Quando a RD Congo ainda era Zaire: como a tensão de uma ditadura interrompeu a cobrança de falta de Rivelino
Na última participação da República Democrática do Congo em uma Copa do Mundo, o mundo era muito diferente. O país, inclusive, tinha outro nome: Zaire. Antes da despedida do torneio e do início de um jejum que duraria 52 anos, a seleção protagonizou um dos episódios mais curiosos da história da competição.
Na partida contra o Brasil, quando a equipe canarinho já vencia por 2 a 0, uma falta na entrada da área parecia oferecer a Rivelino a chance de ampliar a vantagem. Enquanto o camisa 10 se preparava para a cobrança, um jogador da barreira africana rompeu a formação e chutou a bola para longe.
Brasileiros e zairenses observavam a cena sem entender o que havia acontecido. O árbitro romeno Nicolae Rainea interrompeu a partida e mostrou cartão amarelo ao defensor Mwepu Ilunga.
“Por quê?” era a pergunta que pairava sobre o gramado. Durante anos, o lance foi tratado como um gesto de desconhecimento técnico ou simples indisciplina. Porém, a ideia de que um atleta da seleção do Zaire desconhecia fundamentos básicos do esporte fazia pouco sentido. Ilunga era um jogador experiente, campeão africano e presença frequente na equipe nacional desde o início da década de 1970.
O própio jogador afirmou em entrevista à BBC, em 2010, que conhecia perfeitamente as regras e que chutou a bola de propósito. Para entender o que aconteceu naquela tarde na Alemanha Ocidental, porém, é preciso olhar para além do futebol.
Naquele momento, o Zaire vivia sob o comando do ditador Mobutu Sese Seko. No poder desde 1965, ele transformou o esporte em uma ferramenta de propaganda política. Em 1971, rebatizou o país, que passou a se chamar Zaire. Três anos depois, comemorou a classificação da seleção para a Copa do Mundo como uma conquista pessoal.
A campanha havia sido histórica. O Zaire se tornou o primeiro país da África Subsaariana a disputar um Mundial. Antes da viagem para a Alemanha, os jogadores foram recebidos por Mobutu na residência presidencial. O encontro foi marcado por promessas grandiosas: casas, carros novos e prêmios em dinheiro para todo o elenco. Muitos deixaram a reunião acreditando que suas vidas estavam prestes a mudar.

As promessas, porém, nunca chegaram aos jogadores. A classificação para a Copa atraiu dirigentes, funcionários do governo e membros da comitiva interessados em compartilhar o prestígio da campanha. No caminho, boa parte do dinheiro prometido ao elenco desapareceu. Os atletas sequer recebiam as diárias que lhes permitiriam aproveitar os dias na Alemanha Ocidental e foram orientados a permanecer no hotel.
O ambiente se deteriorou rapidamente. Além da frustração com as premiações não pagas, a seleção descobriu na Copa uma realidade bem diferente daquela imaginada por Mobutu.
Campeão africano, o Zaire dominava os adversários em seu continente, mas tinha pouca experiência contra equipes de outras partes do mundo. Os jogadores atuavam apenas no futebol local, consequência de uma política do próprio regime que impedia a transferência de atletas para clubes estrangeiros.
A estreia terminou com derrota por 2 a 0 para a Escócia. O resultado era administrável. O clima ao redor da equipe, não. Antes da segunda partida, contra a Iugoslávia, integrantes do governo passaram a acusar o técnico Blagoje Vidinic, ele próprio iugoslavo, de colaborar com os adversários. Segundo eles, o treinador teria repassado informações sobre a equipe ao seu país de origem.
A situação piorou depois da derrota para a Iugoslávia. Antes da partida, jogadores chegaram a discutir um boicote em protesto contra o desaparecimento das premiações prometidas pelo governo. No fim, decidiram entrar em campo.
O resultado foi desastroso. O Zaire sofreu uma goleada por 9 a 0, uma das maiores da história das Copas. A humilhação provocou a reação das autoridades. Segundo Ilunga, representantes do governo transmitiram um recado enviado por Mobutu: se a seleção perdesse para o Brasil por mais de três gols, os jogadores poderiam nunca mais rever suas famílias.

Não é possível saber se a ameaça era real ou apenas uma tentativa de intimidação. O fato é que ela ajudou a moldar a interpretação que o próprio Ilunga daria ao lance anos depois.
Ao longo da vida, o defensor apresentou versões diferentes para explicar por que saiu da barreira e chutou a bola para longe. Em entrevistas à BBC e a jornais franceses, afirmou que tentou provocar a própria expulsão em protesto contra dirigentes que haviam ficado com o dinheiro destinado aos jogadores. Segundo ele, não fazia sentido continuar se sacrificando em campo enquanto outras pessoas lucravam com a campanha da seleção.
Em outras ocasiões, descreveu o episódio como um gesto de irritação e frustração. O Zaire já estava eliminado, o ambiente na delegação era ruim e a equipe acumulava derrotas. O chute teria sido uma reação impulsiva de alguém que já não tinha motivação para continuar jogando. Havia também o receio de que um terceiro gol brasileiro desencadeasse uma nova humilhação e as consequências prometidas pelo regime.
Nem seus companheiros parecem ter certeza do que aconteceu. Alguns afirmaram nunca ter entendido o lance. Outros atribuíram a atitude ao nervosismo de Ilunga.
As promessas feitas por Mobutu não se concretizaram. A seleção voltou para casa sem sofrer as punições que temia. Entretanto, os carros, as casas e os prêmios em dinheiro também nunca chegaram aos jogadores.
Com o passar dos anos, muitos integrantes daquele elenco enfrentaram dificuldades financeiras e acabaram esquecidos pelo Estado que os havia celebrado durante a campanha rumo à Copa. Alguns deixaram o país e tentaram reconstruir a vida em outras partes do mundo. Outros morreram longe dos holofotes.
Ilunga foi um deles. Antes de morrer, em 2015, lamentou o rumo que sua vida tomou após o futebol. Em uma entrevista, disse que, se pudesse voltar atrás, teria preferido se dedicar à agricultura.