Sabe o que Neymar fez na folga? Comprou um relógio de quase 1 milhão de dólares
É uma das histórias mais divertidas em torno de Garrincha – uma anedota que durante muito tempo foi tratada como lenda, de modo a ampliar a suposta ingenuidade do anjo das pernas tortas, mas que de fato aconteceu, segundo relato de pessoas que participaram da aventura do primeiro título mundial, em 1958, como o dentista Mario Trigo, que adorava uma brincadeira, e o ponta esquerda Pepe. Foi assim: Garrincha, numa das folgas da seleção, foi a Estocolmo com os colegas e comprou um rádio por 180 coroas suecas, o equivalente hoje a pouco mais de 280 dólares. O massagista Mário Américo, interessado no aparelho, disse ao Mané que o equipamento não funcionaria no Brasil, e que só transmitiria programas em sueco. O craque ficou preocupado com a equivocada aquisição e a vendeu para Américo pela metade do preço. Como quem conta um conto aumenta um ponto, e de modo a estabelecer a verdade, o biógrafo de Garrincha, Ruy Castro, no fabuloso Estrela Solitária, vai por outro caminho: Garrincha é que teria feito a brincadeira com Hélio, do Botafogo, em uma turnê do clube de General Severiano pela Europa.
Um rádio de 180 coroas. Na Copa do Mundo de 2026, em uma das folgas da seleção de Carlo Ancelotti, Neymar foi para Nova York e comprou um relógio de 968 000 dólares, o equivalente a pouco mais de 5 milhões de reais. A peça é o Astronomia Dragon & Tiger. Tem figuras de dragão e tigre esculpidas à mão, que representam, segundo o criador, Jacob Arabo, da Jacob&Company, “força, sabedoria, coragem e equilíbrio”. Feito em ouro branco 18 quilates, é decorado com 286 diamantes. Não é, por óbvio, o primeiro exemplar de Neymar da Jacob&Company, e muito menos o primeiro relógio de Neymar. O jogador postou o encontro com o relojeiro em Nova York e vice-versa, em acordo de cavalheiros, que pode ter feito o treco mais barato, porque negócios são negócios. “Há muito tempo amigo da marca, Neymar conseguiu tempo para vir à butique de Nova York antes de entrar no maior palco do mundo neste verão”, escreveu o empresário ao compartilhar a transação nas redes.

Os relógios de Jacob, imigrante do Uzbesquistão radicado desde a adolescência nos Estados Unidos, fazem parte da cultura pop americana e alhures. Cristiano Ronaldo é comprador contumaz. Luca Doncic, estrela da NBA, também, e um longo etc. Adivinhe quem mais? Ah, a onipresente Virgínia, a influencer que está em todas. O vendedor tem um apelido: “Jacob the Jeweller”, criado pelo rapper Notorious B.I.G., que ficou impressionado com os designs inovadores e o apresentou a amigos do meio musical. A partir daí, Arabo se tornou sinônimo de “bling” no hip-hop: artistas como Puffy Combs, Biz Markie, Jay-Z, Drake, 50 Cent e Big Sean foram clientes, e seu nome aparece em mais de 68 músicas — incluindo o famoso verso de Kanye West em “Touch the Sky”, que diz ir até Jacob para gastar o adiantamento do disco. Será que Neymar foi a ele para adiantar o “bicho” pela conquista do hexa, em movimento prematuro?

Durante anos, desde o início dos anos 2000, Jacob virou mania atrelada ao “bling”. E o que é esse troço? Na cultura pop, o bling (frequentemente chamado de bling-bling) refere-se ao estilo de vida de ostentação e ao uso de joias extravagantes, chamativas e luxuosas. Popularizada por rapper dos Estados Unidos, a palavra é uma onomatopeia que imita o som e o reflexo da luz batendo em diamantes e metais preciosos. Mais do que apenas moda, o uso do bling representa o “sonho americano”, simbolizando riqueza, sucesso financeiro e vitória sobre origens humildes. Nesse aspecto, é compreensível, embora estranho, que atletas tendo vindo lá de baixo da pirâmide decidam ostentar, como símbolo de vitória social. Contudo, em um país como o Brasil, de tantas e exageradas distâncias sociais, entre os que conseguem virar Neymar e os que não conseguem, é constrangedor – mas cada um que cuide de seu dinheiro suado. E como não lembrar de um comentário do treinador de Cabo Verde, o Bubista, antes do jogo contra a Arábia Saudita? Assim: “Estamos muito satisfeitos com a possibilidade de esses países poderem participar da Copa do Mundo. Penso que o futebol é para todos. Não pertence apenas aos países ricos. É dos povos também”.

Relacionamento com a máfia de Detroit
Há, contudo, um enrosco – de Neymar e de todos os famosos e muito ricos que usam um Jacob. O sujeito, boa praça, conversador, charmoso, tem um passado de problemas com a justiça dos Estados Unidos. Em 2006, ele chegou a ser preso acusado de ter ajudado a lavar 270 milhões de dólares em dinheiro do tráfico para a Black Mafia Family, uma quadrilha de Detroit. As acusações de lavagem foram retiradas, mas em junho de 2008 ele se declarou culpado de uma acusação menor — falsificação de registros e declarações falsas — e foi condenado a 2 anos e meio de prisão, além de multa de 50 mil dólares e confisco de 2 milhões de dólares, ficando, portanto, quites com os tribunais. Antes disso, em 1998 já havia sido detido pelo FBI por posse de propriedade roubada, acusação que também foi retirada, e em 2004 enfrentou um processo civil da Cartier por violação de marca registrada. É figura controversa e, entre o pessoal que navega em dólares, muito querida. Há um quê de romantismo, um tanto de ingenuidade, mas como era bom o tempo em que a graça era ter um rádio sueco de 280 dólares.