Empresas correm para administrar efeitos das mudanças climáticas
As mudanças climáticas deixaram de ser um tema restrito às questões ambientais para ocupar espaço cada vez maior nas estratégias de gestão das empresas. Chuva em excesso paralisando jogos da copa do mundo nos Estados Unidos, calor de 40 graus na França, enchentes, secas prolongadas e outros eventos extremos já provocam impactos diretos em contratos, operações e cadeias de fornecimento.
Enchentes no sul e tragédia em Minas
No Brasil, casos como as enchentes no Rio Grande do Sul e as tragédias de Mariana e Brumadinho mostram que a vulnerabilidade corporativa vai muito além dos efeitos da natureza, alcançando também desafios sociais, urbanos e de governança.
Agora não é mais sobre se vai acontecer, mas quando
Para Fernanda Faret, advogada e presidente da Ambiental, o debate já não gira em torno da possibilidade de novos eventos extremos, mas da certeza de que eles ocorrerão. “Não é mais se vai acontecer, mas quando vai acontecer todos os efeitos dessas mudanças climáticas”, afirma.
Na avaliação dela, a preparação prévia das empresas para enfrentar conflitos decorrentes desses eventos será determinante para reduzir prejuízos financeiros e operacionais.
Controle sobre dados, operações e riscos
A especialista defende que a governança corporativa passa a ter papel central nesse processo. Segundo Fernanda, governança significa ter controle sobre dados, operações e riscos, permitindo que a empresa consiga prever não apenas os impactos de uma crise, mas também como eventuais divergências serão solucionadas.
Em outras palavras, a gestão de riscos climáticos precisa caminhar ao lado da gestão de conflitos.
Mais estrategia
Entre as ferramentas que ganham destaque estão os chamados comitês técnicos, conhecidos internacionalmente como dispute boards. O modelo já é utilizado por organismos como o Banco Mundial e por grandes companhias em projetos complexos. A proposta é acompanhar a execução dos contratos em tempo real e solucionar divergências à medida que surgem, evitando que pequenos problemas se transformem em longas batalhas judiciais.
Justiça precisa ser mais rápida
A defesa desses mecanismos também passa por uma crítica ao sistema judicial brasileiro. Fernanda observa que o Judiciário convive com milhões de processos e nem sempre consegue dar respostas rápidas ou suficientemente especializadas para temas técnicos. O resultado, segundo ela, é o aumento dos custos, da insegurança jurídica e da perda de tempo para todas as partes envolvidas.
Mudança de mentalidade
A mudança de mentalidade, contudo, vai além das ferramentas. A advogada argumenta que as empresas precisam abandonar a lógica de confronto, baseada na ideia de que um lado só vence se o outro perder. Métodos de mediação e autocomposição, já amplamente utilizados nos Estados Unidos e na Europa, buscam soluções de benefício mútuo.
A urgência do tema
A urgência do tema também aparece nos números: dados citados por Fernanda mostram que os prejuízos globais causados por eventos climáticos chegaram a mais de US$ 320 bilhões em 2024, sendo que menos da metade desse valor estava coberta por seguros.
Para ela, esse cenário reforça a necessidade de uma postura mais proativa por parte das empresas, independentemente das ações do poder público.