Arte é vida: uma nova descoberta de cientistas sobre longevidade
Desde os primórdios, a consciência da finitude da vida vem ensejando uma incessante busca por caminhos para frear o envelhecimento. Lá atrás, na Grécia Antiga, Hipócrates (460 a.C.-377 a.C.), que ingressou nos livros de história como o pai da medicina, acreditava que o acúmulo de cabelos brancos e demais efeitos do tempo seriam resultado de um desequilíbrio entre fluidos corporais, contra o qual prescrevia banhos termais e dieta. Quando a ciência se encarregou de tornar o tema exaustivo objeto de investigação, já no mundo moderno, ele migrou para os laboratórios de bioquímica. Foi então que surgiram suplementos antioxidantes, pesquisas com células-tronco e, mais recentemente, uma corrida bilionária das big techs por terapias de rejuvenescimento celular. Daí resultou uma cartilha que boa parte da humanidade sabe de cor: dieta balanceada, sono em dia, malhação constante e nada de cigarro — tudo isso conspira em prol da tão almejada vida longa.
Nesse campo em que o conhecimento não para de evoluir, um novo estudo acaba de trazer à baila um fator inesperado que se junta aos outros a favor da longevidade: o permanente contato com as artes de formas diversas, seja lendo um livro, indo ao museu ou ao cinema, seja produzindo algo belo. O pioneiro estudo, tocado por especialistas do University College London (UCL) e publicado pela revista científica Innovation in Aging, analisou dados de mais de 3 500 pessoas, cruzando informações sobre hábitos culturais com exames de sangue para medir alterações químicas do DNA por meio dos chamados relógios epigenéticos — termômetros que dão a idade biológica do organismo. Ao contrário do tempo cronológico, contabilizado pelos aniversários, o de natureza biológica reflete o desgaste real de células e tecidos. Quanto mais lentos os ponteiros, menores os riscos de doenças que permeiam a trilha do envelhecimento.

Pois, ao observar as amostras, eis que, heureca!, os cientistas encontraram um padrão consistente: os assíduos adeptos de atividades culturais eram biologicamente mais jovens. Os números ajudam a dar contornos à descoberta. Não que estar exposto às artes seja um milagroso elixir, mas ter alguma experiência de tal natureza pelo menos uma vez por semana desacelera os efeitos da passagem do tempo no organismo em 4%, o que representa um ano a menos na contagem biológica em relação aos que ficam na preguiça do sofá. Para espanto dos pesquisadores, os benefícios da experiência artística são tão vastos que se equiparam até aos da prática de exercícios físicos.
Mas que isso não seja estímulo para os que encaram o salutar hábito de ir à academia trocá-lo por uma visita ao museu — são ambas iniciativas bem-vindas e não excludentes. “Enquanto as atividades físicas atuam no corpo prevenindo doenças, as culturais põem o cérebro para trabalhar, dois ganhos essenciais ao bem-estar”, enfatiza Alexandre Kalache, referência nos estudos sobre envelhecimento. Há muitos relatos sobre como a arte faz bem aos indivíduos que se abrem a ela. Frequentador de teatro, salas de cinema e museus, o comunicador visual Murilo Tavares, 62 anos, sente na pele o quão benéfico é estar em dia com a programação cultural. “Às vezes estou cansado, venço a inércia e a disposição volta depois de uma boa exposição”, diz.

Não é a primeira vez que cientistas mergulham no infindável mundo das pesquisas sobre longevidade repousando a lupa sobre o papel que as artes podem ter na corrida contra o tique-taque do relógio. Pesquisas anteriores já demonstraram que esse tipo de rotina tem o potencial de baixar os níveis de inflamação crônica, aquela que mesmo em baixo grau sabidamente acelera o envelhecimento, e do estresse, ao colocar o cérebro para funcionar a pleno vapor — um antídoto e tanto contra o tempo. Essa ebulição toda envolve redes na mente ligadas a emoção, memória e cognição, elevando a liberação de neurotransmissores de bem-estar, como dopamina e serotonina. “O envelhecimento é fortemente influenciado pela forma como vivemos, nossos hábitos, relacionamentos e comportamentos no curso da vida”, lembra Márlon Alibert, da Faculdade de Medicina da USP. “Atividades artísticas costumam reunir estímulo cognitivo, interação social, prazer e senso de propósito, fatores que ajudam o organismo a responder melhor ao estresse, um inimigo da vida longa”, completa a especialista.
Os autores do novo estudo sugerem que as pessoas não se fixem em uma única atividade cultural, mas abram ao máximo o leque. “Cada tipo de atividade artística — ler, assistir a uma peça ou visitar locais históricos — tem distintos efeitos cognitivos, emocionais e fisiológicos”, explicou a psicobióloga Daisy Fancourt, à frente da pesquisa da UCL. Aos 65 anos, a designer de interiores Ana Lúcia Nunes cultiva uma agenda que inclui leitura diária, idas frequentes a museus e aulas de cerâmica. “A arte me ajuda a continuar aprendendo, me surpreendendo e descobrindo coisas, algo que considero fundamental para um bom envelhecimento”, conta. De tão contundente o achado, ele já faz com que uma ala de especialistas agite bandeira em prol da oferta de cultura à população. “É um investimento que deve ser visto como uma extensão das políticas de educação e saúde”, defende Alexandre Kalache. Dito isso, deixe-se emocionar pelo belo e ganhe preciosos anos de vida.
Publicado em VEJA de 19 de junho de 2026, edição nº 3000