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Sucesso é dormir com a consciência tranquila

07 de Julho de 2026, 21:51 0 visualizações
Sucesso é dormir com a consciência tranquila

No Cold Spring Harbor Laboratory, em Nova York, Camile Semighini Grubor participava de experimentos que pareciam saídos de um filme de ficção científica. Estudava mecanismos ligados ao câncer em pesquisas com camundongos, em uma das instituições científicas mais reconhecidas dos Estados Unidos. O trabalho era relevante e contribuiria para uma publicação na Cell, uma das revistas mais prestigiadas da área. Ainda assim, alguma coisa não encaixava.

O sofrimento dos animais a incomodava. Camile preferia trabalhar com fungos, que chamava, em uma brincadeira, de “funguys”. O desconforto foi se tornando uma pergunta maior sobre o futuro. Ela gostava de ciência, mas já não tinha certeza de que queria passar a vida naquele tipo de pesquisa. Avisou a Vladimir Grubor, que havia conhecido no próprio laboratório e com quem se casaria, que sairia daquele segmento assim que concluísse o trabalho em andamento.

Hoje, aos 48 anos, Camile é vice-presidente, diretora de portfólio e líder de equipe em soluções científicas na Envision Pharma Group, empresa global de comunicação médica voltada à indústria farmacêutica. De Tampa, na Flórida, lidera 15 profissionais distribuídos por diferentes países. Há 23 anos nos Estados Unidos, construiu uma trajetória que começou na bancada, passou por propriedade intelectual e empreendedorismo e encontrou na comunicação uma forma de continuar perto da ciência.

Nada disso fazia parte de um plano traçado com antecedência. Quando deixou o Brasil, em 2003, Camile acreditava que ficaria fora por apenas um ano.

O convite que mudou a rota 

Nascida em São Paulo, em 1977, mudou-se aos 3 anos para Birigui, no interior paulista. É filha de Dirceu Semighini, analista de sistemas, e Mara Pizeta Semighini, professora, e cresceu ao lado dos irmãos Dirceu Filho e Evandro. Na hora de escolher uma profissão, encontrou nas Ciências Farmacêuticas uma maneira de reunir dois interesses que já a acompanhavam, a Biologia e a Química.

A família teve papel importante nas escolhas seguintes. Camile chegou a considerar uma formação na Bélgica, e o pai foi com ela ao consulado para entender o que seria necessário. O plano não avançou, mas o episódio ficou como exemplo da segurança que recebia em casa para explorar possibilidades sem precisar ter todas as respostas prontas.

Na Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto, onde estudou Ciências Farmacêuticas de 1996 a 2000, aproximou-se da Genética e da Biologia Molecular. Depois da graduação, seguiu na pesquisa com fungos e fez mestrado de 2001 a 2003. Ao fim do mestrado, Steve Harris, pesquisador canadense que conhecia seu trabalho, convidou-a para integrar um laboratório que montava na Universidade de Nebraska-Lincoln, nos Estados Unidos, com recursos disponíveis e uma equipe ainda pequena.

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Camile aceitou. Para quem havia crescido em Birigui, a perspectiva de viver em uma região mais isolada do Meio-Oeste americano não parecia um obstáculo. O acordo consigo mesma era simples: um ano de experiência e depois a volta ao Brasil.

O ano que nunca terminou

Pouco depois de chegar a Nebraska, em 2003, Camile percebeu a importância da estrutura para o trabalho científico. Em cerca de dois meses, concluiu um sequenciamento de genes que, em sua experiência no Brasil, levaria muito mais tempo. A diferença não estava na capacidade dos pesquisadores, mas nas condições para pesquisar.

Mesmo no laboratório brasileiro em que havia trabalhado, apoiado pela Fapesp, muitos experimentos dependiam de materiais importados. A espera e a burocracia entravam no cronograma. Em Nebraska, itens de que precisava estavam muitas vezes no próprio laboratório. A diferença podia ser medida em semanas de trabalho economizadas.

O contraste alterou seus planos. O ano previsto se transformou em doutorado, realizado de 2004 a 2007, e a permanência ganhou outra dimensão. O que parecia uma temporada passou a ser uma escolha renovada a cada nova oportunidade.

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Depois de Nebraska, chegou ao Cold Spring Harbor Laboratory, onde atuou de 2007 a 2008. O interesse pelo câncer tinha também razões familiares, e a experiência lhe deu acesso a pesquisas de alto nível. Foi ali, porém, que a contradição se tornou impossível de ignorar. A satisfação intelectual não anulava o incômodo com os experimentos em animais.

Quando escrever virou profissão

Em dezembro de 2008, Camile seguiu para a Universidade de Duke, na Carolina do Norte, onde permaneceu até julho de 2011 e voltou a trabalhar com fungos. A mudança a afastou do tipo de experimento que mais a incomodava, mas não resolveu uma dúvida maior. Ela já percebia que não queria seguir a carreira acadêmica tradicional nem permanecer indefinidamente na bancada.

Havia outra habilidade atravessando sua história. Camile sempre gostou de escrever. Começou a conversar com profissionais e a observar a comunicação médica, área ainda pouco desenvolvida no Brasil naquele período. Descobriu um campo em que poderia usar a formação científica para compreender estudos complexos e transformá-los em informação clara, sem abandonar o universo que conhecia.

A primeira mudança veio em 2011, ao entrar na Advanced Liquid Logic, pequena empresa de tecnologia voltada a aplicações laboratoriais. Pela primeira vez, sua principal função deixou de ser conduzir experimentos. Camile passou a escrever projetos para captação de recursos destinados a pesquisas e novas tecnologias.

