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Uso de ferramentas de IA avança no mercado financeiro, liderado pela geração Z

26 de Junho de 2026, 08:30 1 visualizações
Uso de ferramentas de IA avança no mercado financeiro, liderado pela geração Z

Cada vez mais, os assistentes de inteligência artificial (IA) auxiliam os brasileiros em tarefas cotidianas como escrever e-mails, organizar a agenda e realizar pesquisas. A popularização de tais ferramentas também causa preocupação quanto ao seu uso indiscriminado em situações sensíveis, tais como quando alguém decide trocar a consulta com um psiquiatra por um bate-papo com uma IA em busca de alívio para doenças mentais como a depressão e a ansiedade. O fenômeno levou a Anbima, a associação que representa a indústria de investimentos, a incluir pela primeira vez em sua pesquisa anual — que chegou à nona edição em 2026 — perguntas sobre como os investidores estão usando as IAs. Segundo os resultados divulgados recentemente, 9% dos entrevistados já utilizam plataformas como o ChatGPT, o Gemini e o Claude para esclarecer dúvidas sobre produtos financeiros e para decidir como alocar seus recursos. Em tempos digitais, a proporção supera a de quem recorre a meios consagrados na internet, como as redes sociais Facebook e TikTok, com os mesmos objetivos.

Para Marcelo Billi, superintendente de inovação e educação da Anbima, o percentual surpreende também por indicar a rapidez com que as IAs estão sendo adotadas. “Era um tema inexistente há poucos anos”, diz. “Agora está em todas as conversas do mercado.” Tamanha velocidade é sustentada pelos mais jovens — e por uma larga vantagem. De acordo com a pesquisa, 49% dos investidores que recorrem aos assistentes de IA pertencem à geração Z, composta de indivíduos que nasceram do fim dos anos 1990 ao início dos anos 2010. Por serem nativas digitais, essas pessoas cresceram habituadas a encontrar respostas para tudo na internet, da mesma forma que seus avós consultavam as bibliotecas e os jornais. Seus antecessores da geração millennial, que hoje têm de 30 a 40 anos, também representam uma fatia considerável de 36% do total de consultas a IAs sobre finanças. Os homens são mais propensos a utilizá-las — eles representam 67% dos usuários em temas financeiros, embora formem 55% do total de 61 milhões de pessoas que investem no Brasil. Por fim, quanto maior a renda, maior é a disposição a aderir à novidade. Entre os entrevistados das classes A e B que já investem, 58% admitiram recorrer à tecnologia.

A mudança de comportamento também influencia a composição das carteiras — 77% dos usuários de IA diversificam suas aplicações. Entre as opções favoritas, 33% investem em títulos privados de dívida, 29% em fundos de investimento, 29% em criptomoedas e 11% em ações. Os dados indicam que a inteligência artificial estaria incentivando os investidores a ampliar seus horizontes, a aprender mais sobre finanças e até mesmo a se arriscar mais.

Para os especialistas, ao simplificar conceitos e oferecer informações na forma de conversas, a IA pode reduzir barreiras históricas que atravancam o acesso ao mercado financeiro. Essa é a aposta de empresas como a Gorila, que desenvolve ferramentas de inteligência artificial focadas em investimentos tanto para profissionais do setor quanto para pessoas físicas. Sua plataforma conecta a carteira de investimentos do usuário a uma IA. “Essa conexão muda a experiência de investir”, afirma Guilherme Assis, presidente da Gorila. “O cliente consegue literalmente conversar com a sua carteira.” Segundo ele, um dos efeitos positivos da ferramenta é incentivar os usuários a questionar as próprias decisões sem temer os olhares condenatórios de outras pessoas. Assis compara a situação à daqueles alunos tímidos que, nos tempos da escola, evitavam fazer perguntas aos professores para não atrair a atenção — e o eventual bullying — da classe. Muitas pessoas experimentam uma inibição semelhante diante de gestores e assessores de investimento de carne e osso e, por isso, se sentem mais à vontade de se informar com uma IA na privacidade de casa.

