O impacto da chegada de tratamento sem hormônios para amenizar sintomas da menopausa
A história até começa nos ovários — as glândulas que, entre os 45 e os 50 anos, deixam de fabricar os hormônios femininos. Mas quem assume o protagonismo daí em diante é o cérebro. São mudanças ali que transformarão a vida da mulher, abrindo caminho inclusive a uma série de percalços físicos e emocionais. Essa nova visão da menopausa é defendida por neurocientistas como a italiana Lisa Mosconi, que lidera um centro de pesquisa nos Estados Unidos e publicou livros que se tornaram best-sellers internacionais diante da crescente busca por explicações e soluções para o período do climatério. Pudera: hoje são mais de 1 bilhão de mulheres no planeta encarando a fase que antecede e sucede ao fim da menstruação e da capacidade reprodutiva. Não à toa, o cérebro é o alvo de uma medicação inédita no país para domar as ondas de calor e os suores noturnos que abalam o bem-estar nessa etapa da vida — uma pílula que também é uma alternativa à reposição hormonal.
O alívio vem na forma de comprimidos de uso diário com o princípio ativo fezolinetanto. Desenvolvido pela farmacêutica japonesa Astellas, ele acaba de ser aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e chegará às drogarias com o nome comercial Veoza. A medicação é indicada a mulheres na transição para a menopausa ou na pós-menopausa com quadros moderados ou intensos de fogachos e outras manifestações que afetam o sono e a disposição. O diferencial do fármaco é justamente agir na raiz do problema. “Pela primeira vez, temos um entendimento mais amplo da origem desses sintomas e um medicamento não hormonal que atua diretamente no centro regulador da temperatura corporal, localizado numa região do cérebro chamada hipotálamo”, afirma a ginecologista Thaís Ushikusa, diretora médica da Astellas no Brasil.

O aval concedido ao remédio se baseia em estudos que, ao todo, testaram o produto em mais de 3 000 mulheres — ele demonstrou melhora significativa tanto na intensidade como na frequência dos sintomas. Trata-se de uma queixa extremamente prevalente. “As ondas de calor são o sintoma mais importante e com maior impacto na qualidade de vida dessa população: afetam 80% das mulheres na menopausa e 20% delas as consideram intoleráveis”, diz o ginecologista Nilson Roberto de Melo, presidente da Associação Brasileira de Climatério.
Até então, a principal forma de silenciar o suplício se resumia à reposição hormonal. Mas, embora essa terapia tenha demonstrado seu valor e segurança quando prescrita adequadamente, o fato é que existem contraindicações. O fezolinetanto se coloca, assim, como uma opção a mulheres que não podem usar hormônios, devido ao histórico de câncer de mama, trombose ou acidente vascular cerebral (AVC), e àquelas que não responderam a essa terapia na tentativa de mitigar o calorão. “Também é uma alternativa às pacientes que têm medo dos hormônios e não querem utilizá-los”, pontua Melo.
Não se trata de mero luxo poder apagar os fogachos e outros eventos desconfortáveis do climatério. Pesquisas revelam que eles pioram a qualidade do sono e afetam até o rendimento profissional. Em uma análise das mulheres tratadas com Veoza, os especialistas descobriram que o medicamento reduziu em 30% a perda de produtividade no trabalho e em 20% as limitações nas atividades diárias. Por meio de um dispositivo eletrônico conectado às voluntárias, também observaram que o sono delas tornou-se mais estável e reparador, sem tantos despertares motivados pelas alterações na temperatura corporal. Um refresco para as noites — e os dias.
A aprovação da nova medicação era aguardada por médicos e pacientes desde 2023, quando a Astellas submeteu o produto, já autorizado no exterior, à Anvisa. Os trâmites envolvem agora a definição de preço e da data de lançamento, prevista para o segundo semestre deste ano. A chegada do fármaco ao mercado brasileiro sedimenta uma guinada na oferta de soluções voltadas à menopausa e seu leque de repercussões de ordem física, mental e sexual. Esse é um segmento que não para de crescer e hoje oferece de remédios e suplementos a cremes especialmente desenhados para a pele nessa fase da vida. A demanda, como se vê, é enorme. E, com o avanço da ciência, a medicina está aprendendo a ouvir e remediar as mais diversas “dores” dessas mulheres. Um percurso que passa inevitavelmente pela cabeça delas.
Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001
