Tietê carrega microplásticos, agrotóxicos e resíduos de medicamentos em toda a sua extensão
O rio Tietê apresenta sinais de contaminação ao longo de todo o seu percurso, da nascente em Salesópolis, na região metropolitana de São Paulo, até a foz no rio Paraná, em Itapura, no interior do estado.
É o que mostra um estudo conduzido por pesquisadores de quatro universidades paulistas e da Fundação SOS Mata Atlântica, que analisou a qualidade da água em diferentes trechos do rio e identificou uma combinação de poluentes que inclui microplásticos, agrotóxicos, metais, resíduos de medicamentos e substâncias associadas ao consumo de drogas ilícitas.
O levantamento, realizado em 14 pontos distribuídos ao longo de mais de 1.100 quilômetros, revela que os problemas ambientais do Tietê vão muito além da poluição visível historicamente associada ao trecho metropolitano.
Mesmo em áreas onde a aparência da água melhora, persistem contaminantes de origem urbana, industrial e agrícola.
Microplásticos aparecem da nascente à foz
Um dos resultados que mais chamaram a atenção dos pesquisadores foi a presença de microplásticos em todos os locais analisados. As concentrações variaram significativamente ao longo do rio, com os maiores níveis encontrados em áreas urbanizadas e em reservatórios.
As partículas eram compostas principalmente por fibras sintéticas, frequentemente associadas à lavagem de roupas, ao descarte inadequado de resíduos e ao lançamento de efluentes domésticos e industriais.
A presença disseminada desse tipo de poluente acompanha uma tendência observada em rios de diferentes partes do mundo.
Estudos recentes publicados em revistas como Nature e Science apontam que os microplásticos já foram encontrados em ambientes aquáticos, alimentos, organismos marinhos e até no sangue humano.
No caso do Tietê, os reservatórios parecem atuar como áreas de retenção dessas partículas, acumulando quantidades superiores às observadas em trechos de correnteza.
Agrotóxicos avançam sobre o interior do estado
As análises também identificaram 25 tipos de agrotóxicos entre os 46 compostos pesquisados. A presença dessas substâncias foi mais frequente nos trechos do Médio e Baixo Tietê, regiões marcadas pela produção agrícola em larga escala.
Entre os produtos detectados está a atrazina, herbicida amplamente utilizado em lavouras de cana-de-açúcar e milho. A substância é proibida na União Europeia desde 2004 por preocupações relacionadas a possíveis impactos ambientais e à saúde humana, mas continua autorizada no Brasil.
Pesquisadores apontam que a detecção desses compostos reforça preocupações já levantadas por estudos da Agência Nacional de Águas (ANA) e de universidades brasileiras sobre o transporte de resíduos agrícolas para rios e reservatórios por meio do escoamento superficial das chuvas.
Cafeína, remédios e cocaína revelam influência humana
Outro grupo de contaminantes identificado inclui substâncias associadas ao consumo humano. Foram detectados resíduos de medicamentos como diclofenaco, carbamazepina e losartana, além de cocaína e benzoilecgonina, principal metabólito da droga.
A cafeína apareceu em todos os pontos analisados. Em estudos de qualidade da água, ela costuma ser utilizada como indicador da presença de esgoto doméstico, uma vez que os sistemas convencionais de tratamento nem sempre conseguem remover completamente esse tipo de composto.
A ocorrência desses resíduos tem sido registrada em diversos rios do mundo e é considerada um desafio crescente para os sistemas de saneamento.
Pesquisas internacionais apontam que muitas estações de tratamento foram projetadas para remover matéria orgânica e microrganismos, mas não contaminantes emergentes como fármacos e compostos químicos de uso cotidiano.
Metais e falta de oxigênio afetam ecossistema
O estudo também registrou concentrações de cobre acima dos limites estabelecidos pela legislação ambiental em todos os pontos monitorados. O metal pode ter origem em atividades industriais, produtos agrícolas e processos de corrosão de tubulações.
Em alguns trechos, especialmente na região metropolitana de São Paulo, os pesquisadores encontraram níveis muito baixos de oxigênio dissolvido, condição que dificulta a sobrevivência de peixes e outros organismos aquáticos.
As piores condições foram observadas em áreas densamente urbanizadas, onde o lançamento de esgoto e o excesso de matéria orgânica aumentam a atividade de bactérias decompositoras, reduzindo a disponibilidade de oxigênio na água.
Recuperação parcial não elimina contaminação
Embora indicadores tradicionais de qualidade da água mostrem melhora em alguns trechos do interior paulista, o estudo sugere que a recuperação do rio é apenas parcial.
A oxigenação aumenta à medida que o Tietê se afasta da região metropolitana, mas contaminantes químicos continuam presentes. Para os pesquisadores, isso evidencia a necessidade de ampliar o monitoramento para além dos parâmetros tradicionalmente utilizados por órgãos ambientais.
O trabalho foi conduzido por especialistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Federal do ABC (UFABC), Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP (Cena-USP), Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) e Fundação SOS Mata Atlântica.
Desafio vai além do saneamento
O diagnóstico reforça um debate que se intensificou nos últimos anos entre especialistas em recursos hídricos.
A recuperação do Tietê depende não apenas da expansão da coleta e do tratamento de esgoto, mas também de medidas voltadas ao controle da poluição industrial, do uso de agrotóxicos, da gestão de resíduos sólidos e da ocupação das margens da bacia hidrográfica.
Apesar dos avanços obtidos desde os anos 1990 com programas de despoluição, os resultados indicam que o principal rio paulista continua refletindo os impactos do crescimento urbano, da atividade econômica e dos padrões de consumo de uma região que concentra mais de 30 milhões de habitantes.