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Vorcaro volta a assombrar Flávio (por Mary Zaidan)

28 de Junho de 2026, 12:00 0 visualizações

As desavenças familiares no clã Bolsonaro, agudizadas pelo vídeo avassalador de Michelle expondo a série de destratos do primogênito do ex a ela, são duríssimas para a campanha de Flávio, mas tidas, politicamente, como contornáveis. O fantasma que promete voltar a assombrar o senador nesta semana é outro: Daniel Vorcaro. Com a decisão do presidente do STF Edson Fachin de que o caso Black Horse ficará com o ministro André Mendonça, suspendem-se formalmente os alegados empecilhos para que a Polícia Federal inicie as investigações sobre as relações confessas entre Flávio-Vorcaro. Até aqui, elas são brandas e desiguais se comparadas às diligências sobre os também senadores Ciro Nogueira (PP-PI) e Jaques Wagner (PT-BA). Não dá mais para adiar.

Como estamos em tempos de Copa do Mundo, com o futebol contribuindo de maneira eficaz para a já conhecida memória fraca dos brasileiros, cabe lembrar. Há pouco mais de um mês o The Intercept Brasil revelou áudios de diálogos nos quais Flávio cobra de Vorcaro o cumprimento da promessa de custeio do filme sobre o papai. À época, o ex-banqueiro já havia feito aporte de generosos R$ 61 milhões, quase metade dos R$ 134 milhões pré-acertados, parte de um estranhíssimo apoio sigiloso, incomum entre patrocinadores. Mas o Zero Um queria o resto, embora a cinebiografia já estivesse finalizada ao custo de R$ 75 milhões – apenas R$ 14 milhões a mais do que o então dono do Master “adiantou” ao esquema.

Primeiro, Flávio negou de forma patética que tivesse pedido dinheiro a Vorcaro, chegando a chamar de “militante” o repórter que o abordou sobre o tema. Aos berros, disse se tratar de “ataque político” e “fake news”. Ao ser confrontado com os áudios de sua própria voz, admitiu que pedira o dinheiro como “um filho” buscando “patrocínio privado” para um filme sobre o pai. Desde que o escândalo do Master eclodiu, o senador insistia junto ao PL que nem ele nem sua família tinham relações com Vorcaro. Flagrado, viu-se forçado a confirmar encontros com o ex-banqueiro, o último deles na casa de Vorcaro já depois da liquidação do banco e da primeira prisão preventiva.

Flávio escancarou aos seus partidários e ao país ser um mentiroso reincidente, contumaz. Mesmo diante da desconfiança de gente graúda do PL, a decisão da maioria foi a de dar mais uma chance ao pré-candidato, desde que a história não trouxesse novas surpresas.

Em 19 de junho, dia em que a Seleção Brasileira arrancou a primeira vitória na Copa, derrotando o Haiti por 3 x 0, venceu o prazo estabelecido pelo senador para apresentar as contas do filme e, com elas, apaziguar aliados. Mesmo aplicando a generosidade de se tratar de 30 dias úteis, a data limite é amanhã, quando o Brasil enfrenta o Japão, já no mata-mata. A desejada vitória canarinho pode até adiar a cobrança do PL pelas planilhas prometidas, mas não deverá implicar no esquecimento das relações inexplicáveis (e milionárias) do senador com o ex-banqueiro. Até porque não dá mais para adiar: a PF vem aí.

A expectativa é de que as investigações mirem três pontos: o envolvimento direto de Flávio no dinheiro dado por Vorcaro ao filme; a hipótese de que parte dos recursos mirasse bancar o deputado cassado e autoexilado nos Estados Unidos Eduardo Bolsonaro; e os parlamentares que teriam destinado emendas a entidades para custear a produção. Nessa seara as suspeitas envolvem Mario Frias (PL-SP), Marcos Pollon (PL-MS) e Bia Kicis (PL-DF), candidata apoiada por Michelle para o Senado, cotada agora para vice de Flávio, em uma tentativa mambembe de agradar à madrasta depois da lavação pública de roupa suja. Inclui ainda a ex-deputada foragida na Itália Carla Zambelli e o condenado por tentativa de golpe de Estado Alexandre Ramagem, que fugiu para os Estados Unidos.

Tudo envolvendo o Dark Horse, expressão em inglês para azarão, é torto, para se dizer o mínimo. O custo declarado bate de longe todas as produções brasileiras, incluindo os premiados Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto. Feito nos Estados Unidos, o filme inicialmente tinha Eduardo como principal executivo, tarefa que teria ficado a cargo da Go Up, de propriedade de Karina Gama.

Dona do Instituto Conhecer Brasil (ICB), ela é investigada pela Polícia Civil de São Paulo por um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura da capital para instalar e fazer manutenção de pontos de internet gratuita em comunidades de São Paulo. Além de cobrar preços até três vezes acima do praticado pelo mercado, a ONG de Karina é acusada de receber R$ 26 milhões da gestão Ricardo Nunes sem ter prestado os serviços, e de subcontratar a empresa de Alex Leandro Bispo do Santos, que, segundo a polícia, é membro do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Atribui-se ao caso Vorcaro a queda de Flávio nas pesquisas de opinião depois de uma largada vigorosa na corrida presidencial. O PL e sua campanha contavam com a Copa do Mundo como refresco e não com novos incêndios no clã. Muito menos com investigação no pé do senador. Como não dá para adiar e há muita corda para puxar nesse rolo, o que vem por aí tende a ser ainda mais danoso do que o bate-boca familiar.

 

Mary Zaidan é jornalista 

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