Uma tarde democrata no Queens de Nova York
Há uma Copa do Mundo paralela sendo disputada pelo prefeito democrata de Nova York, Zohran Mamdani. A ideia dele, no avesso dos preços exagerados de ingressos e tudo o que cerca a competição (ingressos a mais de 5 000 dólares, estacionamento perto dos estádios a 250 dólares), é tornar a festa mais acessível. O alcaide pôs a venda 1 000 ingressos a 50 dólares, além de transporte gratuito para o New Jersey New York Stadium, onde o Brasil estreou contra o Marrocos e será disputada a final. Além de bilhetes sem abuso, Mamdani organizou festas populares com telões em diversos bairros, ajudando na organização e nos gastos. “A Copa do Mundo pertence aos nova-iorquinos”, disse. “Não há lugar melhor no mundo para sediar o maior evento esportivo do que uma cidade onde todas as nações já estão representadas, onde todos os idiomas são falados e todas as culinárias são apreciadas. Trabalhamos arduamente para garantir que este torneio não seja reservado apenas para aqueles que podem pagar por melhores lugares do estádio. De ingressos acessíveis e eventos gratuitos em todos os bairros à proteção de trabalhadores e imigrantes, fizemos desta Copa do Mundo um evento digno das pessoas que fazem de Nova York a maior cidade do mundo.”
Um dos locais a que Mamdani se refere é o bairro de Laurelton, no Queens, de vasta comunidade jamaicana, haitiana e de países da África subsaariana. Neste sábado, 20, ele esteve ali, na parte da tarde, para celebrar a iniciativa e também para um encontro especial: recebeu duas camisas alvinegras com marcas do tempo da Democracia Corinthiana, uma de número 8, a do Dr. Sócrates, e outra de número 9, de Casagrande, que foi entregá-la pessoalmente. A iniciativa, promovida por Vinicius Cascone, ex-diretor jurídico do clube, e por Rafael Castilho, diretor cultural da agremiação do Parque São Jorge, foi um gesto de simpatia depois de um celebrado momento de Mamdani, na véspera do início da Copa. Nas redes sociais, ele lembrou: “Tenho pensado ultimamente sobre Sócrates, não o antigo filósofo grego, mas o maestro do meio-campo brasileiro. Sócrates jogou pelo Brasil nos anos 1970 e 80, incluindo a Copa do Mundo de 1982, onde capitaneou a seleção. Estes foram anos difíceis no Brasil. Uma junta militar repressiva governava o país, impondo seu domínio pela força. No Corinthians, Sócrates e seus companheiros começaram um experimento de autogoverno chamado Democracia Corinthiana. Quer você fosse o centroavante estrela ou trabalhava na lavanderia, você tinha um voto.”
O encontro de Mamdani e Casagrande foi ao lado da estação de trem da linha Long Island Rail Road, o LIRR, que conecta a ilha de Manhattan ao Brooklin, ao Queens e a toda extensão de Long Island, no estado de Nova York. Havia, na tarde de sábado, calor para mais de 30 graus, uma pequena e animada feira de comes e bebes e um telão. VEJA acompanhou a cerimônia, improvisada e simpática. Mamdani chegou ao grito de cidadãos, animados. “Mamdani, Mamdani, I love you!”. Casagrande, entre a timidez e a ansiedade, se deliciava com o que saia da caixa de som: Donna Summer, KC and The Sunshine Band, Gloria Gaynor e Diana Ross (o nome, aliás, da organizadora do rega-bofe que entraria pela noite, como numa quermesse junina, de lampadinhas pequenas). “Isso aí é do meu tempo de bailinho”, disse Casagrande. Som na caixa e então, na outra ponta, despontou o prefeito. Os dois foram apresentados, levados à primeira fila de cadeiras de plástico, como as da capa do álbum de Bad Bunny. Conversavam por meio dos funcionários, de um lado e do outro, que ajudavam na interpretação.
Não demorou para que, diante delas, na tela, saísse o gol da Costa do Marfim contra a Alemanha, que depois viraria o placar. Mamdani comemorou com ênfase, e não parecia haver falsidade. A VEJA, ele disse o seguinte, instado a revelar para quem torce na Copa de 2026: “É difícil responder a um brasileiro algo que não seja “Brasil” (risos). Mas eu tenho uma queda pelo Marrocos e acho que este pode ser o ano deles.” A respeito de Casagrande, insistiu na deferência ao tempo da Democracia: “Para aqueles que têm paixão pela democracia, o movimento sempre foi uma inspiração mundial sobre como os atletas podem lutar pela liberdade. Sou muito grato ao nosso irmão aqui (ele aponta para Casagrande) por tudo o que ele fez e continua fazendo.” O brasileiro riu com timidez, um tanto constrangido, mas feliz. Ele depois iria à frente das cadeiras para ser apresentado por Mamdani, numa celebração bonita e simples, com jeito de cidade do interior.
E lá seguia Mamdani, o antípoda da truculência trumpista, em seu movimento que, de alguma ou muitas formas, conversa com a Democracia Corinthiana. VEJA quis saber, na lata:
Uma Copa do Mundo, com sua variedade de nações, idiomas e culturas pode ser uma resposta às políticas de imigração do governo de Donald Trump? Com certeza. A Copa é um exemplo de como o mundo poderia ser se nós praticássemos os valores que tantos dizem ter. É uma oportunidade de ver como tudo seria.”
Imaginar como as coisas seriam é exercício permanente de Momdani, e que segue a trilha de vida e de trabalho da mãe, a premiada diretora de cinema Mira Nair, a indiana que ganhou o Leão de Ouro de Veneza, em 2001, por Um Casamento à Indiana. É uma comédia dramática frenética sobre os preparativos caóticos e os segredos de uma grande família em Nova Délhi. É dela também Mississippi Masala, de 1991, estrelado por Denzel Washington, que acompanha o romance entre um homem negro e uma mulher indiana nos Estados Unidos, abordando migração e preconceito. Mamdani faz isso o tempo todo, ilumina os problemas de um país assustado, por assim dizer, com as estúpidas diatribes de Trump.