“Roubaram um pedaço da minha vida”
Perdi quatro anos da minha vida após ser condenado por um crime que não cometi. Uma injustiça que me roubou tempo precioso e deixou uma marca que vou levar comigo. Tudo começou em janeiro de 2022, quando uma idosa foi vítima de latrocínio na área rural de Jequitinhonha, em Minas Gerais, onde eu morava. É um lugar pequeno, de não mais que 400 pessoas. Tinha 19 anos e me preparava para ir ao trabalho, tranquilo, até meu pai aparecer comentando o caso. Fiquei chocado: conhecia aquela senhora. Nunca imaginei, porém, que também eu seria arrastado para a história. Estava me aproximando da barbearia onde era gerente e fui parado por uma viatura policial. Não entendi nada. Os agentes disseram que iam me levar à delegacia e me colocaram junto a outras quatro pessoas no bagageiro. Ali caiu a ficha — éramos suspeitos do crime. Os policiais estavam ainda em busca de outro homem. Ao ser capturado, eu seguia na delegacia e o vi apontar para mim e para outro rapaz. Segundo ele, havíamos sido seus parceiros no bárbaro episódio.
Não dava para acreditar no que estava acontecendo, mas me acalmei: aquilo não iria adiante, pensei. O suspeito não parava de mudar sua versão, e eu tinha um álibi. No dia e hora do crime, estava com minha mulher e a irmã dela. Fui liberado, e achei que era o ponto-final. Errei. Uma semana depois, os policiais bateram à minha porta com um mandado de prisão. Só poderia ser um engano que rapidamente se esclareceria. E, de novo, estava eu na delegacia. Pois dessa vez não apenas não me soltaram, como, sete meses depois, fui sentenciado a 24 anos de prisão em um processo baseado na palavra do criminoso. Foi duro. A sensação de injustiça é um horror. Eu era jovem, minha esposa estava grávida de sete meses e tínhamos planos. Havia acabado de conseguir um terreno para abrir minha própria barbearia. Era uma pessoa de sorte com uma vida boa, até ser posto em uma cela, no presídio de Jequitinhonha.
Dividia o espaço com doze detentos. No começo, foi um choque. Embora não tenha sofrido nenhum tipo de violência, as brigas ali eram constantes, e as conversas giravam em torno de crimes que haviam cometido ou planejavam cometer. Estar naquele lugar por tanto tempo tirou muita coisa de mim. Não estava no nascimento da minha filha, Lívia, e meu casamento não resistiu à distância. Minha família se submeteu a humilhações para poder me visitar na prisão — extremamente religiosa, minha mãe teve que tirar a roupa na frente de estranhos. Meu pai é pastor, fui criado na igreja e, de repente, me vi sem fé. Nenhum Deus verdadeiro permitiria tamanha injustiça, pensava. Desesperado, cheguei a tentar tirar minha própria vida com uma corda. Felizmente, sobrevivi e continuei na luta para provar minha inocência.
Em um certo momento, começou a circular pelo presídio que o homem que havia acusado a mim e ao outro rapaz estava falando que éramos inocentes. Ele dizia que não aguentava mais ver duas famílias inteiras sofrendo injustamente e escreveu uma carta ao tribunal, afirmando ter sido coagido por seu verdadeiro cúmplice, que segue foragido, a nos acusar. Meu advogado entrou, então, com um pedido de revisão criminal, e a promotoria foi à prisão averiguar a história. O caso acabou sendo encaminhado a uma corte de segunda instância e dez desembargadores concederam minha absolvição no dia 13 de maio. Eu só conseguia pensar em voltar para casa, ver minha filha, minha família. Fui recebido com muita festa, mas nada, nunca vai apagar o que vivi. Pretendo entrar com uma ação judicial para ser ressarcido. Não há dinheiro que pague o que sofri, mas pelo menos me ajudará neste recomeço. Roubaram um pedaço da minha vida, mas não meus sonhos.
Misael de Souza em depoimento a Flávio Monteiro
Publicado em VEJA de 19 de junho de 2026, edição nº 3000