Início / O camisa 10 de Lula: Eduardo Bolsonaro tem se re…

O camisa 10 de Lula: Eduardo Bolsonaro tem se revelado eficiente cabo eleitoral do petista

21 de Junho de 2026, 11:00 0 visualizações
O camisa 10 de Lula: Eduardo Bolsonaro tem se revelado eficiente cabo eleitoral do petista

Diante de uma disputa que promete ser acirrada, Lula escalou seus principais aliados para ajudar em sua campanha à reeleição. Ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad foi obrigado a concorrer ao governo de São Paulo com a missão de impedir que o nome mais competitivo da oposição na corrida presidencial abra uma vantagem superior a 10 pontos percentuais no estado, que é o maior colégio eleitoral do país. Chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, o marqueteiro Sidônio Palmeira recebeu carta branca e um orçamento milionário para divulgar programas oficiais, a fim de melhorar a popularidade do governo. Outras estrelas do escrete petista passaram a desempenhar funções bem específicas dentro do esquema montado pelo presidente para conquistar um novo mandato, mas poucos deles têm contribuído tanto para esse projeto quanto um dos jogadores mais badalados do time adversário, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, chamado ironicamente pelos governistas de “o camisa 10 do Lula”.

TABELA - Lula: ganhando pontos diante dos tropeços do clã Bolsonaro
TABELA - Lula: ganhando pontos diante dos tropeços do clã BolsonaroRicardo Stuckert/PR

O apelido começou a ser usado depois que o filho Zero Três do ex-­presidente Jair Bolsonaro abandonou o mandato parlamentar, mudou-se para os Estados Unidos e, de lá, passou a trabalhar pela aplicação de sanções pelo governo americano à economia e a autoridades brasileiras. Esse esforço, documentado por Eduardo Bolsonaro em entrevistas e mensagens divulgadas nas redes sociais, rendeu os frutos esperados por ele. No ano passado, Donald Trump anunciou um tarifaço às exportações do Brasil, cassou o visto de oito ministros do Supremo Tribunal Federal e aplicou a temida Lei Magnitsky a Alexandre de Moraes, relator do processo sobre a tentativa de golpe. Foi uma forma de, entre outras coisas, pressionar a Corte a não condenar Jair Bolsonaro. Não deu certo. O capitão acabou sentenciado a mais de vinte anos de prisão. Lula aproveitou a ofensiva trumpista para defender a soberania nacional e recuperar popularidade. Já o autoexilado Zero Três teve o mandato cassado pela Câmara e, agora, sofreu um grave revés judicial.

Na terça-feira 16, a Primeira Turma do STF condenou o ex-deputado, por unanimidade, a quatro anos e dois meses de prisão por tentativa de coação no curso do processo da trama golpista, com base em seus esforços pelas sanções. Cabe recurso à decisão, que também tornou Eduardo Bolsonaro inelegível pelos próximos oito anos, impedindo-o de ser suplente numa chapa ao Senado por São Paulo, como ele pretendia.

SENTENÇA - STF: quatro anos e dois meses de prisão por tentativa de coação
SENTENÇA – STF: quatro anos e dois meses de prisão por tentativa de coaçãoLuiz Silveira/STF
Continua após a publicidade

Em entrevista a VEJA, o Zero Três disse que não foi notificado formalmente do caso, que Moraes deveria ter se declarado impedido, por se colocar nos papéis de julgador e de vítima, e alegou que não pode ser responsabilizado pelas sanções. “Se eles tivessem um mínimo de coerência e coragem, colocariam o Donald Trump no banco dos réus. O julgamento do meu pai é igualzinho ao meu, um jogo de cartas marcadas. Ele (Moraes) quer se mostrar perverso para que ninguém neste país ouse entrar em conflito com ele”, afirmou. Principal rival de Lula nas pesquisas, o senador Flávio Bolsonaro saiu em defesa do irmão, que teria sido vítima de uma “grande injustiça” e de “vingança”, segundo suas palavras. “É muito ruim nós continuarmos vivendo no Brasil sob esse clima de insegurança jurídica em que tudo é instrumentalizado para perseguir as pessoas de que você não gosta”, reagiu o Zero Um.

