Falso alerta da Defesa Civil expõe a fragilidade da segurança cibernética estatal no Brasil
Nunca se falou tanto em misantropia no Brasil como nos últimos dias. Na madrugada de sábado, 20, a palavra (que significa “ódio à humanidade”) irrompeu nas telas de 30 milhões de celulares no país, acompanhada da apocalíptica sirene de alerta extremo da Defesa Civil, gerando confusão, medo e o maior volume de pesquisas pelo termo no Google em mais de vinte anos. O bizarro episódio, que virou até tema de um artigo próprio na Wikipédia, ocorreu após a invasão de um hacker às redes do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, órgão ao qual a Defesa Civil é subordinada. O ataque obrigou a retirada do serviço do ar até que a Polícia Federal conclua as investigações para identificar autor e motivação. O incidente serve para mostrar mais uma vez as graves brechas de cibersegurança na rede governamental e o despreparo evidente do país para lidar com as crescentes ameaças digitais.
A invasão ocorre em meio à escalada de ataques cibernéticos contra sistemas federais. No ano passado, o número de notificações de segurança superou a casa de 20 000 registros, um terço a mais que em 2023 (veja o quadro). As ações envolvem desde vazamentos de dados pessoais e golpes até o uso de vírus para desestabilizar sistemas e tirar sites e serviços do ar. Só para citar um exemplo, nos últimos seis anos, segundo o Banco Central, quase 48 milhões de chaves Pix e os dados dos titulares foram vazados de sistemas públicos e privados — uma mina de ouro para cibercriminosos que, de posse das informações, podem prejudicar cidadãos.
O investimento e a urgência do governo para equacionar a questão não têm a mesma escalada. Nos últimos seis anos, o orçamento destinado à cibersegurança foi de 9,3 milhões de reais — e menos de um quarto disso foi gasto. Relatório recente do Tribunal de Contas da União aponta que sete das oito maiores instituições do Estado adotam menos de metade das práticas de proteção digital recomendadas, incluindo o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, que opera o Centro Integrado de Segurança Cibernética (Cisc) do governo e é, numa triste ironia, o principal responsável pela digitalização do Estado.
Um gargalo citado com frequência é a descentralização da cibersegurança no Brasil. A estrutura de resposta às ameaças é capitaneada pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI), que coordena uma rede com mais de 200 órgãos no Executivo e define as melhores práticas de prevenção, mas não tem estrutura para implementar e fiscalizar as barreiras de segurança nos níveis estadual e municipal. “Precisamos de uma autoridade que tenha corpo, capacidade técnica e capilaridade para atuar nacionalmente”, diz André Molina, secretário de Segurança da Informação e Cibernética do GSI. A proposta para criar essa agência central é um dos pilares da Lei Geral da Cibersegurança que o gabinete apresentou em abril à Casa Civil, de onde seguirá ao Congresso para embasar as discussões do marco legal (PL nº 4752/2025) no Senado.

O investimento em tecnologia, contudo, não pode perder de vista um ator central da estratégia de segurança: o próprio ser humano. Metade dos incidentes registrados pelo GSI em 2026 se enquadra como “engenharia social” — ou seja, casos em que servidores públicos ou cidadãos foram induzidos ao erro por manipulação psicológica, falsos sites e e-mails do governo ou desconhecimento sobre o sistema. Juliano Maranhão, professor de direito na USP, explica que há um descompasso entre o fortalecimento das barreiras tecnológicas e o letramento em cibersegurança das pessoas em geral, o que as torna alvos dos hackers. “É preciso treinamento contínuo dos servidores, justamente porque a velocidade da evolução tecnológica torna obsoleta qualquer capacitação que se faça uma única vez”, diz.
Inofensivo à primeira vista, o falso “alerta de misantropia” deixa dois alertas de verdade. O primeiro é a falta de resiliência de serviços vitais para o país, uma vez que a rede de avisos climáticos teve de ser suspensa às vésperas de um El Niño que pode ser o mais devastador já registrado. O outro é a necessidade de preservar a confiabilidade da população nos sistemas públicos. “Mesmo que não tenha sido a intenção do hacker, ocorreu uma negação em larga escala de um serviço da maior importância para o Brasil”, afirma Marcelo Malagutti, assessor especial do GSI. “Qualquer mensagem poderia ter sido colocada naquele alerta. É um ato de ciberterrorismo que gera desconfiança e ataca a própria democracia”, diz Patrícia Peck, professora de direito digital e integrante civil do CNCiber. Em que pesem os esforços de especialistas para trazer a cibersegurança ao topo das prioridades nacionais, é visível que o Estado não fez a lição de casa para fechar a porta a invasões que põem em risco os dados, a segurança, a tranquilidade e a confiança dos cidadãos.
Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001