Direita, volver: a onda conservadora que varre a América do Sul com incentivo de Trump
Na Europa e nos Estados Unidos, foi a imigração: insuflando o mal-estar diante das levas de estrangeiros em busca de asilo, expoentes de uma direita muito mais radical saíram das franjas da política para a frente do palanque, tendo no americano Donald Trump sua máxima inspiração. Na América do Sul, é a segurança: cidadãos acossados por gangues e narcotraficantes que têm vastas áreas sob seu domínio estão elegendo conservadores até então rejeitados ou sem expressão, que ganham projeção prometendo acabar com a violência a toque de caixa. As mais recentes vitórias dessa linha dura acabam de ser anunciadas — a do advogado Abelardo de la Espriella, 47 anos, que nem partido tem mas acabou em primeiro na eleição para presidente da Colômbia por 250 000 votos de diferença, e a de Keiko Fujimori, filha de um ex-ditador do Peru que, depois de três tentativas frustradas, finalmente chegou lá, com 43 000 votos à frente. Com os dois resultados, a fatia meridional do continente se cobre de azul, em contraponto ao vermelho que predominava há apenas três anos e do qual, entre os latinos, só restam Brasil e Uruguai.
A transformação do continente concretiza o sonho de Donald Trump de ver todo o “seu” hemisfério pensando e agindo à sua maneira. Ele tem interferido diretamente na campanha de candidatos conservadores, e um texto de um site trumpista postado em sua rede social para celebrar as vitórias na Colômbia e no Peru diz que o Brasil será “o próximo grande teste político” do presidente americano.
Imigração, no Norte, e segurança, no Sul, são os reflexos mais vistosos de um sentimento de decepção com tudo que está aí que se generalizou mundo afora na última década, desidratando governos de esquerda, de direita e do centro tradicionais e abrindo espaço para a ascensão de um conservadorismo extremado, que se propõe livrar a sociedade das mazelas dos antigos líderes — por bem ou por mal. “A dignidade nacional e a esperança triunfaram. Celebramos uma nova ordem: a Pátria Milagre”, bradou o colombiano De la Espriella, vestindo a camisa da seleção de futebol, da qual se apropriou. Quando tomar posse, em 7 de agosto, enxotará da Casa de Nariño, em Bogotá, o primeiro e único governo de esquerda do país, comandado pelo impopular Gustavo Petro. No Peru, onde a apuração ainda é contestada pelo esquerdista Roberto Sánchez, Keiko propagou o slogan “Fujimori de volta, a ordem de volta” e igualou a luta contra o crime agora à do pai contra o terrorismo nos anos 1990, jogando para baixo do tapete os atos de corrupção e abuso de direitos humanos que o levaram à cadeia por quinze anos.
A guinada à direita na América do Sul começou há três anos, fruto da abissal crise social e econômica que levou o ultraliberal argentino Javier Milei a apear os peronistas da Casa Rosada com seu projeto “motosserra”. Depois dele, porém, a segurança tomou conta do discurso eleitoral, na voz — de elevada ressonância — dos proponentes de uma guerra aberta contra o crime. Daniel Noboa, herdeiro de uma gigante de exportação de bananas, em questão de meses apareceu e se tornou presidente do Equador. Em dezembro, com roubos e homicídios em alta, o ultraconservador José Antonio Kast derrotou nas urnas do Chile a aliada socialista do ex-líder estudantil Gabriel Boric, tido como uma das estrelas mais promissoras da esquerda. Quatro meses antes, Rodrigo Paz, que se apresenta de centro-direita mas não poupa rapapés a Trump, fez história ao encerrar duas décadas de hegemonia da esquerda na Bolívia, com Evo Morales.

Este clube em expansão é heterogêneo, mas se une sobre um sólido tripé: o discurso antissistema; um projeto linha-dura que coloca o combate ao crime acima de tudo e de todos; e a proximidade com Donald Trump. Seu sócio mais novo, o colombiano Abelardo de la Espriella, é uma mistura da nova onda conservadora. Ele divulgou um genérico programa de governo intitulado “Treze milagres para salvar o país”, com ideias importadas do ultraliberal Milei, como a promessa de enxugar 40% da máquina estatal, e o apelido El Tigre, inspirado no El León argentino. Na segurança, seu modelo, visual inclusive (barba milimetricamente aparada, roupas apertadas, relógio de grife), foi o incensado Nayib Bukele, o presidente de El Salvador, que endureceu a guerra contra o crime organizado engolindo instituições e trancafiando gangues em megaprisões frequentemente acusadas de atropelar direitos humanos. “Vou fumigar as plantações de coca e bombardear os vilarejos”, ruge El Tigre, tirando partido do fracasso da promessa de Petro de alcançar a “paz total”, na base da conversa, com os grupos armados locais que produzem quase dois terços da cocaína no planeta. Espriella promete ainda construir dez megapresídios na floresta e matar dez chefões do tráfico nos primeiros noventa dias de mandato.