O inquérito sobre a tentativa de coação foi aberto em maio de 2025 e julgado pouco mais de um ano depois. Para Flávio Bolsonaro, a situação jurídica é a menor das preocupações na relação com o irmão. O voluntarioso Eduardo Bolsonaro tem ajudado a equipe de Lula e distribuído caneladas em seus colegas de oposição. Recentemente, Donald Trump anunciou novas sobretaxas às exportações brasileiras como resposta a supostas práticas anticoncorrenciais do Brasil — entre elas, o uso do Pix, que prejudicaria bandeiras de cartão de crédito americanas.

COINCIDÊNCIA? - Michelle: post com rodelas de banana interpretado como crítica ao enteado
COINCIDÊNCIA? - Michelle: post com rodelas de banana interpretado como crítica ao enteadoPL/.
Continua após a publicidade

Como fez no ano passado, Lula aproveitou politicamente a ocasião. Ele logo saiu em defesa do Pix, dizendo que ninguém mexeria nesse patrimônio nacional. Sentindo o risco de desgaste, Flávio Bolsonaro repetiu o mesmo discurso, mas foi surpreendido por uma entrevista desastrosa do irmão. “Os Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como, por exemplo, o Zelle. Então, dá para você ir para uma mesa de negociação com os americanos com bons argumentos. Dá para você sentar, dá para negociar”, declarou Eduardo dando a impressão — que ele negou depois da repercussão negativa — de que aceitaria a substituição do modelo brasileiro pelo americano. Os irmãos também se envolveram na encrenca do Banco Master. A Polícia Federal investiga a suspeita de que parte dos 134 milhões de reais pedidos pelo senador para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro possa ter ajudado a custear em solo estadunidense a estada do deputado, que era produtor do filme — ele também nega a suspeita.

A movimentação do Zero Três tem criado ainda outro tipo de problema para a campanha do irmão. Nos últimos dias, Eduardo defendeu a escolha da deputada federal Júlia Zanatta (PL-­SC), expoente do bolsonarismo mais radical, para vice na chapa de Flávio Bolsonaro, que procura, no entanto, um quadro que lhe dê algum verniz de moderação. Está faltando entrosamento entre os rebentos. Não só entre eles. Considerada um dos mais valiosos ativos da oposição, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro até agora não entrou na campanha de Flávio Bolsonaro porque, entre tantos dissabores, acusa os enteados, especialmente Eduardo Bolsonaro, pelos ataques que sofre nas redes. Michelle não bate-boca em público, mas se permitiu reagir ao Zero Três com uma provocação, quando publicou uma foto de rodelas de banana, o que foi interpretado até por políticos de direita como uma menção ao apelido de “Bananinha” usado pelos petistas para desdenhar do deputado cassado.

SUSPEITA - Cinebiografia: PF investiga se o Zero Três usou dinheiro do Master
SUSPEITA - Cinebiografia: PF investiga se o Zero Três usou dinheiro do Master./Reprodução
Continua após a publicidade

Ajudado pelas trombadas dos rivais, Lula tem avançado, recuperando popularidade e intenções de voto. Além do anúncio de bondades estimadas em mais de 200 bilhões de reais, o presidente usa como motor de sua campanha o discurso em defesa da soberania nacional e, como símbolo maior dessa bandeira, do Pix. Em viagem para a reunião do G7, da qual também participou Donald Trump, Lula classificou de desaforo as decisões dos Estados Unidos de impor novas taxas e classificar — tal qual solicitado por Flávio e Eduardo Bolsonaro — as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho como organizações terroristas. O presidente também reagiu à declaração de Trump segundo a qual o Brasil é um país politicamente perigoso. “Ele pode continuar gostando do Bolsonaro, do pai, do filho, do neto, não tem nenhum problema, afinal gosto não se discute. Agora, não se meta nas eleições do Brasil”, rebateu em tom desafiador. Sem encantar a torcida, Lula contra-ataca nos espaços abertos pelos oponentes. Mais experiente em campo, ele sabe que também se ganha campeonato com a ajuda dos rivais.

Publicado em VEJA de 19 de junho de 2026, edição nº 3000

Publicidade

Veja Também

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar.

Deixe seu Comentário

Os comentários passam por moderação antes de serem publicados.