Por que o caso Digimais faz o mercado lembrar do Banco Master
A investigação da Polícia Federal sobre o Banco Digimais revelou semelhanças com mecanismos que estiveram no centro da crise do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em 2025. Segundo a PF, as práticas investigadas no banco ligado ao bispo Edir Macedo guardam pontos de contato com estratégias que também marcaram a trajetória da instituição controlada por Daniel Vorcaro, incluindo suspeitas de manipulação contábil, oferta de investimentos com rentabilidade acima da média do mercado e o uso do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como instrumento de atração de investidores.
A Operação Miragem, deflagrada nesta semana, apura suspeitas de que o Digimais tenha utilizado estruturas financeiras para melhorar artificialmente sua situação patrimonial e ocultar problemas em sua carteira de crédito. A ação resultou no bloqueio de até 670,3 milhões de reais em bens e valores dos investigados, além da quebra dos sigilos bancário e fiscal dos alvos da investigação.
Parte da apuração se concentra em operações envolvendo Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs). Segundo documentos analisados por VEJA, o Digimais subscreveu cotas de um fundo no valor de 659 milhões de reais mediante a cessão de direitos creditórios representados por Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) de sua titularidade. A suspeita investigada pelas autoridades é que estruturas desse tipo tenham sido utilizadas para retirar ativos problemáticos do balanço da instituição e melhorar seus indicadores financeiros.
A investigação também cita inconsistências documentais em parte desses ativos. Segundo documentos do processo, uma análise identificou que 22.184 CCBs não possuíam documentação comprobatória de lastro, o equivalente a 41% da carteira cedida ao fundo.
O ponto central da comparação com o Master está justamente na suspeita de que operações financeiras complexas tenham sido utilizadas para transmitir ao mercado uma percepção de solidez superior à realidade. Nos dois casos, investigadores apontam mecanismos que teriam contribuído para melhorar artificialmente indicadores patrimoniais e ampliar a capacidade de captação de recursos.
Outro ponto de contato está na estratégia de atração de investidores. Segundo a Polícia Federal, o Digimais passou a oferecer Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com remuneração superior a 110% do CDI, percentual acima do praticado pela maior parte das grandes instituições financeiras. O modelo lembra a estratégia adotada pelo Banco Master antes de sua liquidação.
Na avaliação dos investigadores, a combinação de retornos elevados com a proteção oferecida pelo Fundo Garantidor de Créditos ajudava a reduzir a percepção de risco dos investidores. Na prática, aplicações dentro dos limites de cobertura do fundo contam com garantia em caso de quebra da instituição financeira, o que facilita a captação de recursos mesmo em cenários de fragilidade financeira.
A comparação também envolve a questão da liquidez. Tanto o Master quanto o Digimais enfrentaram dificuldades para reforçar capital e atender exigências regulatórias enquanto continuavam buscando recursos no mercado. No caso do Digimais, o balanço do quarto trimestre de 2025 mostrou índice de Basileia de 7,98%, abaixo do mínimo regulatório de 11%. Posteriormente, o banco informou ter realizado um aporte de 250 milhões de reais, elevando o indicador para 13,49%.
As semelhanças, porém, não se limitam aos modelos de negócio.
Em janeiro de 2025, Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, anunciou a compra do Digimais mediante um aporte de 800 milhões de reais. A operação acabou não sendo concluída. Meses depois, o banco voltou a procurar compradores até chegar ao acordo anunciado neste ano com o BTG Pactual, ainda sujeito à aprovação dos órgãos reguladores.
Outro elo está nos ativos relacionados ao próprio Master. O Digimais também possuía cerca de 600 milhões de reais alocados em fundos compostos por carteiras de crédito ligadas ao Banco Master. Após a liquidação da instituição de Vorcaro, a qualidade, o lastro e a documentação desses ativos passaram a ser alvo de questionamentos.
Há ainda uma conexão envolvendo a ID Corretora de Títulos e Valores Mobiliários. A empresa aparece entre os alvos da Operação Miragem e é apontada pela Polícia Federal como peça relevante na estrutura utilizada pelo Digimais nas operações investigadas. A conexão vai além da atuação da corretora. Parte dos executivos ligados à ID tem passagem por estruturas que antecederam a formação do atual Banco Master, criando mais um elo entre os dois episódios.
Apesar das comparações, os casos apresentam diferenças importantes. O Banco Master teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em novembro de 2025. O Digimais segue em operação e é alvo de uma investigação ainda em andamento.
Em nota, o Digimais afirmou que permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e colaborar com as apurações em curso. A instituição também declarou manter compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a colaboração com os órgãos competentes.