Tragédia grega (por André Gustavo Stumpf)
A disputa pública por espaço que envolve filho e madrasta configura uma tragedia grega. Desde tempos remotos, a controvérsia não costuma terminar bem. Um dos lados vai sofrer agora ou no futuro. E as consequências, na maioria das vezes, não beneficiam ninguém. É drama sobre drama. Mágoas, rancores e ciúmes só podem ser resolvidos com muitos anos de psicanálise conduzida por profissional qualificado. A questão que desune Michelle e Flávio, ambos bolsonaros, não é política. É pessoal. Quando a política se mistura com questões familiares, os dois lados perdem.
Trata-se de questão pessoal, que não deveria ser objeto de atenção dos jornais. Acontece que a briga incomoda a campanha de Flavio Bolsonaro, ungido pelo pai a candidato, sem qualquer consulta prévia ao partido e às principais lideranças nacionais. Ele é uma espécie de herdeiro do trono. Desde priscas eras, as benesses de herança sempre foram objeto de intensa e violenta briga por aqueles que se sentem excluídos. Michelle é uma arrivista na política brasileira. Apostou no casamento, gerou uma filha e pretende receber os dividendos de seu investimento. Flávio impediu seu ganho. Restou a ela lhe fazer a guerra.
Quem acompanha a campanha do principal opositor ao atual governo, entende que a situação eleitoral de Flávio está condenada ao fracasso. Ele vinha perdendo sustentação devido ao esdrúxulo apoio às sobretaxas impostas por Donald Trump a produtos brasileiros no mercado norte-americano. Taxar produtos estrangeiros é dinheiro em caixa. Ele se apropriou sem qualquer hesitação do petróleo da Venezuela, que os norte-americanos estão consumindo sem nada pagar aos proprietários das reservas. Os venezuelanos estão morrendo de fome e sede depois do terremoto e Donald só preocupa em contar as notas de dólar que entram no seu cofre.
O irmão, nos Estados Unidos, faz uma guerra sem qualquer noção. Atira para todos os lados. É um poço de ressentimentos no seu autoexílio dourado no Texas. Tem recebido o auxílio do neto do ex-presidente Figueiredo. Este chega ao cúmulo de afirmar que as mulheres não sabem votar, as solteiras de maneira ainda pior. As casadas, um pouco melhor porque tendem a acompanhar o voto dos maridos. Os bolsonaros fazem uma estranha campanha pelo avesso da política. Candidatos lutam para reunir apoios, os filhos do capitão trabalham para afastar eventuais correligionários. Eles não querem votos, mas se satisfazem em xingar, agredir, depreciar e provocar. E perdem sempre, a exemplo de seu pai, preso em casa sem poder se comunicar com ninguém, além da supracitada Michelle.
O resultado desta estranha campanha política é que o candidato Lula transita sem problemas no seu caminho pela reeleição. Sua maior preocupação, neste momento, é que Flávio Bolsonaro mantenha a campanha no mesmo diapasão, ou seja, cometendo erros sobre erros. Lula precisa de adversários. Sem eles, sua reeleição entra numa zona perigosa. O atual momento lembra outra situação curiosa ocorrida quando da reunião do famoso Colégio Eleitoral, que elegeu o sucessor do general Figueredo na Presidência da República. No final do processo eleitoral, Tancredo Neves sabia que seria eleito com relativa facilidade. O mineiro esperto se preocupou em manter a candidatura de Paulo Maluf. Ele precisava de adversários. Hoje Lula precisa do confronto mesmo que seja por intermédio de um candidato que vive em outro mundo, no ambiente das rachadinhas, do favorecimento a milicianos no Rio de Janeiro, do estranho faturamento de sua loja de chocolates e do apoio ao governo dos Estados Unidos em sua cruzada contra o Brasil. É a imagem nítida de um anticandidato que trabalha contra seu objetivo.
Até agora, nenhum dos dois candidatos conseguiu montar um palanque em Minas Gerais, o terceiro maior colégio eleitoral do país. Os estudiosos do processo eleitoral brasileiro afirmam que quem vence em Minas, ganha no Brasil. Tem sido assim. Aécio Neves, é bom lembrar, perdeu a eleição presidencial, quando foi derrotado por Dilma Rousseff em Minas. No entanto, até agora ninguém sabe quem vai apoiar quem no sempre misterioso território das alterosas.
Há quem veja na súbita transformação de Gilberto Kassab em candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado à Presidência da República sinal de que o cenário eleitoral vai sofrer profundas transformações. Flávio pode desistir de sua aventura, porque a oposição tem nomes mais qualificados do que o filho de Jair. O nome do Senador Rogerio Marinho, neto do inesquecível Djalma Marinho, é um deles. Tudo pode mudar porque os erros do atual postulante do PL são muitos, graves e cumulativos. Flavio Bolsonaro é cativo de seu destinozinho medíocre. A renúncia pode ser a melhor solução para sua tragédia familiar e política.