Mercado vê Fed mais cauteloso na estreia de Kevin Warsh
O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, manteve nesta quarta-feira, 17, a taxa básica de juros na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano. A decisão foi unânime e já era amplamente esperada pelo mercado, marcando a quarta reunião consecutiva sem mudanças no custo do dinheiro.
Apesar de não surpreender quanto ao nível dos juros, o comunicado divulgado após a reunião trouxe mudanças importantes na orientação da política monetária. Foi a primeira decisão sob o comando de Kevin Warsh e o texto retirou a sinalização de que cortes de juros poderiam ocorrer nos próximos meses, indicando uma postura mais cautelosa diante da inflação.
“O Comitê demonstrou sua perspectiva de que a inflação deve permanecer acima do desejado por mais tempo, demandando uma política monetária mais restritiva”, afirma Camilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby Capital.
O novo conjunto de projeções divulgado pelo Fed reforçou essa leitura. O chamado dot plot, que reúne as expectativas individuais dos integrantes do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), passou a mostrar um colegiado dividido entre manter os juros no nível atual e promover ao menos uma alta até o fim de 2026.
“Na reunião anterior havia expectativa de um corte de juros neste ano. Agora esse viés desaparece, refletindo a preocupação do Fed com as pressões inflacionárias”, diz Bruno Yamashita, coordenador de alocação e inteligência da Avenue. Segundo ele, o cenário também incorpora os riscos de novos choques de preços, principalmente no mercado de energia, em meio às tensões no Oriente Médio.
A leitura mais dura do comunicado repercutiu rapidamente nos mercados financeiros. Após a decisão, investidores reduziram as apostas em cortes de juros nos próximos meses, enquanto o dólar ganhou força frente a outras moedas e os rendimentos dos títulos do Tesouro americano avançaram.
“Isso reforça que estamos diante de um Fed em transformação, com potenciais mudanças estruturais à frente”, afirma Vinicius Flores, analista de investimentos e sócio da Stratton Capital. “Esse ambiente é negativo para a bolsa americana, aumenta o custo de capital das empresas, fortalece o dólar e pressiona os preços dos Treasuries, que precisam se ajustar ao novo patamar de juros”, ele conclui.