Emprego industrial nos EUA cai no ritmo mais forte desde a pandemia
O emprego na indústria dos Estados Unidos registrou em junho a maior contração desde os meses mais críticos da pandemia de covid-19, em um sinal de que a recuperação prometida pelo presidente Donald Trump para o setor manufatureiro enfrenta dificuldades para ganhar tração.
Dados divulgados pela S&P Global mostram que o índice de emprego industrial caiu para 47 pontos em junho, ante 51,6 em maio.
Em pesquisas desse tipo, resultados abaixo de 50 indicam retração da atividade, enquanto números acima desse patamar apontam expansão.
A queda ocorre apesar de uma série de anúncios de investimentos promovidos pela Casa Branca desde o início do segundo mandato de Trump.
O republicano defende uma política de reindustrialização baseada em tarifas de importação, incentivos à produção doméstica e expansão de setores considerados estratégicos.
“Era de ouro” da indústria ainda não chegou
Desde a campanha eleitoral, Trump tem prometido inaugurar uma nova “era de ouro” para a manufatura americana, argumentando que tarifas mais elevadas e restrições comerciais ajudariam a trazer fábricas de volta ao país.
Na prática, porém, os resultados permanecem mistos. Dados oficiais mostram que a indústria americana eliminou cerca de 77 mil postos de trabalho desde janeiro de 2025, quando Trump iniciou seu segundo mandato.
Ao mesmo tempo, os investimentos privados em construção de fábricas perderam força. Em abril, os gastos com novas instalações industriais somaram US$ 15,2 bilhões (cerca de R$ 83 bilhões), uma queda de aproximadamente 16% em relação ao início do atual governo.
A desaceleração contrasta com o entusiasmo observado entre 2022 e 2024, quando programas como o CHIPS Act e o Inflation Reduction Act estimularam uma onda de investimentos em semicondutores, baterias e tecnologias ligadas à transição energética.
Guerra com Irã e tarifas pressionam empresas
Segundo a pesquisa da S&P Global, parte do crescimento recente da produção industrial foi impulsionada por empresas que anteciparam encomendas por receio de interrupções nas cadeias de suprimento e aumentos de preços provocados pela guerra entre Estados Unidos e Irã.
A estratégia ajudou a sustentar a atividade no curto prazo, mas não se traduziu em contratações.
Executivos ouvidos pela consultoria relataram preocupação crescente com os custos de matérias-primas e com a volatilidade das políticas comerciais. Desde o retorno de Trump à Casa Branca, empresas vêm enfrentando mudanças frequentes nas tarifas de importação, o que dificulta o planejamento de investimentos de longo prazo.
O economista Chris Williamson, da S&P Global Market Intelligence, afirmou que os dados sugerem uma economia crescendo em ritmo próximo de 1% ao ano no segundo trimestre, bem abaixo das taxas observadas em períodos de expansão mais robusta.
Inteligência artificial e defesa são exceções
Nem todos os segmentos industriais enfrentam dificuldades. Áreas ligadas à construção de data centers para inteligência artificial continuam atraindo investimentos bilionários, impulsionadas pela corrida tecnológica entre grandes empresas de tecnologia.
O setor de defesa também permanece aquecido, beneficiado pelo aumento dos gastos militares e pelas tensões geopolíticas.
Além disso, indústrias protegidas pelas tarifas impostas pelo governo, como a siderurgia, registraram melhora relativa nos últimos meses.
Fora desses nichos, porém, muitas empresas relatam dificuldades para manter margens de lucro diante da combinação de custos elevados, juros altos e incerteza regulatória.
Escassez de mão de obra persiste
Um dos aspectos que chamam atenção na pesquisa é a persistente dificuldade para contratação de trabalhadores industriais.
Cerca de um quinto dos executivos consultados afirmou ter problemas para encontrar profissionais dispostos ou qualificados para atuar em fábricas.
O fenômeno reflete uma tendência observada há anos nos Estados Unidos, onde parte da força de trabalho migrou para o setor de serviços e tecnologia.
Especialistas apontam que a recuperação da manufatura depende não apenas da construção de novas plantas industriais, mas também da formação de trabalhadores aptos a operar equipamentos cada vez mais sofisticados.
Democratas questionam resultados da estratégia comercial
A deterioração do emprego industrial também alimenta críticas da oposição. Nesta semana, os senadores democratas Elizabeth Warren e Mark Kelly cobraram explicações da administração Trump sobre o aumento do déficit comercial americano em produtos manufaturados.
Os parlamentares argumentam que a política tarifária adotada pela Casa Branca produziu instabilidade para empresas e consumidores sem gerar o aumento esperado na criação de empregos industriais.
O debate ocorre em um momento decisivo para a economia americana.
Embora a indústria continue crescendo em alguns setores estratégicos, os dados mais recentes indicam que a recuperação prometida por Trump está longe de atingir de forma ampla o mercado de trabalho manufatureiro, tradicional base política do presidente em estados do Meio-Oeste.