Montadoras pressionam governo a manter tarifas sobre carros elétricos importados
As montadoras instaladas no Brasil intensificaram a pressão sobre o governo federal para manter o cronograma de aumento das tarifas de importação de veículos elétricos e híbridos, em meio ao crescimento acelerado da presença de marcas chinesas no mercado nacional.
Em carta aberta divulgada nesta sexta-feira (19), a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) defendeu a manutenção integral das regras definidas pelo governo para a retomada gradual do imposto de importação sobre veículos eletrificados.
A entidade também se posicionou contra a renovação de benefícios tributários para a importação de kits destinados à montagem de veículos no país.
A manifestação ocorre em um momento de forte transformação da indústria automotiva brasileira.
Nos últimos três anos, o país se tornou um dos principais destinos da expansão internacional de fabricantes chinesas, especialmente de veículos elétricos e híbridos.
Empresas como a BYD e a GWM ampliaram investimentos no país e passaram a disputar espaço com montadoras tradicionais.
Debate envolve futuro da eletrificação no Brasil
O governo retomou a cobrança do imposto de importação para veículos elétricos em 2024, após anos de alíquota zerada. A medida foi adotada de forma gradual para estimular a produção local sem interromper o avanço da eletrificação da frota.
O cronograma prevê aumentos sucessivos até a recomposição integral das tarifas nos próximos anos.
Para as montadoras associadas à Anfavea, alterar as regras agora comprometeria investimentos anunciados desde o lançamento da política industrial para o setor.
Segundo a entidade, fabricantes instaladas no Brasil anunciaram mais de R$ 140 bilhões em investimentos até 2033, voltados à eletrificação, pesquisa, engenharia, descarbonização e ampliação da cadeia de fornecedores.
Estoques elevados alimentam preocupação
Um dos principais argumentos apresentados pela associação é o aumento dos estoques de veículos importados.
De acordo com a Anfavea, os estoques chegaram ao equivalente a 150 dias de vendas em maio deste ano, impulsionados pela entrada de modelos importados. A entidade afirma que algumas empresas estariam aproveitando a fase final das tarifas reduzidas para antecipar importações antes da conclusão do cronograma de recomposição tributária.
O movimento ocorre enquanto novas marcas continuam chegando ao país. Apenas no primeiro trimestre de 2026, segundo a associação, onze fabricantes iniciaram operações no mercado brasileiro.
Produção nacional disputa espaço com importados
A disputa ocorre justamente quando as montadoras instaladas no Brasil ampliam a produção local de veículos eletrificados.
Segundo dados citados pela Anfavea, os modelos eletrificados produzidos no país responderam por 26% das vendas do segmento em 2025. Em 2026, essa participação já alcançou 40%.
Ao mesmo tempo, os emplacamentos de veículos eletrificados importados cresceram 214% entre 2023 e 2025.
O cenário evidencia uma disputa crescente entre dois modelos de expansão da eletromobilidade: de um lado, empresas que defendem a fabricação local e o fortalecimento da cadeia de fornecedores; de outro, fabricantes que apostam inicialmente na importação de veículos ou de conjuntos parcialmente montados para acelerar a entrada no mercado brasileiro.
Montagem com kits importados também vira alvo
Outro foco da discussão envolve a importação de kits industriais utilizados na montagem de veículos no Brasil.
A Anfavea argumenta que esse mecanismo pode ser útil durante a fase inicial de instalação de uma fábrica, mas afirma que sua utilização prolongada reduz incentivos para a nacionalização de componentes e para o desenvolvimento de fornecedores locais.
A entidade defende o encerramento das cotas que permitiam a importação desses kits sem recolhimento integral de tributos e se posiciona contra a criação de mecanismos que possam substituir esse benefício.
Governo terá de equilibrar concorrência e política industrial
A discussão ocorre em um momento em que o governo busca ampliar a participação dos veículos de baixa emissão no mercado brasileiro sem comprometer os investimentos industriais anunciados para o país.
De um lado, a maior concorrência tende a ampliar a oferta de modelos e pressionar preços. De outro, as montadoras instaladas no Brasil argumentam que a previsibilidade regulatória é fundamental para justificar investimentos de longo prazo em fábricas, centros de engenharia e fornecedores nacionais.
A decisão sobre eventuais mudanças nas tarifas poderá influenciar o ritmo de nacionalização da produção de veículos eletrificados e o posicionamento do Brasil na cadeia automotiva nos próximos anos.