Estudo defende que Cade avalie subsídios externos no mercado de delivery
Um estudo inédito do Instituto Esfera de Estudos e Inovação, braço acadêmico do think tank Esfera Brasil, defende uma mudança no olhar do Cade sobre o mercado de delivery de comida no país. A tese é que a análise concorrencial não deve ficar restrita ao market share das plataformas, mas também considerar a origem do financiamento, a persistência dos subsídios e a capacidade de grupos globais bancarem perdas por longos períodos.
O documento, intitulado “Avaliação de Condutas Potencialmente Anticoncorrenciais no Mercado de Delivery de Comida”, cita nominalmente a ofensiva recente de gigantes chinesas como a 99Food, controlada pela Didi, que anunciou investimento de R$ 2 bilhões para relançar sua operação no Brasil, e a Keeta, da Meituan.
O alerta do instituto é que conglomerados altamente capitalizados possam usar estratégias agressivas de curto prazo, como cupons recorrentes, frete subsidiado e comissões zeradas para restaurantes, para ganhar escala rapidamente. A prática beneficia o consumidor no primeiro momento, mas, segundo o estudo, pode enfraquecer concorrentes locais menos capitalizados e abrir caminho para aumento de preços no futuro.
O relatório aponta exemplos internacionais, como Hong Kong e Arábia Saudita, onde plataformas chinesas teriam entrado com fortes subsídios a entregadores e restaurantes, conquistado participação relevante e, depois da consolidação, elevado taxas para comerciantes e reduzido a remuneração dos entregadores. O receio é que a dinâmica se repita no Brasil.
O debate ganha peso pelo tamanho do mercado. O setor de foodservice movimentou cerca de R$ 455 bilhões em 2024, segundo dados citados no estudo. E os aplicativos já respondiam, em 2025, por cerca de 54% do faturamento do delivery de bares e restaurantes, além de gerarem trabalho para aproximadamente 485 mil entregadores.
O economista Guilherme Mendes Resende, professor do IDP e ex-economista-chefe do Cade, que colabora com a análise, afirma que o debate antitruste precisa ir além do preço baixo imediato. “A experiência internacional mostra que guerras de capital podem acelerar processos de concentração com efeitos duradouros sobre inovação e competição”, diz. Para ele, a disputa deve ser baseada no “mérito competitivo” e na sustentabilidade do mercado.
Há, porém, outro lado nessa discussão. Defensores da entrada de novas plataformas argumentam que subsídios e descontos iniciais são ferramentas legítimas para romper barreiras de entrada em mercados concentrados, ampliando as opções para restaurantes, consumidores e entregadores que criticam há anos as taxas cobradas pelas líderes do setor.
Para Camila Funaro Camargo Dantas, diretora-executiva do Instituto Esfera, o objetivo do alerta é garantir isonomia. Na avaliação dela, o Brasil precisa acompanhar a evolução internacional da política concorrencial aplicada às plataformas digitais “para oferecer previsibilidade regulatória e ambiente competitivo saudável” na economia digital.