Série ‘Alice e Steve’, do Disney+, reforça a onda do humor constrangedor
O clima solene de um velório é interrompido quando os amigos Alice (Nicola Walker) e Steve (Jemaine Clement) se aproximam do caixão para se despedir do falecido: no colo de Steve, um comportado buldogue francês espirra forte, deixando secreções desconcertantes no rosto do cadáver. A quebra de expectativa motiva uma crise de riso na dupla, contaminando quem assiste à cena que abre Alice e Steve, série de seis episódios recém-chegada ao catálogo do Disney+. A plataforma apelidou a produção de wrong-com, trocadilho com o termo rom-com — abreviação de comédia romântica, mas que aqui indica tratar-se de um romance deveras errado. Isso porque Steve, um cabeleireiro de celebridades cinquentão e divorciado, se envolve com a filha de 26 anos de Alice — com quem, aliás, ele já teve um relacionamento no passado. Steve viu a nova namorada nascer e crescer, o que torna a diferença de idade apenas um detalhe na longa lista de contras do relacionamento.
Sem a pretensão de levantar discussões profundas sobre convenções afetivas ou sobre os limites do amor, a série usa a situação como ponto de partida para um humor elaborado e embebido por cenas constrangedoras — daquelas que causam vergonha alheia. Há, por exemplo, as sequências em que o novo casal insiste em exaltar a química sexual que ninguém acredita existir, ou os jantares em grupo que expõem, sem piedade, os conflitos geracionais e as feridas emocionais dos personagens. Transformar situações embaraçosas em elemento cômico é não só uma sacada antiga, como uma base essencial do humor: que atire a primeira pedra quem nunca riu de uma pessoa que tropeça e cai. É também uma especialidade do humor britânico, representado por exemplares notáveis do tipo, como a hilária The Office, sobre o dia a dia em um escritório cheio de esquisitices. Não surpreende que os autores por trás de Alice e Steve, Tom Kingsley e Sophie Goodhart, sejam ingleses.
O Brasil também tem uma queda pelo humor desconcertante. Prova disso é o sucesso que anda fazendo o novo programa do Multishow E.T.: Edu e Tatá, no qual os comediantes Tatá Werneck e Eduardo Sterblitch se jogam em sátiras de personas famosas, além de esquetes com roteiros nonsense: caso dos “Páuer Renda” — que ironiza os heróis Power Rangers, mas aqui combatendo o crime nas ruas brasileiras, cobertos da cabeça aos pés com, vejam só, rendas.
Menos escrachado, mas tão ácido quanto os exemplos citados, Alice e Steve segue a máxima de que o riso está até onde não deveria — como anuncia o velório do início. Conforme o relacionamento de Steve avança, Alice declara guerra ao ex-amigo. Ao espectador, resta se esbaldar com os diálogos vexaminosos, os silêncios embaraçosos e as situações que parecem sempre prestes a sair dos trilhos. A piada é velha, mas ainda funciona.
Publicado em VEJA de 19 de junho de 2026, edição nº 3000