Consumo nos EUA acelera apesar da inflação e reforça percepção de economia resiliente
As vendas no varejo dos Estados Unidos cresceram mais do que o esperado em maio, indicando que os consumidores continuam sustentando a atividade econômica apesar da inflação elevada e do aumento dos preços da energia provocado pelas tensões no Oriente Médio.
Dados divulgados nesta quarta-feira (17) pelo Departamento de Comércio mostram que as vendas do setor avançaram 0,9% em relação a abril, alcançando US$ 764 bilhões (R$ 4,2 trilhões). Na comparação com maio do ano passado, o crescimento foi de 6,9%.
O resultado superou as projeções de analistas e reforçou a percepção de que a maior economia do mundo segue em trajetória de expansão, mesmo diante de pressões inflacionárias que voltaram a ganhar força nos últimos meses.
Combustíveis impulsionam parte da alta
Uma parcela relevante do avanço foi puxada pelos postos de combustíveis. As vendas do segmento cresceram 3,4% no mês, refletindo a disparada dos preços da gasolina após a escalada do conflito envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos.
Mesmo excluindo combustíveis, veículos e outros itens considerados mais voláteis, o desempenho do varejo permaneceu positivo. O chamado núcleo das vendas varejistas avançou 0,7%, sinalizando que o consumo continua forte em diferentes áreas da economia.
Para economistas, os números mostram que as famílias norte-americanas seguem gastando apesar do aumento do custo de vida.
Reembolsos fiscais ajudam a sustentar demanda
Parte da resiliência do consumo tem sido atribuída aos reembolsos de impostos decorrentes do pacote orçamentário aprovado pelo presidente Donald Trump em 2025.
Segundo estimativas de economistas, os contribuintes receberam, em média, mais de US$ 3.500 (R$ 19,2 mil) por declaração. O dinheiro adicional ajudou a reforçar a renda disponível das famílias e estimulou os gastos ao longo da primavera no hemisfério norte.
Analistas destacam que a combinação entre mercado de trabalho aquecido, crescimento dos salários e estímulos fiscais continua oferecendo suporte à demanda, mesmo em um ambiente de juros elevados.
Fed mantém juros e adota tom cauteloso
Os dados de consumo foram divulgados no mesmo dia em que o Federal Reserve concluiu sua reunião de política monetária, a primeira sob a liderança de Kevin Warsh.
O banco central decidiu manter a taxa básica de juros na faixa entre 3,5% e 3,75%, patamar vigente desde dezembro do ano passado. A decisão foi unânime.
Embora tenha mantido os juros inalterados, o Fed sinalizou maior cautela em relação ao comportamento da inflação. As projeções divulgadas após a reunião mostraram um comitê dividido sobre os próximos passos da política monetária, refletindo as incertezas em torno da trajetória dos preços e da atividade econômica.
O comunicado também reduziu as indicações de que cortes de juros possam ocorrer no curto prazo, interpretação reforçada pela força demonstrada pelo consumo das famílias.
Inflação segue acima da meta
A inflação ao consumidor nos Estados Unidos atingiu 4,2% em maio, o maior nível em três anos e mais que o dobro da meta de 2% perseguida pelo Fed.
O avanço foi impulsionado principalmente pela alta dos combustíveis após a interrupção parcial do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas globais para o transporte de petróleo.
Os preços da gasolina chegaram a ultrapassar US$ 4,50 por galão (R$ 24,75) no início de maio. Nas últimas semanas, porém, os valores começaram a recuar e já se aproximam de US$ 4,05 por galão (R$ 22,30), reduzindo parte da pressão sobre os consumidores.
Ainda assim, dirigentes do Fed avaliam que os riscos inflacionários permanecem elevados, especialmente diante de uma economia que continua demonstrando vigor.
Confiança melhora, mas incertezas permanecem
Pesquisas recentes apontam uma recuperação moderada da confiança dos consumidores. O índice da Universidade de Michigan subiu de 44,8 pontos em maio para 48,9 pontos em junho, interrompendo uma sequência de quedas.
Apesar da melhora, o indicador permanece abaixo dos níveis registrados há um ano, refletindo preocupações persistentes com inflação, moradia e custo de vida.
Economistas também alertam que parte do impulso observado nos últimos meses pode ser temporária. Com o esgotamento dos reembolsos fiscais extraordinários e a manutenção dos juros em níveis elevados, o ritmo de crescimento dos gastos tende a desacelerar ao longo do segundo semestre.
Por enquanto, porém, os números do varejo mostram que os consumidores continuam sustentando a atividade econômica, tornando mais difícil para o Federal Reserve declarar vitória na batalha contra a inflação.