A insatisfação popular com quem está no governo é natural e favorece o movimento pendular típico da política sul-americana. Na virada do século XX, uma onda vermelha pôs no poder vários líderes de roupagem progressista — Evo na Bolívia, Cristina Kirchner na Argentina, Hugo Chávez na Venezuela e o próprio Lula no Brasil —, impulsionados pelas falhas das reformas neoliberais dos anos 1980 e 1990 e pelo boom financeiro da alta de preço das commodities. O vento mudou e, em 2015, crises econômicas e escândalos políticos deram espaço aos opositores de direita. O pêndulo voltou a balançar quando a pandemia desestabilizou economias e 90% das eleições na América do Sul derrubaram incumbentes em uma mais débil “onda vermelha” (veja os mapas), que hoje vive seu ocaso. “O desejo de mudança continua sendo a maior força política do continente, e a polarização acelerou as guinadas”, diz Jorge Sahd, diretor do Centro de Estudos Internacionais da Universidade Católica do Chile.

Diferença crucial na nova maré conservadora, os nomes na disputa não são mais aqueles conhecidos, centro-direitas de um lado e progressistas de outro, mas os de uma cepa nova e estridente, composta em sua maioria por outsiders políticos, favorecidos pela raivosa divisão que marca disputas eleitorais planeta afora. “Não é insatisfação apenas com o presidente em exercício, mas com todo o status quo”, explica o historiador Norberto Ferreras, da UFF. Milei, economista e frequentador compulsivo de talk shows, escanteou a direita estabelecida na Argentina com um partido nanico recém-criado. Noboa passou ao largo do Partido Social Cristão, que dominava o espectro conservador no Equador desde 1951. De la Espriella desbancou no primeiro turno Paloma Valencia, do Centro Democrático, que aglutina a outrora majoritária direita colombiana, capitaneada pelo ex-presidente Álvaro Uribe.
Neste contexto, mirar na segurança pública, problema crônico na América do Sul muitas vezes atribuído a uma suposta leniência de governos progressistas, caiu como luva para os radicais. Embora a região tenha registrado no ano passado uma queda de 5% na taxa média de homicídios em comparação com 2024, os assassinatos, sequestros e extorsão de pequenos negócios relacionados ao narcotráfico dispararam na Colômbia, no Peru e no Equador. “A inédita transnacionalização do crime organizado favorece em grande medida as propostas da direita mesmo que não resolvam a raiz do problema”, afirma Marie-Christine Doran, autora de A Face Oculta da Violência: Criminalizando a Democracia na América Latina.

Lançando mão da guerra aos “narcoterroristas” para justificar intervenções em países da região, Trump, neste segundo mandato, usa e abusa de armas financeiras e militares, seja para pressionar governos comandados por expoentes da esquerda, seja para afagar aqueles com quem guarda proximidade ideológica — neste caso, com sucesso. “A promessa de ajuda americana no setor de segurança funciona como um ativo, dada a crescente desilusão da população com políticas já testadas”, observa Carolina Pedroso, professora de relações internacionais da Unifesp.
Comprova essa tese o fato de 60% dos latino-americanos terem comemorado a operação militar americana na Venezuela em janeiro, que levou à captura de Nicolás Maduro sob acusações relacionadas ao narcotráfico. Deposto o ditador, sua vice, Delcy Rodríguez,acomodou-se em um governo bolivariano no papel, mas que cumpre à risca a agenda da Casa Branca — um elo que, na quarta-feira 24, Trump fez questão de ressaltar ao dizer que prestaria assistência aos “novos amigos” depois que um terremoto devastou o solo venezuelano agravando a crise que se desenrola no país (leia o quadro). Entre um ataque e outro a barcos no Caribe e no Pacífico supostamente atuando no tráfico de drogas (mais de 200 mortos, e subindo), a aliança de Trump com os aliados de agora ganhou nome pomposo, Escudo das Américas, associação formalizada em março durante uma reunião na Flórida, quando o presidente americano recebeu doze chefes de Estado latino-americanos.

