Cinco dos maiores partidos da Câmara ainda não definiram apoio na disputa nacional
O período das convenções é um dos mais importantes para os partidos, que apresentam quem serão seus candidatos e, tão determinante quanto, a quais legendas estarão aliados. A pouco menos de um mês do início dessa etapa, porém, dos oito maiores partidos da Câmara, cinco ainda não decidiram de que lado estarão na disputa nacional. Os únicos que já têm posição definida nacionalmente são os que lançarão nomes para a Presidência: o PT, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva; o PL, de Flávio Bolsonaro; e o PSD, de Ronaldo Caiado. Siglas importantes, no entanto, como União Brasil, PP, Republicanos, MDB e Podemos, que somam mais de 200 deputados, ainda estão em cima do muro, o que deve provocar uma intensa movimentação nessa reta final antes dos encontros partidários, já que o apoio dessas legendas a um candidato pode influenciar os rumos da eleição.

Uma das chaves para entender a demora no processo é a candidatura de Flávio Bolsonaro. Se em 2022, Jair selou cedo a coligação do PL com Republicanos e PP, seu primogênito parece ter mais dificuldade. Além da heterogeneidade comum a esses partidos, há agora uma incerteza sobre o potencial da candidatura do senador, que voltou a ser questionado após a revelação da relação dele com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master. De olho na eleição de grandes bancadas e no controle de ministérios no próximo governo, as legendas de centro-direita ponderam se o endosso a Flávio neste momento traz mais prejuízos do que vantagens. Isso pode complicar a formação de palanques nos estados e queimar pontes se Lula for reeleito.
Um trunfo importante que o filho Zero Um de Bolsonaro tem em mãos é a vaga de vice em sua chapa. O posto está na mesa de negociação, mas o perfil do ocupante ainda desafia a campanha de Flávio. Uma das hipóteses seria escolher uma mulher, talvez do Nordeste, que ajudasse a dar entrada em segmentos do eleitorado onde a candidatura enfrenta dificuldades. A posição é a joia da coroa da articulação porque, além de garantir participação direta em um eventual governo, é um ativo que candidatos podem explorar em suas campanhas. Enfrentando desafios para atrair as legendas de centro-direita para um apoio nacional, aliados do senador vêm defendendo recentemente uma solução dentro do partido, com o lançamento de uma chapa puro-sangue — um nome sugerido por Eduardo Bolsonaro foi a deputada Júlia Zanatta (PL-SC). Essa opção, porém, não ampliaria o alcance eleitoral de Flávio, principalmente entre quem se declara independente. Aliado dos Bolsonaro, o deputado e pré-candidato ao Senado Guilherme Derrite (PP-SP) diz que os nomes mais cotados para vice são a senadora Tereza Cristina (PP-MS) e a deputada Simone Marquetto (PP-SP). “Tenho certeza que o PP vai caminhar para apoiar Flávio. Farei de tudo para que isso aconteça, até porque foi uma das condições para eu migrar do PL para o PP”, diz Derrite.
O apoio, no entanto, não será decidido com muita facilidade. O próprio Derrite reconhece que, em alguns locais, o partido pode liberar seus filiados a apoiarem quem fizer mais sentido em suas bases, embora ressalte que a estrutura da sigla estará dedicada ao projeto de Bolsonaro. Uma ala do PP resiste a essa aliança, inclusive seu presidente, Ciro Nogueira, que se sentiu traído após ser alvo de operação da PF que apura fraudes no Master, em maio. A avaliação é que Flávio teria tentado se distanciar de Ciro, ex-ministro e aliado de Bolsonaro. Dessa maneira, essa corrente defende a neutralidade da sigla no plano nacional, posição que interessa a filiados de alguns estados, como o Piauí de Ciro, onde mais de vinte prefeitos do PP declararam apoio à reeleição do governador Rafael Fonteles (PT). Já na Paraíba é o governador Lucas Ribeiro (PP) que terá o apoio de Lula e do PT.

