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Qual foi a causa da morte do autor Benedito Ruy Barbosa

07 de Julho de 2026, 12:40 0 visualizações
Qual foi a causa da morte do autor Benedito Ruy Barbosa

A causa da morte do autor Benedito Ruy Barbosa, aos 95 anos, na manhã desta terça-feira, 7, foi devido a complicações de  um quadro de insuficiência renal crônica (IRC), de acordo com boletim médico do Hcor, onde ele estava internado, em São Paulo. “A instituição se solidariza com os familiares e amigos neste momento de pesar.”, disse o hospital em nova enviada a VEJA. O documento foi assinado pelos médicos Alexandre Biasi Cavalcanti, superintendente médico, de Ensino e Pesquisa, e Cyrilo Emilio Zuccon Mantovani, clínico geral.

Quem foi Benedito Ruy Barbosa?

Nascido em 17 de abril de 1931, em Gália, no interior paulista, Benedito, filho mais velho de cinco irmãos, cresceu entre cafezais e comunidades formadas por descendentes de italianos e japoneses na cidade vizinha de Vera Cruz. A infância foi interrompida cedo pela morte precoce do pai, o jornalista Otávio Barbosa, fundador o jornal A Voz de Vera Cruz, aos 29 anos, e quando o futuro dramaturgo tinha apenas 11. A necessidade de trabalhar ainda menino, já que a mãe, Aurora Medeiros Barbosa, não poderia sustentar a família sozinha, primeiro no interior e depois na capital paulista, moldou uma visão de mundo que mais tarde seria transportada para a ficção. Seu primeiro trabalho acabou sendo como auxiliar de guarda-livros em uma firma. Antes de viver da escrita, foi auxiliar de escritório, vendedor, faxineiro, bancário, revisor e repórter esportivo. 

Poucos autores ajudaram a moldar a identidade da telenovela brasileira como Benedito Ruy Barbosa. Em uma televisão historicamente marcada por tramas urbanas, ele fez do campo, das plantações, dos rios, das disputas por terra e das famílias de imigrantes o centro de histórias que atravessaram gerações. Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, consolidou um estilo próprio: novelas em formato de saga, protagonizadas por personagens de forte senso moral, romances quase impossíveis e um olhar atento para a formação cultural do país.

A literatura abriu as portas para a dramaturgia. Inspirado pela temporada que passou na zona rural do Paraná, escreveu o romance Fogo Frio, transformado em peça teatral sob direção de Augusto Boal em 1959 e premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte. O reconhecimento o levou ao mercado publicitário, onde começou a escrever radionovelas e, posteriormente, teledramaturgia. Sua estreia como novelista ocorreu na década de 1960, mas foi em 1971, com Meu Pedacinho de Chão, que encontrou a marca que definiria sua carreira.

A novela representou uma ruptura. Em plena ditadura militar, Benedito apostou em um universo rural brasileiro tratado com realismo, abordando técnicas agrícolas, educação e a vida no campo. Mesmo submetida à censura, a obra mostrou que era possível fazer sucesso contando histórias longe dos grandes centros urbanos. A partir dali, o autor consolidou uma dramaturgia baseada na observação direta da realidade. Antes de iniciar um projeto, costumava visitar as regiões que serviriam de cenário para suas histórias, numa busca por sotaques, costumes e personagens reais que alimentariam sua ficção.

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Na Globo, para onde foi contratado em 1976, escreveu sucessos como Cabocla, Paraíso, Sinhá Moça e Vida Nova. Mas seria nos anos 1990 que seu nome alcançaria um novo patamar. Depois de escrever Pantanal (1990) para a extinta TV Manchete, novela que revolucionou a linguagem da televisão ao privilegiar paisagens naturais e gravações externas, retornou à Globo para criar Renascer (1993), marco definitivo da dramaturgia rural brasileira. Em seguida vieram O Rei do Gado (1996), Terra Nostra (1999), Esperança (2002) e Velho Chico (2016), produções que combinaram conflitos familiares, disputas econômicas, imigração, religiosidade popular e grandes histórias de amor.

As sagas familiares tornaram-se sua assinatura. Em vez de concentrar a narrativa apenas no presente, Benedito gostava de reconstruir a origem dos conflitos, acompanhando personagens ao longo de décadas e mostrando como escolhas individuais repercutiam nas gerações seguintes. Foi essa estrutura que transformou famílias como os Mezenga e os Berdinazi, em O Rei do Gado, em símbolos da televisão brasileira. Em Terra Nostra, mergulhou nas raízes da imigração italiana, tema profundamente ligado à própria infância, para narrar a formação de uma parte importante da sociedade brasileira.

Embora suas novelas fossem marcadas por grandes romances, Benedito sempre sustentou que seus verdadeiros protagonistas eram pessoas comuns. Trabalhadores rurais, pequenos agricultores, boias-frias, peões, fazendeiros, imigrantes e famílias espalhadas pelo interior do país ocupavam o centro da narrativa. Seus heróis raramente eram movidos por ambição desmedida. Em geral, destacavam-se pelo caráter, pela perseverança e pela crença de que a família e a terra constituem pilares da vida em sociedade.

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Sua obra também ajudou a redefinir a estética das novelas brasileiras. O uso intensivo de locações naturais, fotografia cinematográfica e longas sequências externas ampliou as possibilidades da produção televisiva. Em títulos como Pantanal, Renascer e Velho Chico, a paisagem deixou de ser pano de fundo para se tornar personagem da história.

Mesmo após reduzir o ritmo de trabalho, sua influência permaneceu evidente. Remakes de clássicos como Meu Pedacinho de Chão, Sinhá Moça, Pantanal e Renascer apresentaram suas histórias a novas gerações. Nas duas últimas adaptações, assinadas por seu neto Bruno Luperi, ficou evidente que os temas desenvolvidos por Benedito, como pertencimento, memória, conflitos familiares, relação com a terra e identidade brasileira, todos assuntos que resistem ao tempo e continuam dialogando com o público.

Mais do que um autor de novelas, Benedito Ruy Barbosa construiu uma obra que ajudou a registrar, em linguagem popular, parte da formação social e cultural do Brasil. Em suas histórias, o país sempre apareceu longe das grandes avenidas: estava nos cafezais, nas fazendas de gado, às margens do Rio São Francisco, no Pantanal e nas pequenas comunidades do interior. Foi ali que encontrou os personagens que transformaria em alguns dos mais memoráveis da história da televisão brasileira.

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