Início / A mania dos narradores da CazéTV que irrita na C…

A mania dos narradores da CazéTV que irrita na Copa do Mundo

16 de Junho de 2026, 12:13 0 visualizações
A mania dos narradores da CazéTV que irrita na Copa do Mundo

AAAHHH! OOOHHH! UUUHH! EEEHHH! AAAIIIH! UOOOHH! AAAARGH! OOOOOH! AAAAHHH!

Corri para a televisão achando que tinha perdido um gol. Era um escanteio para a Holanda. Bem-vindo à narração da CazéTV, onde todo lance é tratado como se fosse o gol do título mundial marcado aos 50 minutos do segundo tempo.

A mania dos narradores da CazéTV de gritar em qualquer lance – seja um arremesso lateral para o Egito ou um chute para fora da Tunísia – corrói a paciência do espectador e esvazia justamente aquilo que pretende exaltar: a emoção do futebol.

Na CazéTV, todo jogo é histórico, todo gol é espetacular, todo garoto de 19 anos é um fenômeno geracional, todo drible é antológico, todo atacante é um extraterrestre e todo chute para fora parece anunciar uma nova era para a humanidade. A inflação de superlativos chegou a tal ponto que as palavras perderam valor. Quando um narrador descreve como “histórico” o décimo lance da partida, a única conclusão razoável é que provavelmente não há nada de histórico acontecendo. Afinal, se tudo é histórico, nada é.

O milésimo gol de Pelé foi histórico. A Mão de Deus foi histórica. O 7 a 1 foi histórico. A cobrança de lateral da Arábia Saudita aos 17 minutos do primeiro tempo não será estudada pelas próximas gerações.

Continua após a publicidade

Existe uma diferença entre transmitir emoção e tentar fabricá-la no grito. A emoção verdadeira nasce do jogo, de um drible improvável, de um chute no ângulo, de um gol nos acréscimos, de uma zebra derrubando um favorito. Ela surge naturalmente, sem precisar ser anunciada aos berros como se o mundo estivesse acabando. Galvão Bueno não grita durante noventa minutos. Ele sabe que o gol é emocionante justamente porque não acontece a todo instante. Na CazéTV, a explosão começa no primeiro toque na bola e só termina quando o árbitro encerra a partida.

É possível que esse estilo venha do ambiente digital. Nas redes sociais, tudo precisa ser maior do que é, tudo precisa gerar corte, engajamento e compartilhamento. O problema é que uma transmissão esportiva não é um vídeo de quinze segundos no TikTok. Ela dura duas horas. E ninguém consegue viver duas horas em estado permanente de euforia.

Para fazer justiça, é preciso dizer que a CazéTV trouxe leveza às narrações esportivas, renovou formatos e mostrou que existe vida inteligente fora dos modelos tradicionais de transmissão. Tudo isso é verdade, mas o problema surge quando a gritaria é o personagem principal das transmissões.

Continua após a publicidade

A Copa do Mundo não precisa de ajuda para parecer emocionante. Um Brasil x Argentina já nasce emocionante. O papel do narrador é reconhecer esses momentos e amplificá-los, mas não fingir que eles estão acontecendo a cada escanteio para a Arábia Saudita.

 

Publicidade

Veja Também

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar.

Deixe seu Comentário

Os comentários passam por moderação antes de serem publicados.