Sultão de Omã: aliança com Irã para cobrar pedágio no Estreito de Ormuz?
“O mundo árabe é uma universidade onde o estudante nunca consegue se graduar”. A frase de um dos derradeiros ministros do Exterior da época do império britânico, George Curzon, ilustra desde 1923 as complexidades – e ambiguidades – do Oriente Médio. Ela está sendo comprovada de novo com o mutante jogo de alianças em ação no momento, sendo a mais negativa para os Estados Unidos a aproximação entre Omã e Irã para, em conjunto, cobrarem algum tipo de pedágio sobre os petroleiros que transitam pelo Estreito de Ormuz.
Seria uma derrota estrondosa para os Estados Unidos – e para todos os países que dependem do gás e do petróleo que transitam pelo gargalo marítimo sobre qual Irã e Omã. Também para os que não dependem, pois qualquer alteração no equilíbrio energético afeta o mundo inteiro.
Irá o cauteloso sultão de Omã, Haitham bin Tariq, dar um chapéu nos americanos, num sinal, também sentido nos outros emirados árabes da região de que não se sentiram suficientemente protegidos pela superpotência americana, incapaz de evitar os mísseis e drones iranianos, e, pragmaticamente, estão procurando canais de entendimento com o Irã.
O Irã está forçando um acordo e o sultão propôs uma tarifa “voluntária”, indicando que se sente suficientemente forte para contrariar os americanos. Tudo o que Donald Trump está procurando com as concessões feitas ao Irã no acordo provisório que interrompeu as hostilidades é proclamar que reabriu Ormuz para o mundo. O regime iraniano, obviamente, quer o oposto: criar não só uma nova fonte de renda, como um instrumento de poder que o coloca numa posição vitoriosa.
ALA ULTRARRADICAL
Outros aliados do Golfo mais propensos a jogar em todas as posições, como os Emirados Árabes Unidos e o Catar, estão acompanhando esses desenvolvimentos com lupa – e movimentando suas próprias peças.
Um Oriente Médio em que a influência americana reflui é uma perda desastrosa para os Estados Unidos e Israel. Nessa hipótese, seria fechada qualquer possibilidade de avanço dos Acordos de Abrãao, uma das conquistas de Trump, em seu primeiro governo, ao abrir caminho para a normalização de relações entre Israel e países relevantes na região, como Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Marrocos.
O único aspecto positivo do momento é o acordo entre Israel e o Líbano para desarmar o Hezbollah. Infelizmente, ele vale praticamente nada: as forças armadas libanesas não são capacitadas para fazer valer o acordo. O Hezbollah manda e vai continuar mandando no Libano. Qualquer investida do exército oficial seria repelida – e poderia abrir as portas de uma nova guerra civil.
Para piorar, a resistência do regime iraniano está insuflando uma ala ultrarradical que quer sabotar os entendimentos com os Estados Unidos.
PIOR DO QUE A FATWA
Um exemplo: o documento assinado por 67 dos 88 integrantes da cúpula da religião xiita, chamada de Assembleia dos Especialistas, conclamando ao assassinato de Donald Trump e de Benjamin Netanyahu.
“É obrigatório que qualquer pessoa com senso de dever que tenha acesso a esses criminosos que os mande para o inferno”, diz o documento, equivalente a uma espécie de fatwa. Mais do que Trump ou Netanyahu, o principal alvo é o presidente Masoud Pezeshkian e membros do governo defensores das negociações com os Estados Unidos.
De que lado ficarão figuras importantes como o sultão de Omã, um reino desértico e miserável contemplado com um mar de gás e petróleo sob as areias infindáveis e uma posição estratégica sobre Ormuz? Cobrar pedágio sobre o trânsito de petroleiros pode ser uma tentação grande demais.
Mesmo que o país não precise do dinheiro, vivendo na opulência de palácios e mesquitas que só os petrodólares podem comprar, talvez queira fazer um gesto e se entender com o vizinho. Para Donald Trump, é pior do que a fatwa dos aiatolás radicais. E mais uma aula na complexa universidade mencionada no começo, onde tudo vive mudando e o diploma nunca chega.