De 007 a Alien, videogames renovam a narrativa de grandes franquias de Hollywood
Na última década, os games e o cinema deixaram de ser meros vizinhos para se tornar sócios. E essa simbiose acaba de atingir um novo patamar. O que antes era uma ponte frágil, cheia de adaptações apressadas e resultados decepcionantes, agora se parece mais com um organismo integrado: o filme alimenta o jogo, o jogo expande o filme, e as plateias migram de um para o outro sem grandes atritos. O exemplo mais recente está em 007: First Light, game lançado há um mês pelo estúdio dinamarquês IO Interactive, que reconta a origem de James Bond como um jovem fuzileiro que conquista o status de agente “com licença para matar”. O jogo cria sua própria mitologia, com elenco original, trilha assinada por Lana Del Rey e cenas que dialogam diretamente com a tradicional franquia. É um sinal claro de que a indústria não quer mais só usar marcas de cinema, mas algo mais: construir histórias próprias dentro desse universo.
A prova de que esse movimento não para de crescer foi confirmada no Summer Game Fest, realizado recentemente em Los Angeles. Entre as mais de cinquenta revelações do festival, nenhuma gerou tanto alvoroço quanto Alien: Isolation 2, sequência aguardada há doze anos que aposta num monstro alienígena ainda mais esperto e implacável. O anúncio, que prevê lançamento no próximo ano, reforçou o processo de assimilação das franquias de cinema pelos games.
O caminho inverso também está em ebulição. A segunda temporada de Fallout, série adaptada do jogo homônimo pelo Amazon Prime Video, repetiu o sucesso de público da primeira leva de episódios, que já havia injetado cerca de 80 milhões de dólares em receita extra para a americana Bethesda, somando vendas renovadas de jogos antigos e taxas de licenciamento. Super Mario Galaxy: o Filme superou a marca de 1 bilhão de dólares em bilheteria mundial. E ainda há mais pela frente: o remake de Resident Evil, dirigido por Zach Cregger, e o novo Street Fighter, estrelado por Ryu e Ken, chegam às salas no segundo semestre.

Tecnicamente, as fronteiras visuais entre um blockbuster e um jogo de última geração ficaram quase invisíveis. Iluminação dinâmica, captura facial refinada, dublagem profissional e roteiros estruturados como uma verdadeira jornada do herói tornaram-se padrão nos games mais ambiciosos, aproximando a experiência de jogar da experiência de assistir a um filme no cinema. Não é algo muito simples, mesmo considerando que personagens consagrados funcionam como chamariz de público. “Manter a essência de personagens tão fortes exige mais que replicar cenas de ação”, diz Carlos Silva, da Go Gamers, consultoria especializada nesse mercado. “É preciso preservar o universo próprio, a estética marcante, a progressão narrativa e, claro, a sensação de protagonismo.” Um bom exemplo é James Bond, que une arrojo, inovação e ação, ingredientes fundamentais para a linguagem interativa dos games.
O resultado é um ecossistema que já transborda as possibilidades dos contratos de licenciamento. Séries impulsionam vendas de jogos antigos, ferramentas gráficas nascidas nos games passam a animar produções de Hollywood, e o público segue um único fio narrativo por diferentes meios. Se a tendência se mantiver, a separação entre console e tela grande pode em breve virar só jogo de cena.
Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001