SpaceX vira a ação mais comprada por pequenos investidores dos EUA
Milhões de pequenos investidores dos Estados Unidos estão tentando adquirir ações da SpaceX, empresa de foguetes e satélites de Elon Musk, que estreou na bolsa Nasdaq na última semana.
A ação segue escalando rapidamente, tendo preço inicial de US$ 135, para no dia seguinte subir a US$ 150 e valorização de quase 20% no terceiro dia, quando bateu US$ 160,95.
Como consequência, a empresa de tecnologia espacial já está sendo avaliada em US$ 2,1 trilhões, cravando o maior IPO já registrado.
Febre nas plataformas de varejo
Cerca de US$ 15 bilhões da captação vieram de investidores de varejo, uma fatia descrita pelo presidente da Nasdaq, Nelson Griggs, como “maior do que a maioria dos IPOs”.
Isso não foi por acaso: a SpaceX reservou 30% de suas ações para o público geral, três vezes mais do que o habitual em grandes IPOs, que costuma ficar entre 5% e 10%.
Nos dias seguintes à estreia, os dados da Vanda Research mostraram que os pequenos investidores não pararam de comprar.
Nos três primeiros pregões após o IPO, eles adquiriram US$ 369,8 milhões em ações da SpaceX, contra US$ 88 milhões em papéis da Nvidia. O volume de compras da SpaceX foi equivalente ao de Nvidia, Google, Amazon, Microsoft, Meta e dois grandes ETFs combinados.
A Vanda registrou ainda uma rotação dentro do universo de Musk.
Desde a estreia da SpaceX, os pequenos investidores passaram a vender, em termos líquidos, ações da Tesla, levando a firma a concluir que pode estar havendo uma migração de “um ativo ligado a Elon para outro, com a SpaceX.
Não é meme stock
A questão que divide analistas é se o movimento tem fundamento ou se repete padrões de bolhas anteriores.
A Vanda Research insiste que não se trata de uma “meme stock”, categoria que ficou conhecida com a disparada da GameStop em 2021, impulsionada por agitação nas redes sociais sem respaldo nos números da empresa.
Os ETFs temáticos de exploração espacial não registraram entradas relevantes de capital, e os produtos alavancados, instrumentos de alto risco que amplificam ganhos e perdas, tiveram procura modesta, o que sugere comportamento mais disciplinado dos compradores.
A ação chegou à máxima histórica de US$ 225,64 em 16 de junho, quatro dias após a estreia, mas recuou rapidamente. Na quarta-feira desta semana, estava sendo negociada em torno de US$ 190.
Os números que preocupam
Por trás da euforia, há alertas sérios.
A Morningstar, uma das mais respeitadas casas de análise independente de Wall Street, estima que o valor real da SpaceX é de US$ 780 bilhões, cerca de 55% abaixo da avaliação de US$ 1,75 trilhão com que a empresa estreou na bolsa.
Os analistas da firma foram diretos: a SpaceX registrou prejuízo líquido de US$ 4,28 bilhões no primeiro trimestre de 2026, após acumular perdas de US$ 4,94 bilhões em 2025.
Em seu próprio prospecto de abertura de capital, a empresa admitiu ter “histórico de prejuízos e que pode não atingir lucratividade no futuro”.
O principal peso nas contas é a divisão de inteligência artificial.
Em fevereiro de 2026, a SpaceX concluiu a maior fusão corporativa por valor da história ao incorporar a xAI, empresa de IA de Elon Musk, numa transação avaliada em US$ 1,25 trilhão.
A xAI registrou prejuízo operacional de US$ 6,36 bilhões em 2025.
O controle absoluto de Musk
Outro ponto de atenção destacado por analistas é a estrutura de governança.
Musk detém aproximadamente 42% do capital da SpaceX e controla 85% dos votos por meio de uma estrutura de ações de dupla classe, o que significa que acionistas minoritários terão poder muito limitado para influenciar decisões da empresa ou contestar transações futuras.
O estrategista do Bank of America Michael Hartnett também levantou um alerta sistêmico: com SpaceX, OpenAI e Anthropic possivelmente chegando à bolsa no mesmo trimestre, a concentração de tecnologia no S&P 500 poderia ultrapassar os 48%, um patamar que historicamente antecedeu bolhas de mercado.
Os “FAB 10”: uma nova era no mercado
Apesar dos alertas, a Vanda Research aposta que a SpaceX representa uma mudança estrutural no mercado financeiro americano, não apenas uma febre passageira.
A firma propõe uma nova categoria para classificar as ações favoritas dos pequenos investidores: o “FAB 10”, as sete maiores empresas de tecnologia dos EUA, conhecidas como “Magnificent 7”, mais SpaceX, OpenAI e Anthropic, as três principais apostas da nova economia de inteligência artificial.
Para os analistas da Morningstar, o conselho para quem quer entrar na SpaceX é esperar.
O primeiro grande teste virá em agosto, quando a empresa divulgará seus resultados trimestrais como companhia aberta, e quando os primeiros insiders poderão começar a vender suas ações.