Sanções dos EUA poderiam ser mais eficazes se cooperação técnica não tivesse esfriado entre os dois países
02 de Julho de 2026, 14:28
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As sanções adotadas pelos Estados Unidos contra dois cidadãos brasileiros supostamente ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) poderiam ter sido mais eficazes se a cooperação técnica entre os dois países não tivesse passado por um processo de "esfriamento". O governo quer usar o episódio atual para convencer a equipe do presidente norte-americano Donald Trump sobre a importância de manter a colaboração entre órgãos americanos e brasileiros. Segundo assessores presidenciais, a cooperação técnica no combate ao crime organizado era "muito boa", mas acabou passando por um processo de "esfriamento" no governo Trump antes inclusive da decisão de classificar PCC e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A medida foi anunciada no fim de maio pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos. No comunicado, o governo americano argumentou que a atuação das facções ultrapassa as fronteiras brasileiras e alcança outros países da região e os Estados Unidos (entenda mais abaixo). O que acontece com os brasileiros alvos de sanções dos EUA por ligação com PCC A determinação, que entrou em vigor em junho, contrariou os pedidos do governo federal e abriu espaço para ações mais duras e unilaterais dos Estados Unidos, como sanção de cidadãos e empresas brasileiras e, em último caso, intervenção direta no território nacional. Trocas de comando Esse esfriamento começou depois que houve trocas de comando nos Estados Unidos, como no Departamento de Justiça americano, com a chegada de pessoas mais afinadas com a linha ideológica do secretário de Estado Marco Rubio. E se intensificou depois da classificação das organizações criminosas no Brasil como terroristas, no começo de junho. RELEMBRE: Rubio responde a carta de Flávio Bolsonaro e reforça defesa de tarifas contra o Brasil O governo brasileiro se queixa de não ter recebido nenhum pedido de cooperação internacional antes das sanções adotadas contra o casal Victor Henrique de Oliveira Shimada E Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira. Se isso tivesse acontecido, o Brasil poderia ter adotado medidas dentro do país contra o esquema criminoso sancionado pelo governo americano, como bloqueio de contas. "Não recebemos nenhum tipo de pedido de cooperação internacional neste caso", diz um assessor presidencial, o que não acontecia antes. Agora, o governo brasileiro vai insistir na sua proposta de intensificar, e não interromper, a cooperação entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) formalizou, em encontro com Trump, essa proposta de cooperação, mas até hoje não recebeu nenhuma resposta. Ainda em relação à operação desta quarta-feira (1º), a equipe do presidente Lula destaca que ela não teve grandes impactos no Brasil, mas teme efeitos secundários das sanções, como punição de bancos que tenham relações financeiras com as pessoas sancionadas pelos Estados Unidos. O empresário Victor Shimada e o influenciador Buzeira. Montagem/g1/Reprodução Entenda o caso O governo Trump anunciou nesta quarta sanções contra dois brasileiros, três empresas baseadas no Brasil e uma empresa portuguesa por suposta ligação com a facção criminosa PCC. As sanções foram formalizadas pelo Departamento do Tesouro norte-americano. Brasileiros sancionados: Victor Henrique de Oliveira Shimada; Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira. Empresas sancionadas: Victory Trading Intermediacão De Negocios Cobrancas E Tecnologia Ltda; Pixwave Solucoes De Pagamentos Ltda; Wave Construcoes Inteligentes Ltda; Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda (de Portugal). Esta é a primeira rodada de sanções econômicas divulgadas pelo governo Trump contra alvos que acredita ter relação com a facção brasileira após ter classificado o PCC e o CV como grupos terroristas internacionais, em junho. 👉 Com as sanções, os bens nos Estados Unidos dos alvos são bloqueados, entre outras medidas. Entenda aqui o que acontece com pessoas e empresas sancionadas economicamente pelo governo dos EUA. No comunicado do Departamento do Tesouro, o governo Trump voltou a chamar o PCC de "maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental" e afirmou que a facção representa uma "ameaça significativa à segurança nacional dos EUA". Além disso, acusou o PCC de utilizar o sistema financeiro norte-americano para lavar dinheiro. Segundo os EUA, Victor, Stella e as três empresas citadas integrariam uma rede internacional de lavagem de dinheiro do PCC, que tem sido investigada na Flórida. Outros seis acusados de integrar essa rede de lavagem de dinheiro foram presos em janeiro deste ano no estado norte-americano, segundo o comunicado. Sobre Victor Shimada, os EUA o chamaram de "elo-chave entre membros do PCC na Flórida e traficantes internacionais" e o acusaram de: lavar mais de US$ 30 milhões (cerca de R$ 156 milhões) em recursos ilícitos gerados em várias cidades dos EUA, utilizando criptomoedas para transferir valores de volta ao Brasil em nome do PCC; envolver-se em outros crimes financeiros além da lavagem de dinheiro do tráfico. Shimada foi denunciado pelo Ministério Público de São Paulo em julho de 2025 por lavagem de dinheiro no âmbito do escândalo da VaideBet, ex-patrocinadora do Corinthians. Os EUA citaram que a Victory Trading, da qual Shimada é sócio, foi utilizada para lavar dinheiro desviado de um clube de futebol brasileiro, porém não mencionou o nome do time alvinegro no comunicado. Outra empresa da qual Shimada é sócio, a Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda, com sede em Portugal, também foi sancionada pelos EUA nesta quarta. Já sobre Stella, os EUA afirmaram que ela é parente de Shimada e atuou como a secretária dele e intermediária na coleta de grandes quantias em dinheiro, fornecendo serviços logísticos essenciais para as operações de lavagem da rede. O subsecretário norte-americano para Terrorismo e Inteligência Financeira, Gene Lange, afirmou no comunicado que o governo Trump está enfrentando a "crescente presença da geração de receitas ilícitas do Primeiro Comando da Capital dentro dos EUA".
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