Estudo: Cannabis age no alívio da dor e na melhora da qualidade de vida
A cannabis medicinal pode fazer mais do que aliviar a dor. Um estudo conduzido por pesquisadores do Office of Cannabis Management (OCM), órgão responsável pela regulamentação da Cannabis no estado americano de Minnesota, indica que o tratamento também está associado a melhorias significativas na qualidade de vida, no bem-estar físico e na capacidade de realizar atividades cotidianas. Publicado na revista científica Clinical Therapeutics, o trabalho analisou dados de mais de 6.000 pacientes com dor crônica inscritos no programa estadual de cannabis medicinal entre março de 2022 e fevereiro de 2023.
Os pesquisadores acompanharam pacientes que permaneceram no tratamento por pelo menos oito meses e avaliaram indicadores relacionados à intensidade da dor, ao prazer de viver e ao impacto dos sintomas sobre as atividades diárias. Os dados são resultado de um dos maiores avaliações com pacientes de Cannabis já realizadas por um programa público estadual americano.
Os resultados sugerem que os benefícios vão além do controle da dor. Quatro meses após o início do tratamento, 55% dos pacientes relataram melhora de pelo menos 30% na qualidade de vida. O mesmo percentual afirmou ter experimentado uma redução importante na interferência da dor sobre as atividades do dia a dia. Já 41% registraram melhora direta nos níveis de dor.
O dado mais relevante, segundo os autores, é que muitos pacientes passaram a viver melhor mesmo sem a eliminação completa dos sintomas. Em outras palavras, a cannabis parece ter contribuído para devolver funcionalidade e autonomia a pessoas que convivem com dores persistentes, condição que afeta milhões de indivíduos em todo o mundo.
“O que observamos é que a melhora não se limita à intensidade da dor”, destacam os pesquisadores. “Há também uma redução do impacto que ela exerce sobre a vida cotidiana.”
Quais produtos foram mais utilizados
O estudo também analisou as preferências dos pacientes em relação aos produtos consumidos. As formulações com alta concentração de THC em relação ao CBD foram as mais adquiridas em todas as categorias avaliadas.
As flores de cannabis apareceram como a opção mais popular entre os participantes, seguidas pelos vaporizadores e pelos produtos comestíveis.
Apesar disso, quando os pesquisadores ajustaram os resultados de acordo com a frequência de compras dos pacientes, não encontraram diferenças estatisticamente significativas entre os diversos perfis de consumo. Isso sugere que ainda são necessários estudos mais detalhados para compreender quais produtos e métodos de administração oferecem os melhores resultados para cada perfil de paciente.
Menos analgésicos
Os achados reforçam uma linha crescente de pesquisas que investigam o potencial da Cannabis como ferramenta complementar no tratamento da dor crônica. Em relatório divulgado anteriormente, o próprio OCM já havia observado que quase um quarto dos pacientes que utilizavam outros medicamentos para dor reduziram o consumo desses remédios após iniciar o tratamento com cannabis medicinal. O resultado alimenta o debate sobre um possível efeito de substituição, hipótese segundo a qual a cannabis poderia reduzir a dependência de analgésicos tradicionais, especialmente em pacientes que convivem com dores persistentes e de difícil controle.
Embora os autores ressaltem que são necessários mais estudos para estabelecer relações de causa e efeito, os dados se somam a um conjunto cada vez maior de evidências que apontam para o potencial terapêutico da cannabis em condições crônicas. A dor crônica é considerada um dos principais desafios da medicina moderna. Estima-se que ela afete cerca de um em cada cinco adultos no mundo, comprometendo não apenas a saúde física, mas também o sono, a produtividade, a saúde mental e a qualidade de vida. Nesse contexto, pesquisas como a realizada em Minnesota ajudam a ampliar a compreensão sobre o papel que a cannabis medicinal pode desempenhar no arsenal terapêutico disponível para esses pacientes.