Por que a IA fará a Apple aumentar preços do iPhone e do Mac
A Apple planeja elevar o preço de seus principais dispositivos de consumo para compensar o encarecimento global dos chips de memória e armazenamento.
O anúncio foi feito pelo presidente-executivo da companhia, Tim Cook.
De acordo com o executivo, a disparada dos custos na cadeia de suprimentos tornou os reajustes “inevitáveis”.
Embora Cook tenha evitado detalhar o calendário e a magnitude dos aumentos, o movimento sinaliza um impacto direto no lançamento do iPhone 18 e da linha de computadores Mac, em uma reviravolta histórica na dinâmica de poder entre as Big Techs e seus fornecedores.
O apetite da inteligência artificial por silício
O motor por trás do reajuste é a corrida armamentista da inteligência artificial generativa.
Desde que gigantes como Google, Microsoft, Meta e Amazon inflaram seus orçamentos de infraestrutura para construir servidores de IA, os preços dos chips de memória RAM (DRAM) e de armazenamento (NAND) quadruplicaram no mercado internacional.
Projeções da consultoria TechInsights indicam que a pressão inflacionária sobre esses componentes deve se estender até 2027.
Analistas estimam que, para preservar as margens de lucro históricas da Apple, o repasse integral do novo custo fabril poderia encarecer o próximo iPhone Pro em cerca de US$ 270 (aproximadamente R$ 1.450), elevando o preço de partida do aparelho nos Estados Unidos para a faixa de US$ 1.299.
O gargalo de produção ocorre porque as fabricantes de semicondutores, lideradas pelas sul-coreanas Samsung e SK Hynix e pela americana Micron, redirecionaram suas linhas para atender à demanda de chips de alta largura de banda (HBM), exigidos pelas redes de IA.
Um relatório do banco Morgan Stanley aponta que, até 2027, a oferta de silício para eletrônicos de consumo tradicionais, como celulares e PCs, ficará até 15% abaixo da demanda global.
A perda do poder de barganha no Vale do Silício
Historicamente, a Apple utilizava seu caixa trilionário e o status de maior compradora individual de componentes do mundo para sufocar as margens de lucro dos fornecedores e ditar os preços do mercado.
Diante do apetite dos servidores de IA, contudo, a dona do iPhone perdeu a preferência na fila de entrega.
Provedores de computação em nuvem têm fechado contratos de três a cinco anos com as fabricantes de chips mediante adiantamentos bilionários em dinheiro, um modelo de negócios que a Apple, conhecida por sua disciplina de gastos, resiste em adotar.
Cook descartou a possibilidade de a empresa utilizar suas reservas para erguer fábricas próprias de memória, sob o argumento de que a companhia prefere focar em suas especialidades de design e software.
A escassez atinge a Apple em um momento de vulnerabilidade técnica.
Para rodar localmente os novos recursos de inteligência artificial do sistema Apple Intelligence e a versão remodelada da assistente Siri, os próximos iPhones vão demandar uma quantidade significativamente maior de memória RAM do que os modelos anteriores.
Alerta em Washington e pressão na indústria
O repasse de custos da Apple não é um caso isolado. Fabricantes de computadores pessoais como HP e Dell, além da japonesa Nintendo, já iniciaram reajustes em seus portfólios pelo mesmo motivo.
Um consórcio de associações globais da indústria de tecnologia chegou a enviar uma carta conjunta ao governo americano solicitando intervenção federal para conter o desvio de chips para o segmento de IA corporativa.
O Morgan Stanley prevê um aumento médio de 15% nos preços de smartphones e computadores nos EUA ainda este ano.
Embora economistas apontem que o reajuste tenha peso limitado no índice oficial de inflação ao consumidor (CPI), o encarecimento do iPhone, o produto de consumo mais popular do país, deve atrair o escrutínio de reguladores e parlamentares em Washington.