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Por que libaneses torcem tanto pelo Brasil na Copa, segundo o diretor Cyril Aris

26 de Junho de 2026, 13:56 0 visualizações
Por que libaneses torcem tanto pelo Brasil na Copa, segundo o diretor Cyril Aris

Cyril Aris tinha um ano de idade quando passou por seu primeiro êxodo. Era 1988, a Guerra Civil Libanesa ainda seria travada por mais 24 meses e seu bairro natal havia se tornado alvo de bombardeios, forçando seus pais a permanecerem longe até 1990. Hoje, ele não se recorda tão bem daquele primeiro exílio, mas observou a história se repetir ao longo de toda a vida, conforme o país continuou a ser palco de conflitos — como a atual ocupação israelense. “Seja para a Europa, para os países do Golfo, Arábia Saudita ou Dubai, fugir faz parte da cultura. Quando fiz 18 anos, muitos dos meus amigos foram estudar no exterior. Depois da faculdade, as pessoas buscam emprego em outros países. Desde 2019, mais de meio milhão de jovens se mudaram por conta da crise econômica”, explicou o cineasta em entrevista a VEJA. Por conta disso, a maior população libanesa do mundo hoje está no Brasil, composta por cerca de 8 milhões de imigrantes e descendentes, segundo a Associação Cultural Brasil-Líbano.

Em meio a tanta impermanência, o povo libanês recorre a alguns escapes — desde a impressionante torcida pelo Brasil na Copa do Mundo até o simples ato de amar. Com isso em mente, Aris concebeu a agridoce história de amor Um Triste e Belo Mundo, já em cartaz nos cinemas, sobre um homem e uma mulher apaixonados desde a infância, mas desafiados pelas circunstâncias que os pressionam a deixar o país.

A trama percorre três décadas, mas jamais especifica as efemérides e tragédias que afligem o casal: “Decidi me libertar das datas, porque colocá-las seria dizer que essa história só poderia acontecer naquele intervalo de tempo quando, na verdade, a história do Líbano é cíclica”, pontuou o diretor entre outros comentários acerca das inspirações por trás do filme e de suas memórias de Beirute:

O Brasil tem a maior população libanesa do mundo, número que supera a própria população do Líbano. Exibir o filme por aqui é especial? Muito, sim. Também vejo semelhanças entre nossas culturas, no sentido de que há esse espírito de sempre buscar a alegria de viver apesar da escuridão e da dureza das circunstâncias ao nosso redor.

A protagonista, Yasmina, lamenta passar pelas mesmas provações que os pais enfrentaram no passado, sentimento que no Brasil ganhou até mesmo uma clássica música de Belchior. Tem descoberto novos paralelos do tipo ao exibir o filme pelo mundo? Sinto que cada cultura acaba se conectando a um tema diferente da história. É muito interessante você me dizer agora que, para os brasileiros, será essa natureza cíclica de herdar as histórias dos nossos pais. Na Europa ocidental,o público se enxerga nas incertezas sobre trazer crianças para o mundo de hoje. Já no Leste Europeu, se apegam muito mais ao tema da imigração, à história de deixar seu país para buscar um futuro melhor em outro lugar. 

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O título deixa claro que essa é uma história agridoce, apesar do romance. Por que não quis se entregar ao escapismo por completo? Acredito que contar uma história é uma combinação das duas coisas. Se você mostra apenas o lado triste, você não está sendo muito fiel ao espírito real das pessoas, que continuam vivendo e sonhando, com esperanças e ambições. Ao mesmo tempo, se você se concentra apenas nisso, acaba fechando os olhos para a realidade das coisas. Especialmente nos últimos anos, toda a região do Líbano tem fervido por causa de guerras e dos conflitos regionais. Contar uma parte sem a outra seria ignorar metade da história.

