Na seleção sem craques, só Galvão Bueno salva
Copa do Mundo sem Galvão Bueno não tem a mesma graça. Não importa quantas tecnologias existam, quantos narradores talentosos apareçam ou quantas transmissões sejam produzidas com padrão cinematográfico. Quando a seleção brasileira entra em campo e eu não escuto aquela voz imediatamente reconhecível, sempre tenho a sensação de que está faltando alguma coisa.
Galvão deixou de ser apenas um narrador há muito tempo. Ele se tornou um personagem da história da seleção brasileira. Para milhões de torcedores, as lembranças das Copas do Mundo não estão associadas apenas aos gols, aos títulos e às derrotas, mas também à maneira como aqueles momentos foram narrados. É impossível ouvir “É tetra! É tetra! É tetra!” sem voltar instantaneamente a 1994.
Nem mesmo os momentos mais traumáticos escapam desse fenômeno. O 7 a 1 para a Alemanha, em 2014, foi tão devastador que acabou produzindo uma espécie de folclore nacional. A expressão “gol da Alemanha”, pronunciada por Galvão ao longo daquela noite surreal no Mineirão, ganhou vida própria. Até hoje, sempre que a Alemanha marca um gol em Copas do Mundo, recebo em grupos de WhatsApp áudios com o inconfundível “gol da Alemanha”. Não importa se o lance aconteceu dez ou vinte anos depois. A frase continua funcionando como uma mistura de piada e lembrança indigesta.
Mas não são apenas os momentos gloriosos e os bordões históricos que fazem falta. Os defeitos também. As confusões com nomes de jogadores, as previsões equivocadas, os exageros, as reclamações intermináveis contra árbitros e técnicos. Tudo isso faz parte do personagem. Galvão nunca foi um narrador preocupado em parecer imparcial. Sua grande qualidade era justamente a incapacidade de esconder o que sentia. Quando a seleção encantava, ele se empolgava. Quando jogava mal, ele reclamava. Quando faltava ambição, ele cobrava. E quando o torcedor estava indignado, ele dizia em voz alta aquilo que milhões de brasileiros estavam resmungando diante da televisão.
De certa forma, Galvão presta um serviço terapêutico ao país. Ele desopila o fígado do torcedor. Quantas vezes a seleção entrou em campo sem jogar absolutamente nada e Galvão disse exatamente aquilo que a audiência inteira gostaria de dizer? Essa identificação ajudou a construir uma relação que vai muito além da simples narração esportiva. Porque, para uma enorme parcela dos brasileiros, a Copa nunca foi apenas futebol. Ela sempre teve uma voz. E essa voz atende pelo nome de Galvão Bueno.