Foi uma descoberta importante. Percebeu que sabia transitar entre mundos. Conseguia conversar com pesquisadores, compreender dados difíceis e construir uma narrativa para pessoas que não estavam dentro do laboratório. A ciência deixava de ser apenas objeto de investigação e passava a ser também algo que precisava ser comunicado.

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Na BASF, multinacional alemã do setor químico, onde trabalhou de 2012 a 2016, ampliou esse olhar ao atuar com propriedade intelectual. Passou a lidar não apenas com descobertas, mas com proteção, aplicação e desenvolvimento de tecnologias, em contato com pesquisadores, gestores e profissionais da área jurídica.

Após deixar a companhia, Camile montou a própria consultoria e começou a atender projetos de comunicação médica e técnica. Fez trabalhos para médicos, pesquisadores e profissionais de saúde, além de algumas traduções. Nesse período, encontrou com mais nitidez a combinação que procurava: podia compreender resultados de estudos e transformá-los em resumos para congressos, manuscritos e apresentações.

Da comunicação à liderança

A bancada havia ficado para trás, mas a ciência continuava no centro do trabalho. Em 2019, Camile encerrou a atuação na própria consultoria e entrou na Envision Pharma Group. Começou mais próxima da produção e da supervisão de conteúdo científico e, com o tempo, ampliou o campo de atuação. Passou a liderar pessoas, acompanhar clientes e assumir responsabilidades sobre contas e recursos.

A mudança de função não rompeu com a formação construída nos anos de pesquisa. O conhecimento científico seguiu como base para compreender temas complexos, enquanto a experiência com escrita e comunicação ajudou a organizá-los com clareza. À medida que as responsabilidades cresceram, esse repertório também passou a fazer parte da condução de projetos e equipes.

Hoje, em uma posição de alcance global, Camile reúne competências desenvolvidas em etapas diferentes da carreira. A experiência de laboratório permaneceu na forma como analisa problemas e formula perguntas; a escrita, na maneira como estrutura informações; e a liderança acrescentou a responsabilidade de transformar esse conhecimento em decisões, prioridades e caminhos para o trabalho coletivo.

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Liderar sem fingir que sabe tudo

Camile não acredita em liderança solitária. Procura envolver a equipe nas decisões, ouvir perspectivas diferentes e acompanhar de perto as dificuldades do dia a dia. Também rejeita a ideia de que um cargo mais alto deva afastar o profissional do trabalho real. Quando surge uma lacuna no time, não vê problema em colocar a mão na massa.

Uma de suas referências é Brené Brown, pesquisadora e autora americana conhecida pelos estudos sobre vulnerabilidade e liderança. Camile se identifica com a ideia de que reconhecer limites não reduz a autoridade. Prefere admitir que não tem uma resposta pronta a sustentar uma segurança artificial diante da equipe.

O estresse, para ela, faz parte do cargo. Quanto maior a responsabilidade, maior também o cuidado para não despejar a pressão sobre quem está abaixo na estrutura. Nos momentos difíceis, tenta não responder no impulso. Caminha, reza e organiza o pensamento antes de agir.

Camile se define como uma pessoa entusiasmada. Aprendeu a colocar preocupações no papel, racionalizar o problema e separar a emoção dos passos necessários para resolvê-lo. Não espera eliminar a pressão da rotina. Tenta impedir que ela se transforme em paralisia ou em decisões precipitadas.

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A experiência em posições de liderança também ampliou seu olhar sobre quem chega aos postos mais altos. Segundo Camile, a comunicação médica é uma área majoritariamente composta por mulheres, mas essa presença diminui nos cargos de comando. Para ela, a composição das equipes ainda não se reflete nas posições mais altas das organizações, uma diferença que considera necessário mudar. 

Trabalhar com sentido

Camile diz ter a sorte de trabalhar com o que ama. O dia a dia é estressante, mas não a drena como acontecia nos tempos de laboratório. O que a mobiliza é participar da transformação de dados científicos em informação capaz de ajudar médicos e outros profissionais de saúde a compreender tratamentos e tomar decisões mais bem informadas.

Ela também chama atenção para os cuidadores, muitas vezes invisibilizados, mas fundamentais à rotina e à dignidade de pessoas com doenças graves. Para Camile, comunicar ciência tem sentido quando o conhecimento deixa de ser um conjunto de dados e pode contribuir, ainda que indiretamente, para melhorar a vida de alguém.

Fora do trabalho, mede o sucesso por critérios que não cabem em um organograma. É mãe de Luka, de 13 anos, e Viktor, de 9, esposa, filha e amiga. Desde os anos de estudante, procura dar o melhor de si sem transformar a profissão na única medida de valor pessoal. Houve renúncias, sobretudo a distância de pessoas queridas no Brasil, mas ela rejeita a ideia de que uma carreira bem-sucedida exija sacrificar todo o resto.

O dinheiro é consequência, não meta

Sucesso, para Camile, é dormir com a consciência tranquila. Significa olhar para o trabalho e para a vida pessoal sem a sensação de ter deixado de lado a saúde, a família ou os próprios valores em troca de um cargo. A profissão é parte da vida, não a vida inteira.

A boa remuneração, em sua visão, deve ser consequência de paixão, disciplina e esforço, não o único ponto de partida. Aos profissionais mais jovens, recomenda conversar com pessoas experientes, olhar para a realidade sem idealizações e buscar clareza sobre o que os motiva ao longo da carreira.

A própria trajetória reúne algumas dessas mudanças. Camile deixou o Brasil para uma experiência inicialmente temporária, permaneceu nos Estados Unidos e, ao longo dos anos, passou por diferentes áreas até chegar à comunicação médica e à liderança.

Mais de duas décadas depois, continua ligada à ciência, agora em uma função diferente daquela que imaginava no início da carreira, e mantém a ideia de que o trabalho deve ocupar um lugar importante na vida, sem se tornar a medida de todo o resto.

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