Neste ano eleitoral, a direita brasileira investe na aproximação não só com Trump mas também, agora, com os parceiros ideológicos nas vizinhanças. “Internacionalizar a pauta da guerra ao crime beneficia quem é desse espectro ideológico”, diz Lucas Thut Sahd, diretor-executivo do instituto Real Time Big Data. Presidenciáveis como Flávio Bolsonaro (PL), publicamente apoiado pelo presidente americano, e Romeu Zema (Novo) correram às redes para celebrar a vitória de De la Espriella e tentar convencer o eleitor de que votar em Lula deixaria o Brasil isolado. “A América Latina está se libertando do atraso. Este ano é a vez do Brasil”, resumiu Zema. A estratégia tem seu risco. Pesquisa Datafolha recém-divulgada mostra que a maioria dos brasileiros até apoia a classificação do governo americano de PCC e CV como terroristas (59%), mas um percentual ainda maior (74%) discorda de uma intervenção direta no país.
Ainda é cedo para dizer se a nova configuração do tabuleiro político da América do Sul vai vingar ou se o pêndulo vai se fazer presente na próxima votação. Por mais potente que seja o ardor ideológico, o sucesso dos novos líderes depende, em última instância, de sua capacidade de melhorar a vida da população, o que não é tarefa fácil. No Chile, Kast já enfrentou sua primeira onda de protestos devido às medidas de austeridade que acompanham a agenda anticrime. Na Bolívia, por cinquenta dias, camponeses, operários, mineiros e professores impuseram um cerco a La Paz contra cortes de subsídios para gasolina e exigindo a renúncia de Rodrigo Paz — que decretou estado de emergência e acionou as Forças Armadas para reprimir manifestantes. Na Colômbia, De la Espriella terá de entrar na dança das coalizões políticas, uma vez que controla apenas quatro dos 103 assentos no Senado. Keiko, por sua vez, precisa domar um Congresso em pé de guerra contra o Executivo e o triste recorde de oito presidentes em dez anos. Por mais que Trump jogue a favor dos novatos bons de palanque, governar é uma arte que desafia amadores.
Tragédia entre escombros

Era fim de tarde em plena hora do rush em Caracas, na quarta-feira 24, quando veio o baque e não houve quem não o sentisse. O que se anunciava era a sucessão de dois terremotos em um estalo de 39 segundos — ambos de magnitude superior a 7. Algo tão destrutivo só se viu nesse naco da América do Sul, plantado sobre a junção de duas placas tectônicas, no ano de 1900. A intensidade do impacto foi tanta que até reverberou nos vizinhos Colômbia e Região Norte do Brasil. Em instantes, o que se vislumbrou foi um acúmulo de destroços por várias cidades do país, onde dezenas de edifícios vieram abaixo, deixando um rastro de destruição. Sob a moldura de uma catástrofe que, até a quinta-feira 25, já havia feito mais de 200 mortos e 1 000 feridos, a expressão de desespero de gente ainda em busca de familiares e amigos desaparecidos (estimados 36 000 por ora), em meio aos escombros, dava os contornos da tragédia. Pela extensão do abalo, órgãos especializados em geologia já falam que dezenas de milhares de vidas podem ter sido ceifadas.
Tremores menores, chamados de “réplicas”, ainda eram registrados, e os hospitais já lotavam de pessoas à procura de atendimento. A presidente interina, Delcy Rodríguez, declarou estado de emergência e disse: “Estamos realizando um grande esforço para salvar o maior número de pessoas”. Devastação de tal envergadura ganha face mais cruel em uma nação que tenta se recuperar de uma crise econômica que, na última década, arrastou milhões para a pobreza, enquanto o PIB recuava 70%. O sistema público de saúde está sucateado, a antiquada rede elétrica é propensa a apagões e os reservatórios de água se encontram em níveis perigosamente baixos — o que dá a dimensão da batalha que começa agora para reerguer o que sucumbiu aos tremores, em um cenário já com tantas mazelas. Delcy anunciou a criação de um fundo de 200 milhões de dólares, sustentado com recursos do FMI, e governos como o brasileiro e o dos Estados Unidos, que têm hoje o país sob sua tutela, se comprometeram a prestar assistência. Na castigada Venezuela, toda ajuda é pouca.
Colaboraram José Benedito da Silva e Laísa Dall’Agnol
Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001
