A Copa do Mundo pune a soberba dos europeus
A Copa do Mundo está prestando um enorme serviço ao futebol. Ela vem desmontando, jogo após jogo, a velha soberba europeia. Nos últimos anos, ganhou força a ideia de que a Europa produz um futebol superior, disputa as eliminatórias mais difíceis do planeta e, por isso, mereceria mais vagas no Mundial. Bastaram alguns dias de mata-mata para esse discurso começar a desmoronar. A Holanda foi eliminada por Marrocos, e a Alemanha caiu diante do Paraguai.
O caso da Alemanha é revelador. Depois da eliminação, o celebrado volante Joshua Kimmich afirmou que sua seleção teve dificuldades contra equipes “que não são de classe mundial”. Em vez de reconhecer o mérito do Paraguai, o jogador preferiu diminuir quem acabara de mandá-lo para casa. É o retrato perfeito da arrogância que faz parte da cultura do futebol europeu.
Não custa lembrar: a Alemanha caiu diante do Paraguai, apenas o sexto colocado das Eliminatórias Sul-Americanas e último classificado diretamente para a Copa do Mundo. Antes disso, já havia perdido para o Equador na fase de grupos. Como se não bastasse, oito jogadores do elenco paraguaio atuam no Campeonato Brasileiro, competição que muitos europeus insistem em tratar como um campeonato de segunda categoria.
A Holanda viveu situação semelhante. Depois da campanha que levou Marrocos às semifinais da Copa de 2022, já deveria estar claro que a seleção africana deixou de ser surpresa faz tempo. Mesmo assim, cada vitória marroquina continua sendo tratada como zebra, como se o futebol de alto nível fosse algo exclusivo dos europeus. Marrocos não eliminou a Holanda por acaso: foi melhor durante a maior parte do jogo e apenas confirmou, nos pênaltis, uma classificação merecida.
E Portugal e Espanha? Apesar dos deslumbrados de plantão, as duas seleções não convenceram até aqui. Portugal parece uma versão genérica do velho tiki-taka espanhol, sem o talento que um dia fez daquele estilo uma revolução. Já a Espanha continua prisioneira da interminável troca de passes sem objetividade. O tiki-taka, que um dia encantou o mundo, já torrou a paciência de quem gosta de futebol.
Até o momento, há apenas uma seleção europeia que realmente impõe respeito nesta Copa. A França joga com alta intensidade, ataca com objetividade, possui talento em todos os setores do campo e não precisa recorrer ao velho discurso da superioridade europeia para demonstrar sua força. Simplesmente entra em campo e faz o seu trabalho.
Talvez esteja na hora de rever a babação de ovo pelo futebol europeu. É evidente que o continente reúne os melhores clubes, as ligas mais ricas e os principais jogadores do mundo. Mas isso não significa que suas seleções continuem inalcançáveis ou que o restante do planeta deva aceitar um papel secundário. A Copa do Mundo mostra exatamente o contrário: o futebol ficou mais global, mais equilibrado e muito menos previsível do que muitos gostariam de admitir.