Torturado, abusado e morto pelo pai adotivo: o caso do bebê Preston
O pequeno corpo de Preston Davey, de apenas um ano e um mês, levava gravados os abusos inimagináveis que sofreu, com 40 hematomas e contusões, inclusive na boca, no ânus, no intestino e na bexiga. Ele morreu sufocado por algo colocado em sua boca. Muitos dos abusos foram registrados também no celular do monstro que os praticou, seu “pai” adotivo, o professor Jamie Varley.
A condenação de Varley ao equivalente à prisão perpétua, e a do companheiro John McGowan-Fazakerley, a 25 anos, não encerraram o caso.
Corre no momento na Inglaterra um abaixo-assinado clamando por uma investigação sobre as falhas flagrantes no serviço de assistência social, e nos serviços médicos que não detectaram os inúmeros abusos sofridos pelo menininho de grandes olhos azuis. Nos quatro meses em que permaneceu sob a guarda do casal gay, ele foi levado três vezes ao hospital, numa delas com um braço quebrado. Os próprios abusadores deixaram registrados os machucados infligidos à criança.
Por causa da negligência dos representantes do Estado que teriam por obrigação proteger a criança, paira a suspeita de que os pais adotivos não foram denunciados por temor de acusações de homofobia. Não há nenhuma prova disso, apenas indícios, suficientes para alimentar a inevitável politização do caso, com a ultradireita denunciando uma negligência deliberada e a esquerda a acusando de usar a horrível morte de uma criança para faturar politicamente.
ADAGA NO PEITO
É uma situação similar à de outro caso, de natureza diferente, mas de contornos parecidos: o de Henry Nowak, um estudante de contabilidade de apenas 18 anos, esfaqueado num incidente ainda confuso com um seguidor da religião sikh, Vickrum Singh Digwa. A ultradireita diz que Henry morreu por seu branco, um exagero evidente. Mas as cenas gravadas pelas câmeras policiais efetivamente mostram que os agentes da lei não acreditaram no jovem quando ele disse que havia sido esfaqueado e deram ouvidos somente às queixas de racismo do assassino.
Henry foi algemado e deixado no chão até que os policiais identificassem os sinais de morte iminente. Enquanto isso, o atacante contava mentiras e acusava a vítima de ter usado um termo racista – “paki”, uma referência a paquistaneses que é completamente banida.
O jovem era todo certinho e talvez tenha perdido a vida ao cruzar com Digwa e, ao vê-lo com o adaga no peito que os seguidores da religião sikh podem usar, perguntar jocosamente: “Você é da turma dos maus?”.
O assassino, que tinha problemas comportamentais, foi condenado a 21 anos de prisão, mas o caso também continua a causar revolta por causa do desprezo dos policiais aos apelos de Henry Nowak e do caráter explosivo quando questões raciais estão envolvidas.
MAL ESTAR SOCIAL
A ideia de que existe uma espécie de racismo invertido, em que membros de minorias étnicas são tratados com condescendência para não dar a impressão de que estão sendo discriminados, é ancorada em fatos reais: a negligência criminosa com que autoridades policiais em toda a Inglaterra trataram durante anos seguidos as milhares de adolescentes brancas atraídas por grupos de homens de origem paquistanesa, que as dobravam com álcool, drogas e ameaças, submetendo-as a todo tipo de abusos sexuais coletivos.
Sucessivas investigações, e condenações de uma parte dos culpados, não atenderam o clamor público por justiça para as meninas, seviciadas por abusadores cruéis e tratadas com desprezo e negligência pelas autoridades.
Casos como o das “gangues do estupro”, ou de Henry Nowak e do menininho Preston, são obviamente suscetíveis à manipulação política, mas também mostram que as enormes falhas no sistema, quando os representantes da lei descumprem seu papel mais fundamental, o de proteger os vulneráveis, criam um enorme mal estar social.
O sorriso inocente de Preston Davey tem que servir para, pelo menos, corrigir os procedimentos que abriram caminho ao martírio que sofreu. Ter receio de que seu caso seja usado para inibir adoções por parte de casais homossexuais não pode diminuir a culpa dos que deveriam ter evitado isso.