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Raphinha volta a sentir a coxa: por que essa lesão é tão difícil de evitar no futebol?

20 de Junho de 2026, 19:22 0 visualizações

Raphinha deixa o campo no jogo contra o Haiti, na sexta-feira (19), após sentir a coxa direita AP Photo/Matt Slocum Raphinha deixou o campo ainda no primeiro tempo da vitória da Seleção sobre o Haiti, na última sexta-feira (19), sentindo dores na parte posterior da coxa direita —a quarta vez em menos de um ano que o atacante sente dor na mesma região. O episódio ilustra um padrão conhecido da medicina esportiva: depois de uma lesão na musculatura posterior da coxa, o risco de uma nova lesão na mesma região aumenta de forma significativa. Esse fenômeno que começa a se explicar pela própria anatomia do bíceps femoral, o músculo mais associado a esse tipo de lesão no futebol. LEIA TAMBÉM: Brasil x Haiti: Raphinha sente dores na coxa e vai fazer exames; veja vídeo O que é o bíceps femoral A parte posterior da coxa é ocupada por um grupo de músculos chamado isquiotibiais —nome que vem da tuberosidade isquiática, ponto da bacia onde eles começam, e que termina na tíbia. Dentro desse grupo está o bíceps femoral. "O bíceps femoral é biarticular: ele atua sobre duas articulações ao mesmo tempo, o quadril e o joelho, fazendo a extensão do quadril, a flexão do joelho e a rotação externa da tíbia", explica o ortopedista Fabiano Nunes, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. Por cruzar duas articulações, o músculo costuma ser alongado nas duas extremidades simultaneamente —uma característica anatômica que, segundo o especialista, já o torna mais sujeito a sobrecarga do que um músculo de articulação única. O momento de maior risco A maioria das lesões nesse músculo não vem de choques ou pancadas, mas de corridas em velocidade máxima. Pouco antes de o pé tocar o solo, na fase de aceleração da perna, o bíceps femoral precisa frear a hiperextensão do joelho, impedir a flexão excessiva do quadril e controlar a desaceleração da perna que avança —tudo isso por meio de uma contração excêntrica, quando o músculo se contrai com força ao mesmo tempo em que se alonga, em vez de encurtar. "É exatamente nesse tipo de contração, que ocorre nos sprints de alta velocidade e nos movimentos de desaceleração, que se concentra o maior número de lesões musculares", afirma Nunes. Chutes de longa distância, cruzamentos e disputas de bola aérea exigem o mesmo tipo de esforço. É por isso que o músculo é tão solicitado ao longo de uma partida, mesmo fora dos momentos de sprint. Raphinha deixa o campo ao final da partida entre Brasil e Haiti AP/Matt Slocum Lesão antiga facilita uma nova A reincidência na mesma região tem explicação biológica. Segundo Nunes, ter uma lesão prévia é um dos fatores mais relevantes para uma nova lesão muscular: "Alguns estudos apontam até 30% de risco de nova lesão em quem já lesionou a região, mesmo quando o tratamento e a reabilitação foram bem-feitos." Isso acontece porque toda lesão deixa marcas biológicas e biomecânicas no tecido. A cicatriz que se forma —a fibrose— deixa a área mais fraca e menos elástica, além de encurtar a musculatura e fazê-la trabalhar sempre no limite de sua capacidade. Soma-se a isso a perda de força e a atrofia muscular que costumam acompanhar o período de afastamento. Há também uma redução no controle neuromuscular —a comunicação fina entre cérebro e músculo que ajuda a evitar movimentos lesivos. "Quando o atleta fica parado sem reabilitar adequadamente, esse controle se perde em parte, o que facilita novas lesões", diz o ortopedista. Dor antiga ou lesão nova? Um dos desafios mais comuns nesse tipo de quadro é diferenciar uma lesão recente de um desconforto remanescente de uma lesão anterior. Segundo Nunes, quando o atleta sai de campo andando normalmente, sem o protocolo agudo de gelo e compressão que costuma acompanhar uma lesão recém-constatada, é possível que se trate apenas de uma dor que já vinha sentindo, e não de um rompimento de fibra novo. Mas isso só exames de imagem podem confirmar, e a diferença muda completamente o prognóstico. A ressonância magnética é considerada o exame padrão-ouro, porque permite identificar a formação de hematoma, a extensão da fibra lesionada e a localização exata do dano —se está no ventre muscular, na transição com o tendão ou no próprio tendão. O ultrassom também é usado, principalmente para acompanhar a evolução ao longo do tempo, mas depende mais da experiência de quem o realiza. Quanto tempo o músculo leva para se recuperar O tempo de recuperação varia de acordo com o tamanho da lesão, sua localização exata e o tipo de atividade do atleta. Lesões com apenas edema, sem rompimento de fibra, podem permitir o retorno em uma a duas semanas. Já lesões com rompimento de fibra muscular dificilmente permitem a volta ao esporte em menos de três semanas —prazo que pode chegar a dois ou três meses, dependendo do grupo muscular envolvido. Até a publicação desta reportagem, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) não detalhou exames, diagnóstico ou extensão da lesão de Raphinha. Em nota, a entidade confirmou apenas que o atacante sentiu dor na musculatura posterior da coxa direita e que iniciou tratamento, sem informar prazo de retorno.
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