Ainda assim, o personagem Nino recorre a uma ilha imaginária quando quer escapar da realidade. O que lhe proporciona escapismo de forma semelhante? Para mim, é o simples ato de fazer filmes. É aí que encontro minha ilha, porque assim crio um mundo fictício sobre o qual tenho total controle, no qual posso projetar todos os meus sonhos e esperanças, assim como meus medos. Este filme é uma demonstração dessa esperança. Na nossa parte do mundo, fazer cinema não é uma profissão. É uma resistência cultural. É uma reafirmação de que nossas histórias merecem ser contadas. Elas importam e têm uma particularidade que as torna dignas de expressão artística.

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Outra fonte de alegria e esperança é o futebol. Vídeos de libaneses apaixonados pela Copa do Mundo têm viralizado na internet, alguns dos quais mostram torcedores fervorosos da Seleção Brasileira. Como é a cultura em torno da Copa no Líbano? Desde criança, sinto que a Copa do Mundo é como uma pausa entre nossos conflitos. Diferentes pessoas apoiam diferentes seleções, e a torcida se torna uma fonte de tensão divertida. Como não temos uma seleção forte, nem nunca participamos do campeonato, projetamos nossa paixão pelo futebol em outros países, e o entusiasmo vai longe. Eu vi vídeos da comemoração da vitória do Brasil contra a Escócia nesta quarta-feira, e eles ficaram nas ruas até as 3 ou 4 da manhã. Não sei nem se os brasileiros comemoraram tanto. Os libaneses fecharam ruas, soltaram fogos, carregaram bandeiras e tudo mais — sem que houvesse um único brasileiro na multidão. 

Por que acredita que o futebol tenha esse efeito? Novamente, isso combina conosco: só queremos viver, só queremos colocar nossas esperanças em algo, seja o que for. O futebol é uma linguagem universal e sentimos uma proximidade natural à Seleção Brasileira. Ela também é intensificada pela diáspora e pelo fato de que, historicamente, é a melhor seleção. Desde criança, meu irmão torce pelo Brasil. Acho que eu comecei a torcer para outros times só para provocar ele.

Mounia Akl e Hasan Akil esbanjam química em cena. Como chegou a este elenco? Escrevi o papel de Yasmina com Mounia em mente, porque ela tem um olhar lindo e inocente que esconde otimismo, mas é também capaz de demonstrar o lado mais frio e distante da personagem. Ela, na verdade, é uma diretora com quem colaboro há 15 anos e só tinha atuado em alguns curtas-metragens. Precisei me esforçar um pouco para convencê-la a ficar do outro lado da câmera.

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Um homem barbudo de cabelo encaracolado e uma mulher de cabelo escuro se aproximam para um beijo, com sorrisos sutis nos lábios. Ele veste uma camisa vermelha, ela uma blusa escura com um colar dourado. A iluminação é suave e quente
Hasan Akil e Mounia Akl em ‘Um Triste e Belo Mundo’//Divulgação

E ele? Não conhecia o Hasan, mas havia visto um filme em que ele tinha um papel secundário. Novamente, eu fui muito atraído pelos olhos dele, que são muito brilhantes. Fizemos testes, e ele foi quem melhor entendeu o personagem. Ele se identificou com Nino, porque todos seus amigos deixaram o Líbano, mas ele realmente nunca pensou em ir embora. O irmão e os pais dele incentivam que ele se mude, mas ele está determinado a ficar e sofre por ser o único a ter permanecido. Ele é uma pessoa cheia de energia e muito otimista, mas também entra em depressões intensas ocasionalmente — assim como Nino, que compensa a tristeza com muita alegria. Por fim, quando coloquei os dois frente a frente, a química foi natural. Além disso, os dois trabalharam bastante na construção desse relacionamento e passaram bastante tempo juntos. 

Depois de Um Triste e Belo Mundo, planeja continuar a situar suas histórias em Beirute? Passo metade do ano no Líbano e metade na Colômbia, onde a minha esposa mora — e, mesmo assim, sempre que escrevo algo que parece importante para mim, vejo que essa história se passa no Líbano. Também estou tentando pensar fora dessa caixa, claro. Tenho alguns projetos pensados para a língua inglesa, que se passam em outros países, mas meu coração está sempre lá. Sempre retornarei a essa fonte.

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