As justificativas ruins de Jaques Wagner para as pesadas suspeitas levantadas pela PF
Alvo de uma operação da Polícia Federal, que investiga graves suspeitas sobre o seu relacionamento com o Banco Master, Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado, tentou justificar algumas das evidências contra ele levantadas na investigação, mas o resultado foi desastroso — e considerado insuficiente até mesmo por pessoas do governo e do PT.
Uma das explicações que constrangeram até aliados foi sobre o dinheiro encontrado em seus endereços, em Salvador, cujas imagens vão pressionar as campanhas petistas nas eleições deste ano. A PF encontrou nada menos que 55.000 dólares e 33.000 euros, o que, convertido para a moeda brasileira, daria hoje cerca de 478.000 reais.
Em entrevista à BandNews na mesma quinta-feira, 18, em que foi alvo da operação, ele disse que a maior parte do dinheiro era de diárias recebidas para viagens em missões oficiais do Senado. Segundo o Portal da Transparência da casa legislativa, Wagner recebeu cerca de 337.000 reais em diárias desde 2019, ou seja 140.000 reais a menos do que ele tinha em dinheiro vivo em seus endereços.
Ele alegou que, além das diárias, comprou parte das moedas estrangeiras durante as viagens. “Eu várias vezes viajei para o exterior. Mandei até levantar e, de 2019, para cá eu recebi de diárias aproximadamente 70 mil dólares. E outras vezes que eu fui viajar eu comprei via Banco do Brasil, onde eu tenho a conta, dólares ou euro para fazer a viagem”, afirmou.
A explicação dada por ele para acumular tanto dinheiro é que ele recebia em papel moeda do Senado, mas gastava com cartão durante as viagens. “Está guardado no cofre porque (quando) eu vou viajar nem sempre eu levo a diária, às vezes gasto com um cartão e portanto o dinheiro está lá. Os envelopes, inclusive, onde estavam no caso de Brasília, eram envelopes com um timbre do Senado Federal, que é quando você recebe a diária em espécie, em dólar”, relatou.
Há vários problemas na justificativa. Um deles é que guardar quase meio milhão de reais em dinheiro em casa não é um comportamento padrão — nem de fácil aceitação — para a maioria dos cidadãos, que preferem guardar grandes quantias em bancos. Outro ponto a ser questionado é como ele conseguiu fazer com que sobrasse tanto dinheiro das diárias pagas pelo Parlamento. Mais: se ele gastou em cartão, esse dinheiro não teria que ser depositado no banco para pagar a dívida do cartão? Por fim, a imagem de tanto dinheiro guardado em casa costuma ser fatal para políticos com pretensões eleitorais, como Wagner, que é candidato à reeleição — além de prejudicar o discurso de todo o partido na campanha.
Apartamento
A justificativa para outra suspeita levantada pela PF foi ainda pior. Segundo a investigação, Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, comprou para o senador um apartamento avaliado em 2,5 milhões de reais no Horto Florestal, bairro de alto padrão de Salvador. O imóvel, que fica no empreendimento de luxo Poème Horto, tem 36 andares e duas unidades por pavimento. Cada unidade tem 203 metros quatros e quatro suítes,
Wagner não só admitiu que o banqueiro realmente comprou o apartamento, como tratou isso com uma surpreendente naturalidade. “É um apartamento que está em construção. Eu tinha interesse em dar o apartamento ou de ajudar minha filha a comprar um apartamento desse. Como o Augusto Lima era um investidor, eu disse a ele: ‘Você pode comprar? Depois, eu vou recomprar. Porque o apartamento está em construção, não está pronto. Então, eu teria que vender o apartamento da minha filha para poder complementar e pagar o apartamento, ou ela financiar”, disse o senador à BandNews.
Ou seja, Wagner achou que tudo bem um senador da República, ex-governador da Bahia e líder do governo federal no Senado não cometeu nenhuma impropriedade ao pedir a um banqueiro, que tem negócios com o poder público, para comprar um apartamento para a sua filha.
Se as declarações dadas em entrevista foram ruins, o posicionamento oficial emitido pelo gabinete do senador não foi melhor. Entre outras coisas, a nota diz que “o apartamento mencionado jamais integrou o patrimônio do parlamentar”, como se não fosse grave o fato de ter sido adquirido para a filha dele graças a um pedido seu feito ao banqueiro (leia a íntegra da nota abaixo).
Pressão
A situação delicada de Wagner atingiu o ânimo da militância petista e deixou impacientes algumas de suas lideranças, que cobram, cada vez mais em público, que ele dê explicações convincentes e que se afaste do posto de líder do governo no Senado, tanto para se defender melhor quanto para não contaminar Lula e a campanha eleitoral dos petistas pelo país.
No grupo digital “Pode Espalhar”, criado pelo PT com quase 300 influenciadores escalados para defender o governo nas redes sociais, o clima é de indignação e de desânimo. “Importante esclarecer rapidamente a origem e legalidade do dinheiro de forma convincente”, escreveu uma integrante. Outro participante afirmou esperar que “o presidente Lula e a Executiva do Partido não passem pano” para o episódio — leia matéria sobre isso aqui.
Na entrevista à BandNews, Wagner também foi mal ao arrastar Lula para a sua crise e a colocar o presidente sob pressão ao dizer que não entregaria o posto no Senado e que, se o presidente quisesse, que o tirasse de lá. O senador revelou ainda que Lula teria ligado para ele para manifestar solidariedade, coisa que o presidente não fez até agora em público.
A expectativa é que a soma do conjunto de evidências levantadas pelas investigações (e a gravidade das suspeitas) com as explicações ruins do senador acabem pressionando para que ele entregue o cargo ainda no início da próxima semana.
Reportagem de VEJA
Wagner também reagiu mal na semana passada após reportagem exclusiva de VEJA apontar que Daniel Vorcaro, ex-dono do Master, incluiu na sua proposta de delação detalhes da sua relação com o PT da Bahia, incluindo a participação do senador e de outro ex-governador baiano, Rui Costa. Contratos feitos nas gestões de ambos na Bahia foram fundamentais para alavancar os negócios do banco — leia a reportagem aqui.
Wagner preferiu atacar o trabalho jornalístico. “Quero me solidarizar com Vossa Excelência e antecipar que meu advogado já está preparando a peça para processar a revista”, disse o líder do governo Lula durante a sessão do Senado. “O instituto da leviandade, ou nas instituições, ou na imprensa, ou nas redes brasileiras, precisa ter um ponto final”, completou.
As declarações foram feitas na tribuna do Senado na terça-feira, 16 — dois dias depois, veio a operação da PF.
Nota
Veja como o senador se defendeu em seu pronunciamento oficial encaminhado à imprensa:
O senador Jaques Wagner (PT-BA) esclarece que não é réu, não foi denunciado e não foi acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados. O parlamentar acompanha com tranquilidade o andamento das investigações e mantém a confiança na condução delas.
Cabe esclarecer que o apartamento mencionado jamais integrou o patrimônio do parlamentar. O senador também nega atuação em favor do Banco Master ou qualquer outra instituição financeira.
Sobre os valores em espécie apreendidos, a assessoria informa que o montante é fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais. Por fim, o senador Jaques Wagner reitera que permanece à inteira disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos, com a certeza de que a verdade prevalecerá.