Por que a antes fiel Giorgia Meloni se voltou contra Trump
A relação entre a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, era outrora vista como próxima — a mais fiel aliada do americano na Europa, continente que virou saco de pancadas preferencial do ocupante do Salão Oval durante seu segundo mandato, em especial dadas as semelhanças ideológicas entre a política italiana de extrema direita e o republicano cujo mote é tornar a América grande de novo.
Os laços, porém, toram testados por estranhamentos nos últimos meses, e abalados de vez por um desentendimento público no último sábado 20, quando a italiana acusou o americano de promover “ataques sem sentido”.
“Presidente Trump, esses ataques constantes e não provocados são sem sentido. Quanto à minha popularidade, ser sua amiga certamente não ajudou, nem depende da minha relação com você. Minha popularidade depende da minha capacidade de defender o interesse nacional da Itália, e foi exatamente isso que sempre fiz. (…) De qualquer forma, minha popularidade não é da sua conta. Sugiro que você se concentre na sua”, disparou Meloni em uma publicação no Instagram.
Foi uma resposta direta à declaração dada por Trump a um jornalista na última sexta-feira 19, quando o republicano afirmou que Meloni havia “implorado” por uma foto com ele durante a semana passada na cúpula do G7, grupo das sete maiores economias do mundo, na França.
A premiê refutou a alegação “completamente inventada” e se declarou estarrecida. No dia seguinte, porém, o presidente americano dobrou a aposta e foi à sua rede, Truth Social, para reiterar a afirmação, dizendo que Meloni “está indo mal na Itália com seu nível de popularidade” e que, após os Estados Unidos “derrotarem militarmente o Irã”, ela quer ser amiga novamente para aumentar seus “números”.
Sequência de desentendimentos
A rixa pública expôs uma dramática reviravolta na relação entre os líderes, que por muito tempo forjaram um vínculo de proximidade decorrente da simpatia de Meloni pelas políticas nacionalistas e anti-imigrantes de Trump. Quando o republicano foi empossado, em janeiro de 2025, a italiana foi a única líder europeia a comparecer à cerimônia, e o americano já chegou a defini-la como “uma das verdadeiras líderes do mundo”.
No entanto, a proximidade não trouxe grandes benefícios aos italianos, que viram suas exportações serem afetadas negativamente pelas tarifas impostas por Trump contra a União Europeia. A relação piorou após o ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, levando a um aumento dos preços da energia que impactaram a economia da Itália.
Embora Meloni não tenha criticado publicamente Trump na ocasião, Roma recusou-se a permitir que aviões militares americanos usassem bases aéreas na Sicília durante a campanha militar, afastando-se dos esforços de guerra trumpistas. As trocações públicas só começaram depois, quando o americano desferiu uma série de estocadas contra o papa Leão XIV, que a italiana descreveu como “inaceitáveis”.
A partir daí, Trump passou a adotar uma retórica mais belicosa, chegando a afirmar que Meloni “carecia de coragem”. A premiê manteve um silêncio diplomático até a cúpula do G7, quando o americano desferiu seu insulto mais recente. “Foi um ataque não provocado contra ela pelo presidente Trump, e Meloni teve que reagir”, disse o senador Lucio Malan, do partido Irmãos de Itália, sigla à qual a premiê pertence.
Consequências
De acordo com o analista Lorenzo Pregliasco, da agência de pesquisas públicas YouTrend, Meloni aproveitou a oportunidade para se distanciar de Trump, figura que define como “uma kriptonita em termos de opinião pública e popularidade”.
No entanto, a direitista terá dificuldades ao recalcular sua rota política, uma vez que há preocupações referentes a retaliações por parte de Washington e até mesmo se não parecerá que Meloni foi abandonada por Trump, e não o contrário.
“Ela permaneceu muito próxima dele, mesmo depois de muitos perceberem que Trump estava seguindo uma agenda que não estava alinhada com nossos interesses europeus e italianos”, disse Pregliasco. “Agora parece mais que Trump a repudiou do que o contrário”, completou.