O 7 a 1 de Neymar depois do jogo contra a Escócia
Nada contra o marketing, uma evidência de nosso tempo. Nada contra um jogador de futebol ganhar dinheiro com sua atividade, em carreira tão curta – e vale sempre lembrar de um episódio de Pelé, na Copa de 1970, quando a propaganda no esporte ainda era coisa de criança. A seleção do tri tinha contrato com a Adidas. O rei, contudo, assinara com a Puma. Mas gostava de levar aos pés sua velha e surrada Adidas. Ele pediu então ao roupeiro para preparar uma maquiagem. Tiras as três listas do calçado da concorrente e pôr, no lugar, uma única, como a da Puma. E assim foi durante todo o mágico torneio no México. E mais: Pelé, que nunca foi bobo, nem nada, recebeu 120 000 dólares para dar uma paradinha, no círculo central, antes do início do jogo contra o Peru, de modo que as emissoras de televisão do mundo todo dessem um close na chuteira.
Tudo certo, curioso e, hoje, histórico. Mas o exagero incomoda. Sai de cena Pelé, entra Neymar. Em 18 de maio, convocado pela seleção brasileira, ele não vacilou cinco minutos e, em suas redes sociais, postou propaganda de uma bet. Terminado os 14 minutos em que ficou em campo contra a Escócia, o camisa 10 pôs na internet uma postagem em que aparece chorando, e uma mensagem: “Remember who you are”, acoplado a uma bandeira do Brasil. Em seguida, só propaganda. Uma da chuteira amarela da Puma. Uma de uma empresa de seguro de carros. Uma outra de delivery de hambúrgueres. Puma, de novo. Outra da Puma. Uma mais simpática, do Projeto Neymar Jr., beneficente, mas oferecido por duas marcas. De novo uma bet. O placar: 7 a 1. O garoto propaganda tem o direito de fazer o que quiser de sua vida, de seus negócios – mas que tal se segurasse um pouquinho a onda durante a Copa do Mundo? Não foi o combinado com quem o paga, é claro, e dá-lhe multiplicar aqueles catorze minutos de chuteira e bola nos pés.