Um novo primeiro-ministro mais à esquerda é solução para Reino Unido?
Um novo primeiro-ministro sem eleição nem nada? Não é golpe. É assim que funciona no parlamentarismo britânico. Aconteceu com Margaret Thatcher quando os conservadores estavam no poder e agora com o impopular e apagado Keir Starmer. Suas posições relativamente moderadas, além do estilo carisma zero, estavam arrastando para baixo o Partido Trabalhista e despontou um substituto, Andy Burnham, um tanto mais à esquerda, que entusiasmou os deputados do partido.
Em poucos dias, foi consumado o “golpe” do próprios colegas. Starmer levou punhaladas pelas costas – e pela frente também – até ser obrigado a renunciar. Hoje anunciou, com lágrimas nos olhos, que deixará o governo. A transição só será realizada em setembro, período suficiente para novas humilhações.
Andy Burnham chega ao poder empurrado pelos defeitos de Starmer e pelas qualidades que demonstrou quando foi prefeito da Grande Manchester, a região metropolitana do norte da Inglaterra. Em vários sentidos, ele é um anti-Thatcher. Tem uma fórmula que governos de esquerda, tendo desistido do socialismo e outras maluquices, pregam em todo mundo: gastar mais para aumentar benefícios sociais, sem se importar com a racionalidade fiscal, e até reestatizar empresas privatizadas, principalmente provedoras de água e eletricidade. De onde sai o dinheiro, visto que ele se comprometeu a não aumentar impostos da pessoa física, nem de empresas, nem sobre a circulação de mercadorias?
Ah, depois a gente vê. E sempre tem a garfada sobre investimentos financeiros, a galinha dos ovos de ouro que todos os governos de esquerda cobiçam. Outros arroubos, como congelamento de aluguéis, provavelmente pertencem ao terreno da expressão de desejos.
Burnham tem a seu favor a popularidade conquistada em Manchester, principalmente no campo do transporte coletivo, onde implantou uma rede de ônibus com tarifa congelada em duas libras.
DEVER MORAL
Se, contra todas as expectativas, mostrar um bom trabalho, terá condições de reverter a mais importante convulsão política que está acontecendo no Reino Unido, com a ascensão do partido Reforma, de Nigel Farage, um populista de direita que era considerado uma figura marginal e folclórica, mesmo tendo sido o pioneiro do Brexit (Burnham já disse, mas recuou, que idealmente gostaria de um projeto de dez anos para colocar o reino de novo na União Europeia).
A ascensão de Farage tem dizimado a direita tradicional, a do Partido Conservador, o mais antigo partido do mundo. Apesar da eloquência e da firmeza da líder conservadora, Kemi Badenoch, os tories, como são chamados, estão em queda catastrófica.
Se houvesse eleições hoje, o Reforma teria 28% dos votos; os trabalhistas, 19%; os conservadores, 18%; e os liberais democratas, 14%. Só seria viável formar um governo de direita se os tories se aliassem ao Reforma, coisa que Kemi Badenoch diz que nunca, jamais irá acontecer.
Andy Burnham não vai convocar eleições para ter um mandato das urnas. É da regra do jogo parlamentarista, embora muitos considerem um dever moral receber o endosso popular. Não abrirá mão de jeito nenhum da atual maioria de 403 deputados, num total de 650. O suficiente para testar suas propostas de esquerda, recebidas pelo lado oposto como um desastre que vai agravar o crescimento pálido da economia, deixar intocado ou piorar mais ainda o deficiente sistema de saúde, espantar investidores e sufocar a iniciativa de empreendedores, já assustados com a carga fiscal. No ano passado, 16,5 mil cidadãos com renda de mais de um milhão de dólares deixaram o país, tocados por impostos insuportáveis. Com a maioria que tem no Legislativo, Burnham pode fazer muito – para o bem ou, mais provavelmente, para o mal. Será ele um inovador ou um ideológico sem visão?
Em vez de melhorar, Andy Burnham pode piorar as coisas. A maior de todas as surpresas será se alguma de suas iniciativas der certo – e líderes de esquerda em muitos outros países estarão de olho para ver se ele funciona como um argumento a favor de suas teses.