Inteligência artificial impulsiona aporte de US$ 915 mi das big techs em créditos de carbono
O consórcio Frontier, liderado por gigantes globais da tecnologia para fomentar a remoção de dióxido de carbono da atmosfera, anunciou nesta quarta-feira 17 uma injeção adicional de US$ 915 milhões (cerca de R$ 4,9 bilhões) no setor.
O movimento marca também a adesão formal da Anthropic, startup de inteligência artificial criadora do modelo Claude e uma das principais rivais da OpenAI, como nova integrante do grupo fundado por Stripe, Google, Meta e Shopify.
Com o novo aporte, o volume total de recursos comprometidos pela coalizão atinge a marca de US$ 1,8 bilhão.
O anúncio ocorre em um momento crítico para a indústria de tecnologia: ao mesmo tempo em que as big techs correm para cumprir metas corporativas agressivas de neutralidade de carbono até 2030, a explosão na demanda por data centers de IA coloca em xeque a matriz energética e as emissões globais do setor.
Mudança de foco para contratos de longo prazo
Diferente das rodadas de financiamento anteriores, focadas em pulverizar recursos em dezenas de pequenos projetos experimentais (fase piloto), a Frontier mudou sua estratégia.
A partir de agora, o grupo adotará o modelo batizado de “Growth AMC” (Compromisso de Mercado Avançado para Crescimento, na sigla em inglês).
Na prática, a coalizão planeja firmar de 10 a 15 contratos de compra antecipada (chamados de offtakes).
Esses acordos terão duração de oito a dez anos, estendendo-se até 2040, com o objetivo de dar previsibilidade financeira a empresas de tecnologia climática que já superaram a fase de laboratório.
Os valores exatos aportados individualmente por cada companhia integrante não foram divulgados.
Os investimentos serão direcionados a quatro frentes principais, consideradas cruciais por cientistas para mitigar os impactos de setores difíceis de descarbonizar, como a aviação e a indústria pesada:
Captura Direta de Ar (DAC): Sistemas industriais que filtram e isolam o CO₂ diretamente da atmosfera;
Intemperismo Acelerado de Rochas: Distribuição de minerais triturados em solos para acelerar o processo natural de absorção de carbono pela terra;
Alcalinização Oceânica: Adição de compostos alcalinos à água do mar para aumentar sua capacidade de retenção de CO₂ e combater a acidificação dos oceanos;
Remoção Baseada em Biomassa: Processos que utilizam resíduos orgânicos para reter carbono antes de sua decomposição.
Segundo estimativas da Frontier, embora cada uma dessas tecnologias ainda apresente riscos técnicos e operacionais elevados, elas são as únicas capazes de atingir, de forma conjunta, a escala de gigatoneladas exigida para frear o aquecimento global.
O “boom” da IA e a corrida contra o relógio climático
A entrada da Anthropic é considerada emblemática por analistas de mercado.
É o primeiro grande compromisso público com a remoção de carbono feito por uma empresa cujo modelo de negócio é focado puramente em inteligência artificial generativa.
A expansão massiva das redes neurais de IA exige infraestruturas de processamento de dados sem precedentes, gerando um consumo elétrico exponencial.
Esse cenário tem gerado atritos internos nas big techs, cujos relatórios de sustentabilidade recentes já apontam um repique na curva de emissões totais de gases de efeito estufa.
Especialistas em mercado de carbono apontam que a iniciativa da Frontier também tenta corrigir uma distorção estrutural.
Atualmente, a Microsoft é a maior compradora isolada de remoção de CO₂ do planeta, respondendo por cerca de 75% dos créditos comerciais transacionados globalmente (cerca de 37 milhões de créditos comprados, segundo dados da consultoria CDR.fyi).
Ao consolidar uma coalizão com o dobro de capital de giro, Google, Meta, Stripe e Anthropic buscam descentralizar o mercado e mitigar os riscos de depender de um único grande comprador para viabilizar a transição ecológica industrial.