Outro entrave nessa costura para embarque na candidatura de Flávio é o aval do União Brasil. Por comporem desde março uma federação, os dois partidos têm de concordar com uma composição com o PL. Apesar de pender para o apoio a Flávio, o União também não tem uma posição unânime a respeito disso. No Amapá, por exemplo, o governador Clécio Luis tenta a reeleição com apoio de Lula. O Podemos enfrenta situação semelhante. Se no início do ano o aval a Flávio parecia certo, as conversas perderam força após a revelação de sua relação com Vorcaro.
A cautela também prevalece no Republicanos, do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Embora o chefe do Executivo paulista tenha abraçado a candidatura de Flávio, sua legenda ainda não definiu se embarcará formalmente na candidatura presidencial do PL. Em encontro com lideranças estaduais de São Paulo há poucos dias, o presidente da sigla, Marcos Pereira, ouviu de um deputado estadual manifestação de apoio a Flávio, mas fez questão de registrar que se tratava de posição individual. Segundo Pereira, a decisão do partido deve ser tomada apenas na segunda quinzena de julho, às vésperas da convenção nacional, em 1º de agosto.

Enquanto a direita ainda tenta organizar seu tabuleiro, o cenário é mais estável no campo governista. O PT garantiu o apoio de PDT e PSB e não trabalha com a expectativa de atrair outras grandes legendas nacionalmente. A estratégia tem sido outra: avançar estado por estado, explorando as divisões dos partidos de centro e costurando acordos regionais. Alguns desses acertos são com o MDB, outra grande sigla que não pretende apoiar um candidato nacionalmente. Se em alguns estados o partido pende à direita, como em São Paulo, em outros a legenda negocia o apoio do PT. É o caso em Minas Gerais, onde Gabriel Azevedo (MDB) pode ser o palanque de Lula na disputa pelo governo; no Pará, onde Hana Ghassan (MDB) deve ter um petista como vice; e em Alagoas, onde o ex-ministro Renan Filho (MDB) tenta voltar ao governo alinhado ao presidente.
Mais comum no segundo turno das eleições, a luta por apoios foi antecipada neste ano devido ao número enxuto de candidaturas competitivas. Entre as grandes siglas, além de PL e PT, apenas o PSD decidiu apostar em candidatura própria ao Planalto, com Ronaldo Caiado. Mesmo assim, o cacique do partido, Gilberto Kassab, e o próprio Caiado admitem que governadores da sigla, como Raquel Lyra (Pernambuco), Fábio Mitidieri (Sergipe) e Mateus Simões (Minas Gerais), podem apoiar quem acharem mais conveniente. Em 2022, o PSD adotou essa mesma postura e liberou seus diretórios tanto no primeiro quanto no segundo turno. Para a cientista política Mayra Goulart, da UFRJ, a estratégia funciona mais como uma forma de evitar compromissos do que assumi-los. “Como essa é uma eleição já com perfil de segundo turno, você permite que seus candidatos digam que não apoiam nem Flávio nem Lula, com o pretexto de que seu partido já tem candidato”, afirma. Caiado diz ver a liberação do PSD com muita tranquilidade: “No decorrer da campanha, as coisas vão caminhar e alguns estados irão até surpreender”.

A definição dessas alianças, que parece que ficará para a última hora, tem impacto direto na campanha. Com a maior bancada da Câmara, a federação União Brasil-PP, por exemplo, terá a maior fatia do horário eleitoral. Uma composição com Flávio mais do que dobraria seu tempo na TV. Mais importante, porém, é a capilaridade e a estrutura regional que esses partidos poderiam emprestar a um candidato a Presidência. “O Brasil é um país continental; contar com a mediação de um ator político local, que o eleitor já conhece e tem mais proximidade, é um ativo muito importante”, diz Goulart. Além das questões práticas, há um componente simbólico: o apoio dessas legendas, que controlam prefeituras, governos estaduais e grandes bancadas no Congresso, é também um sinal de quem reúne as melhores condições de se eleger e construir maioria. Em uma eleição disputada, o lado desses partidos pode apontar para onde sopra o vento da disputa.
Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001