Diversificação ajuda agro paulista a enfrentar turbulência no setor, diz secretário
Apesar de registrar recordes de produção, o agronegócio brasileiro atravessa um dos momentos mais desafiadores das últimas décadas devido ao aumento do endividamento dos produtores, ao crédito mais caro e à redução das margens de rentabilidade. A avaliação é do secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, Geraldo Melo Filho, que afirmou nesta terça-feira, 16, durante o VEJA Fórum Agro, que o governo paulista tem buscado mitigar os impactos da crise por meio de investimentos em infraestrutura, crédito rural, seguro agrícola e pesquisa.
“Vivemos um momento paradoxal em que temos recorde de safra e de produção, mas, ao mesmo tempo, uma crise financeira que há décadas não víamos no setor”, afirmou.
Segundo o secretário, o cenário foi agravado pelo elevado custo do dinheiro, pelos riscos climáticos, pela guerra e pelas oscilações no mercado internacional de insumos e commodities agrícolas. Embora São Paulo também seja afetado, o estado apresenta algumas vantagens em relação a outras regiões produtoras por conta da diversificação de culturas e da forte presença da indústria de processamento.
Melo Filho destacou que o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio paulista alcançou 625 bilhões de reais, valor que representaria uma economia maior que a do Rio Grande do Sul caso fosse considerado isoladamente. De acordo com ele, o setor responde por cerca de 20% da economia paulista.
“O agro de São Paulo não é apenas produção primária. Temos processamento, indústria, serviços e logística. Isso multiplica o valor gerado e ajuda a amenizar os efeitos da crise”, disse.
Mesmo assim, o secretário reconheceu dificuldades em cadeias relevantes para o estado, como açúcar, suco de laranja, grãos e amendoim, que enfrentam redução de preços e menor rentabilidade.
Infraestrutura e crédito
Para enfrentar o cenário adverso, o governo estadual aposta em uma agenda de investimentos estruturais. Segundo Melo Filho, São Paulo tem ampliado os aportes na recuperação de estradas vicinais e mantém programas voltados ao financiamento de pequenos e médios produtores.
“O estado investe em infraestrutura, pesquisa, crédito, seguro e assistência técnica. Esse conjunto de ações adaptadas à realidade dos produtores é o que faz São Paulo enfrentar a crise de forma diferente”, afirmou.
O secretário também defendeu a criação de mecanismos que ampliem o acesso ao crédito para o setor, incluindo a discussão sobre um fundo garantidor para produtores rurais. A proposta, segundo ele, está em debate em Brasília e poderia complementar iniciativas voltadas à renegociação de dívidas.
“Mecanismos como um fundo garantidor seriam extremamente bem-vindos, especialmente se trabalharem em conjunto com o seguro rural”, afirmou.
Embora tenha sinalizado apoio à ideia, Melo Filho ressaltou que instrumentos dessa natureza precisam ser estruturados prioritariamente em nível nacional, uma vez que os estados não dispõem dos mesmos mecanismos financeiros utilizados pelo governo federal para operacionalizar programas como o Plano Safra.
Produtividade e novos mercados
Ao falar sobre as perspectivas para o agronegócio paulista, o secretário destacou que o principal diferencial competitivo do estado está na produtividade e na adoção de tecnologia.
Com apenas 3% da área territorial do país, São Paulo responde por cerca de 18% a 20% das exportações do agronegócio brasileiro. Segundo Melo Filho, os índices de produtividade em diversas cadeias produtivas superam significativamente a média nacional.
“O que faz a diferença em São Paulo não é a quantidade de terra, mas a qualificação das pessoas, o uso de tecnologia e a produtividade”, disse.
Ele também apontou oportunidades de crescimento em segmentos ligados à transição energética, como biometano, combustível sustentável de aviação (SAF) e outras soluções de bioenergia.
Além disso, afirmou que o governo trabalha para ampliar sistemas de rastreabilidade e certificação da produção agrícola, antecipando exigências de mercados internacionais relacionadas à sustentabilidade e à conformidade ambiental.
“A meta é garantir que o produto paulista não perca acesso aos mercados e, pelo contrário, ganhe competitividade por meio da informação, da rastreabilidade e da certificação”, afirmou.
Regularização fundiária
Outro tema destacado pelo secretário foi a regularização fundiária, apontada por ele como uma das principais políticas para estimular investimentos e ampliar o acesso ao crédito no campo.
Segundo Melo Filho, mais de 250 mil hectares foram regularizados nos últimos três anos no estado. A medida, afirmou, garante segurança jurídica aos proprietários rurais e permite que as terras sejam utilizadas como garantia para financiamentos.
“Ninguém investe sem ter segurança mínima sobre seu patrimônio. A regularização fundiária dá dignidade às pessoas, gera acesso ao crédito e ajuda a consolidar a paz no campo”, disse.
O secretário citou como exemplo o Pontal do Paranapanema, região historicamente marcada por disputas fundiárias, e afirmou que o avanço da regularização contribui para reduzir conflitos e estimular o desenvolvimento econômico local.