Exclusivo: Joel Santana fala sobre a seleção na Copa, Neymar e Ancelotti
O ex-treinador Joel Santana, de 77 anos, foi o entrevistado do programa Bola na Copa desta quarta-feira, 24. Sem papas na língua, falou o que pensa sobre Carlo Ancelotti, Neymar e até onde a seleção brasileira pode chegar neste Mundial.
Treinador vitorioso, Joel também foi campeão pelo Vasco, Flamengo, Fluminense e Botafogo – sendo apelidado de “Rei do Rio”. Nas décadas de 1980 e 1990 foi para a Arábia Saudita e treinou o Al-Hilal, ex-time de Neymar, e o Al-Nassr, atual time de Cristiano Ronaldo. De 2008 a 2009 treinou a seleção da África do Sul. Aposentado, criou o “Canal do Joel” – com vídeos diários sobre futebol.
Veruska Donato recebeu Amauri Segalla, editor-executivo de VEJA, e o editor Alessandro Giannini. Direto dos Estados Unidos, Marcos Uchôa, Fábio Altman e Fernanda Arantes trouxeram detalhes da cobertura e os bastidores da Copa. Confira abaixo como foi a entrevista.
O que você está achando do momento da seleção?
Vou ser direto e objetivo: O Brasil não está jogando bem, estamos passando dificuldade. Estávamos com medo de jogar contra Marrocos, diante do Haiti jogamos o segundo tempo mal e hoje a gente ainda não tem o time para botar em campo. Então a gente está sempre na expectativa do que vai acontecer, não temos mais aquela certeza do verdadeiro futebol brasileiro. Eu estou torcendo pra caramba, estou vestido a caráter, sou brasileiro. Fui para fora para expandir o futebol brasileiro e agora estou torcendo para a seleção mais uma vez.
O que significa para a seleção brasileira ter um treinador estrangeiro?
Eu não sei o que vai representar para o futebol brasileiro, mas estou muito triste pelo futebol brasileiro estar passando por esse momento. Não que ele não seja bom treinador, ele é, mas a seleção brasileira tem cinco Copas do Mundo – fora as duas que perdeu que era para ter ganho também. Trazer um estrangeiro para nós, cara? Pô, pera aí.
O futebol brasileiro está perdendo a identidade e por isso que nós estamos passando sufoco. Ele é bom treinador, mas ele não conhece o futebol brasileiro, não conhece como a coisa rola. Aqui no Brasil a gente come feijoada, lá ele come pizza. É diferente, ele vai suar. Vamos ver. Eu acho difícil o Brasil passar. Essa até vai, mas a outra vai ser muito difícil. Pelo que a seleção está jogando, pelo que está fazendo… tem um cheirinho ruim à beça.
O que está achando do desempenho das equipes africanas na Copa?
A África é fogo, hein. Estão chegando devagarzinho, aprendendo devagarzinho. Dá para ver que eles são bons de futebol e sabem jogar bola. São bem fisicamente, encorpados. Infelizmente, a África do Sul não está bem, mas torço muito para ela. Vamos ver até onde eles chegam porque o futebol de lá está merecendo alguma coisa melhor para a África. Se Deus quiser.
Neymar tem espaço nesse time? Você o escalaria?
A seleção do Brasil está muito instável. Começar com o Neymar? Ele fez um coletivo? Não. Isso é Copa do Mundo, cara. Esse jogo vai decidir uma classificação para outra fase. Se o Brasil tiver bem, bota ele. Mas não coloca ele para resolver porque eu não sei se ele vai resolver não. Coloca ele 10, 15 minutos. O Brasil fez 2 a 0, 3 a 0, coloca ele. Ele não tem ritmo de jogo, como vai botar um jogador sem ritmo de jogo. Foi o que aprendi em 50 anos de carreira. Brasil é Brasil. Tomara que o Ancelotti ganhe porque se não ganhar não sei se fica até 2030, não vai aguentar aqui não.
Qual a sua opinião sobre os jovens Endrick e Rayan. Qual sua avaliação?
O Endrick está pedindo passagem. O Rayan talvez jogue hoje. O futebol brasileiro é feito de emoções. Todos os nossos craques entraram cedo na seleção. Toda seleção brasileira tem que ter um garoto para chegar lá e colocar. Se o Endrick está pedindo passagem, bota ele para jogar. O futebol brasileiro é assim. Cara nasceu da noite para o dia, bota ele para jogar. Eles acham que esses dois jogadores vão chegar e tremer, mas não vão não.