Como os fungos que moram no intestino podem ajudar no tratamento de asma em crianças
As bactérias que vivem pacificamente no intestino humano não são os únicos microrganismos que desempenham um papel importante na saúde. Os hóspedes do reino dos fungos, que compartilham esse mesmo território, também têm o seu valor: algumas espécies podem, inclusive, servir como pistas precoces para prever quais bebês têm maior risco de desenvolver asma e doenças alérgicas na infância.
É o que sugerem dois novos estudos publicados em conjunto na revista Nature: The Clinical Microbiome, nesta terça-feira, 23. Um deles, conduzido pelo Instituto de Pesquisa do Hospital Infantil de BC, no Canadá, mostrou que a presença do gênero de fungos Malassezia é mais comum em bebês que desenvolveram dermatite atópica na infância, por exemplo.
O outro artigo, do Instituto Snyder para Doenças Crônicas e do Instituto de Pesquisa do Hospital Infantil de Alberta, da Universidade de Calgary, também no Canadá, descobriu que o uso de antibióticos em bebês pode ter um impacto direto em certas espécies de leveduras, levando à desregulação imunológica e aumento do risco de asma alérgica.
Estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que a asma atinge cerca de 235 milhões de pessoas em todo o planeta. Só no Brasil, a doença afeta aproximadamente 20% das crianças e adolescentes.
“Centenas de milhões de crianças em todo o mundo são afetadas por doenças alérgicas, e esse número está crescendo. Uma melhor compreensão do que causa essas condições e de como podemos preveni-las traria um enorme benefício para crianças em todo o mundo”, afirmou, em comunicado, o pesquisador Stuart Turvey, autor sênior do primeiro estudo.
Fungos
Para investigar a importância do micobioma (nome dado ao conjunto de fungos que habitam o corpo humano) no início da vida, o trabalho conduzido pelo Instituto de Pesquisa do Hospital Infantil de BC analisou 2.256 amostras de 1.409 participantes no primeiro ano de vida.
Os pesquisadores acompanharam as crianças até os 5 anos e compararam o desenvolvimento da comunidade de fungos presente no intestino entre dois grupos: um formado por crianças que mais tarde desenvolveram alergias (como dermatite atópica, alergia alimentar, rinite alérgica ou asma) e outro composto por crianças que permaneceram livres de qualquer sinal de alergia durante todo o período de acompanhamento.
Aos 3 meses de idade, não havia diferenças relevantes entre os grupos. Mas, ao analisar a composição dos fungos intestinais, os cientistas perceberam que as crianças que desenvolveram dermatite atópica ou alergia alimentar apresentavam, ainda no primeiro ano de vida, um micobioma “menos maduro” do que o esperado para a idade.
Em outras palavras, o “relógio biológico” dos fungos intestinais parecia estar atrasado nessas crianças. Segundo os autores, esse atraso na maturação da comunidade de fungos pode ser um sinal precoce de maior risco para o surgimento de doenças alérgicas nos anos seguintes.
Uso de antibióticos em bebês pode aumentar risco de asma na infância
Já o segundo estudo, do Instituto Snyder para Doenças Crônicas e do Instituto de Pesquisa do Hospital Infantil de Alberta, investigou o efeito dos antibióticos no micobioma em um estudo clínico com bebês de menos de 6 meses de idade.
O uso de antibióticos alterou o equilíbrio dos microrganismos no intestino e favoreceu o crescimento de fungos, especialmente do gênero Malassezia, comum nos primeiros anos de vida.
Pesquisas recentes mostram que crianças com níveis persistentemente elevados de Malassezia tendem a apresentar um microbioma intestinal menos maduro e maior probabilidade de desenvolver dermatite atópica. A condição é vista por especialistas como um sinal precoce da chamada “marcha atópica”, processo que aumenta o risco de asma nos anos seguintes.
Para investigar os efeitos desse crescimento excessivo de fungos, os pesquisadores também realizaram experimentos com camundongos. Os resultados mostraram que a presença desses microrganismos deixava o sistema imunológico mais propenso a reagir de forma exagerada, intensificando a inflamação alérgica no intestino e nas vias respiratórias.
Na prática, esse desequilíbrio parece criar um terreno mais favorável ao desenvolvimento de alergias, aumentando a suscetibilidade dos bebês a essas doenças.
Fronteira para pesquisas futuras
Para os pesquisadores, esses estudos simultâneos reforçam que o início da vida representa uma janela crítica para a formação do micobioma intestinal. E mostram que os fungos que habitam o corpo humano são um alvo promissor para terapias que podem prevenir a desregulação imunológica e doenças alérgicas pediátricas.
“Os antibióticos são um tratamento essencial para crianças pequenas quando necessários, mas este estudo mostra que existe um efeito, até então negligenciado, no micobioma intestinal, permitindo que espécies como Malassezia prosperem e impactem diretamente a função imunológica”, afirmou, em comunicado, a pesquisadora Marie-Claire Arrieta, do Instituto de Pesquisa do Hospital Infantil de Alberta.
Embora a maioria das terapias direcionadas à microbiota até o momento tenha se concentrado em bactérias, trabalhos mais recentes sobre intervenções baseadas em fungos destacam uma área promissora, porém pouco explorada, segundo os pesquisadores.
“O desenvolvimento de estratégias seguras e eficazes para promover o desenvolvimento ideal do micobioma nos primeiros anos de vida continua sendo uma importante fronteira para pesquisas futuras”, diz um dos artigos.