Remédio comum e barato para diabetes pode ajudar a prevenir uma das principais causas de cegueira
A metformina é uma das medicações mais prescritas do mundo. Barata, conhecida, segura para a maioria dos pacientes e usada há décadas no tratamento do diabetes tipo 2, ela já atravessou diferentes fases da medicina.
Nasceu como remédio para controlar a glicose, ganhou espaço em pesquisas sobre síndrome metabólica e ovários policísticos e vem sendo estudada no envelhecimento celular, câncer e até nas doenças cardiovasculares. Agora, desponta em uma nova e intrigante hipótese: será que ela pode proteger os olhos contra a degeneração macular relacionada à idade?
A pergunta ganhou força com um estudo publicado no British Medical Journal Open Ophthalmology, conduzido por pesquisadores ligados principalmente à Universidade de Liverpool, no Reino Unido. O trabalho avaliou uma amostra de 2.545 pessoas com diabetes, das quais 2.089 completaram o seguimento de cinco anos com imagens de retina adequadas para análise.
E o resultado foi uma redução de 37% na incidência de degeneração macular relacionada à idade em estágio intermediário ao longo de cinco anos em pessoas com diabetes.
A degeneração macular é uma das principais causas de perda visual em pessoas idosas. Ela afeta a mácula, região central da retina responsável pela visão de detalhes. É essa área que nos permite ler, reconhecer rostos, dirigir, ver a tela do celular e realizar tarefas finas do cotidiano.
Quando a doença progride, a pessoa pode manter a visão periférica, mas perder justamente a visão central, aquela que dá independência e qualidade de vida.
Por isso, qualquer pista sobre prevenção merece atenção. No estudo britânico, os pesquisadores observaram que pacientes em uso de metformina apresentaram menor risco de desenvolver formas intermediárias da degeneração macular relacionada à idade quando comparados aos que não usavam o medicamento.
A hipótese é biologicamente plausível: a metformina tem sido estudada por possíveis efeitos anti-inflamatórios, antioxidantes e por sua ação em vias metabólicas ligadas ao envelhecimento celular. Como inflamação, estresse oxidativo e disfunção metabólica participam da fisiopatologia da degeneração macular, a conexão faz sentido do ponto de vista científico.
Mas ciência não vive apenas de plausibilidade. Vive de método.
E aqui está o ponto central: o estudo foi observacional. Os pesquisadores identificaram uma associação entre uso de metformina e menor incidência de degeneração macular intermediária, mas associação não prova causa. Não se pode afirmar, com base nesse trabalho, que a metformina preveniu a doença, nem descartar que outros fatores clínicos tenham influenciado o resultado.
Na medicina, achados promissores muitas vezes começam assim: um sinal aparece em bancos de dados ou estudos observacionais e, depois, precisa ser testado em pesquisas desenhadas especificamente para confirmar a hipótese. No caso da metformina e da degeneração macular da idade, ainda serão necessários estudos prospectivos e controlados para saber se há efeito protetor real, em quais pacientes e com qual magnitude.
Também é essencial evitar uma conclusão precipitada: ninguém deve usar metformina por conta própria para proteger a visão. Embora seja uma medicação antiga e geralmente bem tolerada, ela tem indicações, contraindicações e possíveis efeitos adversos – como todos os remédios.