Investidor que ficar 100% no CDI pode perder oportunidades com queda gradual da Selic, diz Banco Bari
A combinação de inflação resistente e perspectiva de redução gradual da taxa Selic está levando especialistas a defender uma postura mais estratégica por parte dos investidores. Embora a renda fixa pós-fixada continue oferecendo retornos elevados no atual ciclo de juros, a concentração excessiva nesses ativos pode comprometer ganhos futuros à medida que o Banco Central iniciar um processo mais consistente de flexibilização monetária.
Segundo Giuseppe Moro, head de Investimentos do Banco Bari, o cenário atual exige uma visão mais ampla sobre a composição das carteiras. A projeção do mercado é que a Selic recue dos atuais patamares elevados para cerca de 13,50% no fim de 2026 e 11,50% em 2027, enquanto a inflação segue acima do centro da meta. “O investidor brasileiro está mais sofisticado, mas ainda carrega alguns vícios de ciclos anteriores. A tentação de concentrar tudo em aplicações atreladas ao CDI é compreensível, mas o cenário de transição exige mais diversificação”, afirma.
A avaliação ocorre em um momento em que o mercado acompanha atentamente os próximos passos do Comitê de Política Monetária (Copom). Mesmo com a expectativa de cortes graduais nos juros, as projeções para o IPCA continuam pressionadas, reforçando uma postura cautelosa da autoridade monetária. Para Moro, o principal risco é que muitos investidores observem apenas o rendimento nominal dos ativos pós-fixados sem considerar a perda gradual de atratividade ao longo do ciclo de queda dos juros. “O pior cenário para quem está 100% em pós-fixado é ver a taxa real diminuir enquanto a inflação permanece elevada”, diz.
Janela de oportunidade
Na visão do executivo, o ambiente atual pode representar uma oportunidade para investidores que buscam travar retornos elevados antes que o ciclo de afrouxamento monetário avance.
Entre as alternativas citadas estão títulos públicos atrelados à inflação, especialmente os de prazo mais longo, que hoje oferecem taxas reais consideradas historicamente atrativas. Segundo Moro, momentos semelhantes foram observados apenas em períodos de maior estresse econômico, como a crise financeira global de 2008 e a crise fiscal brasileira de 2015.
Além dos títulos públicos, o especialista destaca instrumentos ligados ao mercado imobiliário, como Letras de Crédito Imobiliário (LCI), Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) e Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs), que combinam proteção inflacionária e benefícios tributários para pessoas físicas.
Crédito imobiliário ganha espaço
O Banco Bari também observa crescimento na demanda por crédito com garantia de imóvel, mesmo em um ambiente de juros elevados. Dados da ABECIP mostram que o segmento movimentou 3,16 bilhões de reais no primeiro trimestre de 2026, avanço de 25,83% na comparação anual e o maior volume da série histórica para o período.
De acordo com Moro, o produto tem se beneficiado do diferencial de taxas em relação ao crédito pessoal tradicional, além das mudanças trazidas pelo Marco das Garantias, que ampliaram as possibilidades de utilização dos imóveis como garantia em operações financeiras.
Para o executivo, o mercado brasileiro ainda possui amplo espaço para expansão. Enquanto o home equity representa apenas uma pequena parcela do crédito imobiliário nacional, em países como Estados Unidos e Reino Unido a modalidade responde por mais de 30% das operações do setor. “A queda gradual da Selic não significa o fim das oportunidades na renda fixa. O desafio agora é construir uma carteira equilibrada, capaz de combinar liquidez, proteção contra a inflação e potencial de valorização no médio e longo prazo”, conclui.