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Marcelo Billi, da Anbima: a rapidez com que a inteligência artificial foi adotada no Brasil surpreende
Marcelo Billi, da Anbima: a rapidez com que a inteligência artificial foi adotada no Brasil surpreende./Divulgação

A inteligência artificial democratiza o acesso à informação e acelera o aprendizado dos investidores, mas não elimina a necessidade de buscar outras fontes de educação financeira nem substitui o auxílio de profissionais capacitados. Para Valter Rebelo, executivo da casa de análises Empiricus, o risco de más decisões surge quando alguém transforma uma conversa com um chatbot em uma recomendação definitiva de investimento. “Sem ter uma base teórica, o investidor pode seguir conselhos que não fazem nenhum sentido”, afirma. Isso ocorre porque as ferramentas mais difundidas, como o ChatGPT e o Gemini, não operam com o mesmo nível de checagem, supervisão e rastreabilidade empregado por plataformas desenvolvidas para ambientes profissionais. “Para uma mesma pergunta, a IA pode gerar respostas corretas ou erradas, de acordo com o momento, já que não são auditáveis”, afirma Rebelo.

Infográfico com título Use com moderação e subtítulo Os cuidados que os investidores devem tomar ao consultar inteligências artificiais. Quatro tópicos listam: Não aceite toda resposta como verdade, Use a IA como apoio, não como decisão final, Educação financeira é essencial e Estratégias devem ser compatíveis com o seu perfil. No topo, um ícone roxo de um robô com cifrões e estrelas ao redor da cabeça. A fonte é Marcelo Billi, superintendente de inovação e educação da Anbima

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Os riscos de confiar cegamente na inteligência artificial vão além de eventuais informações imprecisas. Embora sejam capazes de processar grandes volumes de dados e de identificar padrões, essas ferramentas ainda falham miseravelmente na captura de nuances que influenciam a precificação de ativos. É o caso de mudanças abruptas no cenário econômico, desdobramentos de eventos geopolíticos e de outros fatos capazes de azedar o humor do mercado em questão de minutos. Além disso, toda decisão de investimento envolve aspectos subjetivos como os objetivos pessoais, a tolerância ao risco e o momento de vida, que dificilmente podem ser traduzidos com precisão em um comando de texto. Alguns defendem, no entanto, a ideia de que o avanço dessas ferramentas não precisa ser encarado como uma disputa entre a tecnologia e a humanidade. É o caso de Rodolfo Marinho, sócio da IP Capital, para quem a inteligência artificial tem o potencial de tornar os investidores mais conscientes no processo de decisão. “O indivíduo pode se preparar melhor para questionar o assessor antes de aplicar seu dinheiro”, diz. Isso significa recorrer à IA para consolidar informações, entender conceitos básicos e até formular dúvidas mais sofisticadas que extraiam o máximo dos profissionais de finanças.

ChatGPT: os especialistas em finanças alertam para o risco de respostas incorretas ou inadequadas
ChatGPT: os especialistas em finanças alertam para o risco de respostas incorretas ou inadequadas./Getty Images

O avanço tecnológico também é acompanhado de perto pelos órgãos reguladores. Procurada por VEJA NEGÓCIOS, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) afirmou que está atenta ao uso da inteligência artificial no mercado financeiro. “A autarquia destaca que está permanentemente modernizando a regulamentação e a supervisão, em função de fatores diversos, tais como estruturas inovadoras”, informou a CVM por meio de nota. A manifestação indica que, embora ainda não haja uma regulação específica para o uso de IA por investidores, o tema já entrou no radar do xerife do mercado de capitais.

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Painel de cotações da B3: 11% dos indivíduos que investem em ações consultam assistentes de IA
Painel de cotações da B3: 11% dos indivíduos que investem em ações consultam assistentes de IACris Faga/Dragonfly Press/Folhapress/.

A tendência, segundo os especialistas, é que a inteligência artificial deixe de ser percebida como um canal isolado de consulta e se incorpore a praticamente todas as experiências digitais, dos mecanismos de busca às plataformas de investimento. Nesse cenário, talvez a pergunta não seja mais se os brasileiros usarão IAs para investir, e sim como fazê-lo de modo seguro, isto é, sem sofrer prejuízos decorrentes de recomendações baseadas em informações incorretas e em delírios da ferramenta. O desafio será aprender a extrair o melhor da tecnologia sem abdicar do senso crítico. Embora essas ferramentas ampliem o horizonte dos investidores e, se bem utilizadas, contribuam para decisões mais conscientes, também carregam as limitações típicas de toda tecnologia que ainda está engatinhando e que caiu no gosto de jovens hiperconectados que ensaiam seus primeiros passos no mercado financeiro. Afinal, se as respostas estão cada vez mais acessíveis e instantâneas, torna-se fundamental fazer as perguntas certas para investir bem — e a mais importante de todas é se as respostas fornecidas pela inteligência artificial são as mais corretas e adequadas.

Publicado em VEJA, junho de 2026, edição VEJA Negócios nº 27

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